Grau de sensibilidade em relação à Igreja...

Saber respostas e compreender perguntas ou amar?...
As regras para sentir com a Igreja foram escritas por Inácio de Loyola em 1534, numa Paris animada e perturbada pela iniciante Reforma luterana. O contexto, pois, destas regras é a exultação espiritual "carismática" e o exercício da própria consciência, condicionados apenas pelos costumes da sociedade e as normas oficiais da Igreja.

1. Tempos passados, presentes e futuros. O Renascimento foi um tempo de grande criatividade, mas também de intrigas mesquinhas. O exercício da própria liberdade entrava em conflito com o compromisso social e com a força da tradição, gerando dúvidas intermináveis. O quotidiano comum começava a ser questionado pelos mais livres e avançados. O novo, o "moderno emergente”, carecia muitas vezes de objetividade e se perdia na subjetividade mais exacerbada. Os questionamentos eram constantes; começavam por coisas secundárias, mas acabavam implicando e atingindo a convivência social. Novas experiências exigiam novas certezas e estas não estavam ao alcance de todos!

Hoje vivemos situações semelhantes: a queda das grandes utopias e sonhos, a mudança de paradigmas e valores fundamentais estão gerando uma nova cultura e relacionamentos pessoais interpostos. As culturas perderam suas raízes; escureceu-se o horizonte e as pessoas se aconchegam umas nas outras, buscando calor humano e sentido de vida, pois tremem de solidão e frio.

A modernidade, com todo sua parafernália de técnica, ciência e razão, não cumpriu o que prometera: a felicidade. O mundo globalizado se fez cada vez menor e disputado. Poucos conseguem competir constantemente em busca de uma qualidade de vida que nunca chega. As pessoas cansaram; desistiram de correr e querem viver, com prazer, o pouco tempo que lhes resta. Decidimos contentar-nos com pouco, e com o descartável, pois o grande e permanente parece inalcançável.

Este subjetivismo extremado, sem referências à tradição, limita com o anárquico. Quando tudo é válido ou verdadeiro, nada parece importante e sério! No há dúvida que o melhor critério é a prática da caridade transformada em serviço.

2. Um enunciado importante: "Para o sentido verdadeiro que na Igreja militante devemos ter, guardem-se as seguintes regras" (EE352). Eis o título que santo Inácio deu a este conjunto de regras, para serem lidas e confrontadas no final dos Exercícios Espirituais (EE).

No início dos EE, Inácio pede para confrontar a própria vida com os mandamentos da Lei de Deus (EE238-243). Quem faz isso colocará, mais cedo ou tarde, esta pergunta: "Eu vivo a partir dos 'meus' mandamentos ou dos mandamentos 'de Deus'? O exercitante, aos poucos,  percebe que "seus próprios mandamentos" pouco ou nada têm a ver com aqueles dados por Deus a Moisés, no monte Horeb. Os "dez mandamentos" e não os nossos, são uma primeira percepção naqueles que se abrem a Deus.

3. Sentir, sentido e sentimentos. Inácio, conhecedor de suas infinitas incoerências e fantasias, é um autêntico mestre da suspeita. Ele fala do "sentido verdadeiro” que na Igreja militante (limitada e histórica!) devemos ter. O importante não é o “sentido", mas osentido verdadeiro”. Se há um sentido verdadeiro é porque pode haver também um "sentido falso". O "sentir falso" caracteriza-se pela sua negatividade, fechamento, rejeição e desorientação.

Há pessoas que sentem tudo e todos "negativamente". A reação afetiva e efetiva desse "sentir falso" é desprezo, agressão, "mal-dição" e desolação. Não são poucos os que caminham pela vida assim!  "Tendência", "intenção" e "sentido" são, neste caso, sinônimos. "Sentido verdadeiro" ou "falso" definem as zonas mais profundas da pessoa, marcam seu caminho e colorem o seu horizonte.

Sentir na Igreja é um passo a mais do "sentido verdadeiro". Nunca foi fácil pertencer, de corpo e alma, a uma pessoa ou a uma instituição. Antes de avaliar o sentir "na" Igreja precisaríamos checar o sentir "interpessoal" (nada fácil!) e o sentir "social" (muito complexo!). São tantos os traumas que carregamos que mal nos entendemos e dificultam a melhor compreensão dos outros. Em geral, nosso "sentir" não só "não é verdadeiro" como, possivelmente, também é "ferido", complicando ainda mais nossos relacionamentos, como também a pertença à Igreja.

As pessoas são um mistério; a Igreja também. Luzes e sombras, graça e pecado tecem a nossa vida. Nossas profundezas escondem, em estranha co-habitação, anjos e demônios, ali nascidos ou depositados. Quem acolher misericordiosamente esta realidade ferida e fendida começará a dar os primeiros passos para re-orientar sua sensibilidade positivamente, seja em relação à Igreja santa e pecadora ou às pessoas, sempre mesquinhas e limitadas.

Facilmente nos desviamos das limitações dos outros e não os acolhemos, pois vivemos condicionados pelas leis do prazer ("atração" e "rejeição") e do ter. Só o amor acolhe o outro com suas limitações! 

