O Papa e as rubricas da Igreja... (cf. F. Villa in R. Digital)

É mais fácil dialogar com um terrorista do que com um liturgista...
Era tempo de Páscoa e, enquanto o Povo de Deus celebra na terra a liturgia da paz, no céu o Pai e Jesus conversam amorosamente sobre a Páscoa eterna. Ao mesmo tempo, enviaram o Espírito para avivar a memória Pascal na Igreja e no mundo. 

Pedro se aproxima e com sua espontaneidade e a confiança dos moradores celestes – ali não há rubricas que fixem protocolos nem categorias – e diz:
- Javé, perdão, quero dizer, Abbá, Pai eterno, Senhor Jesus, à porta do céu há uma comissão de eclesiásticos que – dizem – trazem um grave problema...

Enquanto Jesus faz conjeturas sobre a natureza do problema, o Pai, com sua infinita condescendência, convida Jesus a receber a comissão. Jesus pergunta e escuta. 

- Desculpe sua Divina Majestade, ‘We have a problem’... Surgiu um grave problema em vossa Santa Igreja e desejamos saber quê resposta autorizada podemos transmitir à Igreja para solucioná-lo...

Jesus, em sua divina Ingenuidade, pensa que será uma questão que relacione a Igreja com a solidariedade humana, a paz, a justiça ou a fome...; e os anima a explicar-se.

- O problema é que nosso novo Sumo Pontífice, o papa Francisco, está prescindindo de veneráveis tradições que, em vossa Igreja, herdamos de nossos maiores. O cúmulo foi na Quinta-feira Santa, quando lavou os pés de não cristãos e mulheres, não cumprindo a rubrica que regula esse santo rito que vossa Divina Majestade nos deixou. Nossa pergunta é: cumprimos ou não cumprimos as rubricas litúrgicas?

Jesus pensa: Parece que o Espírito Santo está se fazendo notar lá embaixo... Logo, um pouco decepcionado, mas compreensivo, diz:
- Mostre-me a rubrica.
Eles lhe mostram um pergaminho no qual Jesus começa a ler: Viri selecti deducuntur a ministris ad sedilia loco apto parata...

- Queridos desculpai-me, mas desde que Pilatos me condenou à cruz em latim e pôs sobre minha cabeça o cartaz com o INRI, confesso que a língua do Lácio me traz péssimas recordações. Tendes uma tradução?


Jesus lê: (No lava-pés da Quinta-feira Santa) Os varões designados, acompanhados pelos ministros, vão ocupar os assentos preparados para eles...

- Está ótimo, vê-se que o meu querido bispo de Roma, Francisco, que é Pastor para todos os habitantes da cidade, abriu uma exceção em favor de algumas ovelhas que não são de seu redil e às quais quis se aproximar com amor de bom pastor.

- Mas… Senhor, que isso tenha sido feito precisamente pelo Papa nos leva ao caos litúrgico, como disse um colega liturgista...

- Recordo que eu já me encontrei com uma situação semelhante. Lembrais que os apóstolos colhiam espigas no dia de sábado, e que no sábado curei um homem da mão atrofiada? Os fariseus me recordaram a rubrica que mandava guardar o sábado sob pena de morte. Eu afirmei uma solução que pode-remos aplicar a este caso: ‘As rubricas foram feitas para o homem e não o homem – nem o Papa – para as rubricas’. Eu creio que ele agiu segundo um critério de caridade pastoral...

- Senhor, se ao menos fossem pessoas católicas, mas... havia uma mulher muçulmana! Este rito foi pensado para ser celebrado dentro da assembléia cristã, com os irmãos da comunidade.


- Queridos irmãos liturgistas, eu tive que limitar minha missão ao povo de Israel. Mas deixei-vos o encargo de ‘ir por todo o mundo e anunciar a todos a mensagem de salvação’. Que bonita mensagem salvadora essa de Francisco beijando e lavando os pés de uma muçulmana em nome da comunidade cristã. Ide tranquilos. Recordai que ‘amar a Deus e ao próximo vale mais que todas as oferendas, rubricas e liturgias’.


Jesus os abraça, despede-se deles e retorna ao lado do Pai eterno.

- Abbá querido, ‘My Chrch has a problem...'. Perdoa-me, tu criaste também os ingleses. Minha Igreja, teu Povo, tem um problema. Com seu excesso de normas, cânones e rubricas, pensam que o fato de cumpri-las escrupulosamente levará a salvação ao mundo. Ele já foi salvo por mim! A liturgia é para celebrar essa Boa Nova como irmãos e irmãs de todos... 

E você, o que acha?

7 comentários:

  1. Adorei! Audacioso e belo texto...

    ResponderExcluir
  2. Splendid,magnificent... Senti vontade de publicar no face criado pela Assembléia de Aparecida, tem liturgistas por lá! Rsss

    ResponderExcluir
  3. Lindo texto. Adorei.

    ResponderExcluir
  4. Tudo muito lindo. Como fica o massacre de cristãos que ocorre diariamente, no mundo inteiro pela "religião da paz". Com a palavra os membros do clero.

    ResponderExcluir
  5. Para sentir o sabor e o frescor da Nova Igreja. Texto perfeito! Obrigada por nos ajudar a voltar os olhos para aquilo que realmente interessa: O Amor!

    ResponderExcluir
  6. "Eu vim para que todos tenham vida..."

    ResponderExcluir
  7. Que bonito! Que bonito!
    Talvez o que desejo dizer parecerá bobo... Mas vou escrever: descobri-me católica muito cedo, com menos de 5 anos de idade, num ambiente familiar que, nem por ser absolutamente liberal e ecuménico, tornava fácil ser fiel a essa descoberta. (Lembro-me, até hoje, de um então incompreensivel sonho, tido aos 10 anos de idade, no qual uma alta voz dizia: "duro te é recalcitrar contra o aguilhão!") Desde então, há 51 anos, tudo o que reconheço como pleno e definitivo em minha vida é a resposta ao Sagrado. Nada mais. Percorri, assim, muitos caminhos. Fiz inúmeras experiências. Apoiei-me em varias premissas, inclusive a liturgista. Cometi muitos equívocos e acertos, todos transformados, por Ele, em caminhos na direção dEle, já que "de tudo se serve Deus" (Teresa de Ávila). E hoje sei, com absoluta certeza, que a maior coragem é a de amar. Amar simplesmente, sem mais nada. A maior coragem é AMAR. Sei, por experiência própria, como é fácil deter-se na beira do caminho cogitando se será ou não feito no sábado... Se contraria esta ou aquela rubrica... Se vai na direção de alguém que, antes, necessitaria de um bom corretivo... E, sobretudo, se deporia ou não contra nossa reputação. Sei, por experiência própria, como é tão mais facil elocubrar sobre onde o outro erra, em vez de ver onde também eu erro e nada faço. Por isso, também por experiência, creio profundamente que a coragem e a força do Abbá, além de Sua ternura, são assim como fez Jesus. São assim como faz o Papa: abrir-se. E amar, amar, amar... até morrer de amor.
    (Ai... o Papa Francisco me faz loquaz!)

    ResponderExcluir