Terapia do cuidado...

O verbo grego therapeuo e o substantivo therapeía expressam o duplo sentido dessa palavra: cuidar e curar. A missão essencial dos terapeutas é cuidar, mas normalmente são considerados mais como tratadores da doença do que de cuidadores da saúde. O autêntico terapeuta não se deixa enganar pelo aparente caos presente no outro.

Há duas maneiras de olhar para um ser humano: 1. Como um ser caótico que só se dirige para a morte; 2. Esse ser humano, traumatizado, fragilizado e ferido, é imagem de Deus, espaço de liberdade e harmonia.

O terapeuta acredita na força de vida presente no outro e que pode ajudá-lo a atravessar as dificuldades e limitações e tem consciência de que todos têm riquezas, criatividade, inspiração e intuição... Cuidar alguém é prestar atenção no saudável nele, pois é a partir desse estado de saúde que se poderá integrar e curar as feridas e fragilidades.

O terapeuta trabalha com a saúde que há no coração da doença. Ele lembra que há seiva na árvore que cresce em direção à luz, mas que também tem raízes. Uma árvore sem raízes não ficará de pé.

Se uma pessoa tem “uma asa quebrada” ou um “nó na memória” que a impede de avançar, o terapeuta procura ajudá-la a prosseguir do lugar em que parou, onde o medo a fixou, para que ela volte a acreditar na força da vida e superar esse medo e desfazer esse nó. Podemos agregar à definição de saúde (bem-estar psico-somático-social-ambiental-espiritual) a tendência à transparência e à verdade, beleza e bondade.

Cuidar é, pois, dar atenção, descentrar-se e sair em direção ao outro, participando da sua existência. Quem já foi tocado pelo olhar de uma pessoa pobre ou sofredora e se deixou penetrar por ele sabe que não se sai “ileso” desta experiência; algo muda dentro de si. É certamente uma “experiência de Deus”, uma experiência de ter conhecido no rosto do pobre, o rosto de Cristo. É preciso, pois, sair do próprio amor, querer e interesse, como nos diz S. Inácio de Loyola nos Exercícios Espirituais.

O cuidado desperta encantamento, admiração e assombro, e são remédio contra o tédio e a apatia, feridas do nosso tempo. Cuidado e trabalho se complementam. E essa parceria arranca de nós a sensação de sermos fazedores de coisas e iremos perceber que a nossa vida terá mais sabor, cor, tonalidade e ritmo do que imaginamos; o “agir” segue ao “ser” e a arte do cuidado pede não a “autoridade de poder”, mas a autoridade da misericórdia. O amor é a expressão mais alta do cuidado, porque tudo o que amamos, também cuidamos. E o que cuidamos, também amamos.

Só num contexto de cuidado a “vida verdadeira” pôde surgir!

Uma pergunta: Você realmente cuida bem dos outros? 

4 comentários:

  1. frsonia@puc-rio.br9 de março de 2012 08:34

    Maravilhosa reflexão, P. Ramon! Como precisamos de verdadeiros terapeutas!

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  2. Você é cara ! VALE A PENA LER TEU BLOG !!!
    APRENDO MUITOOOOOO...

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  3. Pe. Ramon, este texto, "Terapia do Cuidado" na 1ª reuniaõ de Pais. E aí escrevi uma oração para finalizar.
    Oração do Cuidado










    Senhor, nosso Deus e nosso Pai, reveste-nos de ternura, bondade, humildade, delicadeza e paciência para exercermos a arte de cuidar.

    Ensina-nos a arte de sentir o outro e escutá-lo.

    Ensina-nos Senhor, a termos um olhar desarmado.

    Ensina-a nos envolver, acompanhar e sentir o
    outro, para acolhê-lo na sua diferença.

    Ensina-nos conhecer o outro com o coração,

    Ensina-nos Senhor a respeitar as fragilidades, sermos como

    o jardineiro que cultiva a planta colaborando com a seiva que a

    enraíza na profundeza da terra e a faz crescer para a luz.

    Reveste-nos Senhor com o Vosso amor.

    Faça-se presente em nossa vida e na vida de nossos filhos,

    para que possamos viver plenamente a arte de cuidar, de

    educar.

    Nós vos louvamos Senhor pela missão que nos deste, de

    sermos cuidadores para que a vida sobre a terra se mantenha e se plenifique . Amém!
    Maria Izaura e Jussara

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  4. O cuidado é o sinal de amor, de um abrir-se ao outro. O cuidado cristão, além de levar a uma abertura ao outro, ao grande Outro, de fato faz a pessoa "sair do próprio amor, querer e interesse, como nos diz S. Inácio de Loyola nos Exercícios Espirituais", e por isso é forte, transforma vidas, estruturas, vence a morte.
    Rezando o texto do bom samaritano, vejo a função daquele que dá os EE como a do estalajadeiro, que, no silêncio e anonimato, cuida e trata das feridas daquele que, temporariamente, está entregue aos seus cuidados, mas o que de fato salva é o Bom Samaritano, só mesmo Deus.

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