As chagas históricas da Igreja provocam, em alguns, desconfiança e ceticismo. A incoerência, manipulação e prepotência levaram, não poucos, a viver em paralelo ou refugiando-se em seitas estranhas e fundamentalistas. Precisa-se de maturidade para não se perder com as limitações dos outros, pois é mais fácil desprezar, se isolar ou agredir. Tudo isso é fruto de um "sentir falso" e negativo.

4. Condicionamentos, liberdade e decisão. Experiência e liberdade fazem parte da vida, mas provavelmente são condicionamentos pela nossa história de vida. Vida e história, espaço e tempo nos limitam e enquadram. Não há liberdade absoluta, nem decisões incondicionais. Somos contingentes e, ao mesmo tempo, misteriosamente responsáveis pelas decisões tomadas. 

Qual o grau de liberdade que temos para decidir? Uns se acostumaram a tomar decisões condicionadas; outros vivem a partir do já decidido pelos meios de comunicação social e a moda. Não somos “clonados", mas vivemos como se o fôssemos! O decidido, provavelmente já estava condicionado. Há quem vive "fazendo de conta" que decide. Engana-se rotundamente. Neste mundo globalizado, vivemos em dependência uns dos outros. Somos um emaranhado de condicionamentos mas, ao mesmo tempo, somos chamados a decidir a própria vida do melhor modo possível.

Nossas decisões estão condicionadas pelo “sentir afetivo" e esse “sentido" é dado pela sensibilidade e não tanto pela liberdade. Há, pois, uma sensibilidade sem liberdade, condicionada; e uma “liberdade insensível" existe?

Se na sensibilidade há uma intenção negativa, osentir" estará condicionado e ferido ("sentir falso") e a liberdade comprometida. Pelo contrário, se a intenção for “positiva" (aberta, simpática, empática ... ) o sentido será “verdadeiro" e a decisão poderá ser mais coerente e livre.

Não há, pois, uma "sensibilidade neutra”, pois ou ela é falsa ou verdadeira. Dependerá de cada um, perceber esta realidade e decidir do modo mais adequado e possível. Daí, a importância destas “regras" paradigmáticas, para verificar o grau de sensibilidade e pertença a Jesus e à sua Igreja.

5. Em busca da subjetividade perdida. A sociedade pós-moderna separou-nos, perigosamente, das nossas raízes morais e religiosas. Por todo lado prima o subjetivismo, produzindo um mundo pluralista, sectário e fragmentado. Cada um faz o que quer, quando e como quer.

Para a maioria dos jovens, o futuro não é importante. Ele se apresenta como ameaçador e perigoso. Para eles, só resta viver intensamente o presente; tudo e ao mesmo tempo! Este é o pensamento dominante nos dias de hoje. Viver o momento, sem compromissos e regras. O resultado é desastroso!

Mas, quem consegue ser totalmente "objetivo"? Quem não se perde nos condicionamentos próprios ou alheios? Quem consegue superar satisfatoriamente seus afetos e desafetos nas suas percepções e decisões?

Somos limitados, condicionados e, entretanto sonhadores. O desejo de ir além do que somos e temos, supera nossos próprios limites.  No meio desse entrechoque, decidimos pelo sentir "positivo" ou "negativo".

Estas regras inacianas ajudam a tomar consciência do próprio sentir. Podemos dividi-las em três partes:
  1. Confrontar nossa sensibilidade com coisas. Confrontar a sensibilidade (já condicionada pelo inconsciente), com coisas existentes fora de nós é uma experiência interessante. Sinto as coisas positiva ou negativamente? 
  2. Confrontar nossa sensibilidade com pessoas. Não só nos confrontamos com coisas, mas também e frequentemente com pessoas que despertam em nós, reações afetivas que delimitam nossas decisões.  Sinto as pessoas positiva ou negativamente?
  3. Confrontar nossa sensibilidade com propostas e verdades. É um passo a mais: confrontar nossa sensibilidade espontânea com um conjunto de propostas ou verdades, para ver se ela se manifesta positiva ou negativamente. O mais importante não são tanto as propostas, mas o modo como reagimos diante delas!  Sinto espontaneamente as propostas (sejam elas quais forem!) positiva ou negativamente?
Uma pergunta: Você é mais positivo ou negativo? 

3 comentários:

  1. Pe. Ramon,
    Um texto muito bom e lúcido e oportuno. Esta leitura das regras para sentir com a Igreja com estes três pontos no final magistral. Vou guardar este texto para estudo.
    Um grande abraço,
    Lúcia Coelho

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  2. Padre Ramon,
    Há um poucos meses venho recebendo seus e-mails e tenho ficado bem impressionado com o conteudo das suas postagens. É muito bom le um texto como este. Somente pessoas iluminadas podem entender e compreender a existência humana com tanta profundidade e espiritualidade. Moro em brasília e gostaria de conhecê-lo pessoalmente. Onde e como posso encontrá-lo?
    Carlos Mota

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  3. Pe.Ramon,

    Seu texto foi lido e será meditado ao longo das semanas e pq não dizer ao longo da vida.Muito preciosa a análise da liberdade humana pelo prisma dos condicionamentos e limitações.Esse confronto é sempre importante.Parabéns!
    Um abraço!
    Sandra Márcia

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