10. Crises da idade adulta...

O nada ainda me aperfeiçoa!...
A vida adulta tem fases que se não forem bem vivenciadas, podem ferir e frustrar. Lembro de um amigo carioca e igrejeiro que, na sabedoria dos seus sessenta anos, dizia-me com picardia: O senhor sabe que já casei três vezes?... Percebendo meu espanto, acrescentou: Três vezes, mas com a mesma mulher!

Numa sociedade hipermoderna, como a nossa, os pais perdem facilmente os seus referenciais e não desempenham satisfatoriamente o seu papel. Com a exacerbação do individualismo, encontramos gerações sem compromisso com a tradição e incapazes de reconhecer o exercício da autoridade. Tudo é descartável em pouco tempo!

O Qohélet, aquele pregador do Antigo Testamento que viveu uma crise de sentido semelhante à nossa, quando a cultura grega invadiu a fé judia, dizia: Tudo tem o seu momento e cada coisa o seu tempo... Este homem pessimista viu desmoronar por todo lado os valores que pregara e praticara.

Toda autoridade seja política, familiar ou religiosa, não é bem aceita nos dias de hoje. Somos muito individualistas! As pessoas se sentem livres, mas lhes faltam códigos validos que facilitem a convivência. Quando tudo é valido, então nada é importante.

Dividamos a vida adulta em 3 fases: Em qual delas você se encontra e como a vive?
Vida adulta jovem (20 a 40 anos)
Vida adulta média (40 a 65 anos)
Vida adulta avançada (65 em diante)

Duas perguntas: Como você define sua idade? Partilha com alguém a sua intimidade?...

Na idade adulta, cada fase tem sua especificidade positiva e negativa. Lembra dos ‘três casamentos’ do meu amigo carioca? Finalizava uma fase e começava outra!

Quando jovem você sonhou com uma felicidade completa que, provavelmente ficou distante e inalcançável... Dificuldades encontradas, relacionamentos frustrados trouxeram cansaço e decepção. Lembro da tristeza de um pai ao me confidenciar que os filhos não o amavam!      

Nesse meio-dia realístico da vida, quando a luz é mais intensa e o conhecimento mais objetivo, precisamos de novas formas de relacionamento, para que o encantamento não termine.

1. Primeira fase da vida adulta (dos 20 aos 40 anos). Quando começa a fase adulta? No casamento?... Quando se tem um trabalho bem remunerado?... Não há um tempo certo nem um rito próprio que indiquem o início desta etapa: Uns a antecipam; outros a postergam, mas para muitos ela começa quando se deixa o lar familiar.

Esta primeira fase da vida adulta se destaca pela tomada de decisões. As fantasias foram buriladas com os relacionamentos reais e, estes sempre desafiam e educam. É o tempo de buscas, do discernimento e de decisão. Momento de paixão e encantamento. Tempo de felicidade e força vital que permitem o risco e a tomada de decisões importantes: Com quem estarei e partilharei a minha vida?... Surge o peso da responsabilidade familiar e profissional, pois algumas escolhas são para o resto da vida...

As crianças nunca tomam decisões importantes, pois outros o fazem por elas. O adulto, pelo contrário, define o que e como fazer ou as circunstâncias se encarregarão, por desgraça, de fazê-lo. Os compromissos de matrimônio ou de vida consagrada se concretizam.  Nesta fase somos capazes de abraçar por inteiro uma vocação, uma causa ou uma pessoa, pois somos movidos pelo Amor.

Com o passar do tempo e alguns sofrimentos aprendemos muito. Descobrimos que as pessoas nem sempre são tão maravilhosas e que os relacionamentos, muitas vezes, não suportam o desgaste do tempo. Os conflitos surgem e por vezes fazem até duvidar. Incompreensão, abandono ou traição fazem parte da vida de alguns. Contudo, desencantamos e de repente voltamos a nos encantar. As feridas dos relacionamentos frustrados se curam quando o amor e a compreensão voltam a renascer.

2. Idade adulta média (dos 40 aos 65 anos). Nesta fase, o tempo passa com maior rapidez. A vida, provavelmente, não foi como a sonhamos. Será que o seu marido se parece mais com o príncipe encantado que você idealizou ou com aquele sapo nojento dos contos de fadas? E a esposa será que é aquela mulher maravilha, sedutora e encantadora ou uma simples cinderela a serviço da família e da casa? A realidade é bem mais pobre do que a fantasia, contudo o viver sem máscaras possibilita uma maior intimidade. Dizia-me uma velha senhora: Os desamores só se curam com outros amores!

A realidade se impõe. Crises e decepções surgem por toda parte e os entendidos a definem como ‘Idade da loba’ ou ‘Crise do demônio meridiano’... Provavelmente, os valores religiosos de outrora foram deixados de lado ou, quem sabe, se purificaram. É tempo de crescimento!

Se na primeira metade da vida nos preocupamos sobre tudo pelo mundo exterior (profissão, moradia, etc.) nesta outra metade nos orientamos mais para o mundo interior, buscando maior qualidade nos relacionamentos e significados verdadeiros naquilo que somos e fazemos.

Nessa fase nada parece extraordinário ou maravilhoso, contudo é na constância que o importante se consolida e o transitório desaparece.

Quando se chega aos 40 anos, os preconceitos ficaram mais objetivos. Sabemos quão frágil é a amizade e pesada a solidão... É tempo de se reconciliar com a vida, pois nada é eterno... Quem tem fé, provavelmente enfrenta melhor a morte dos seus entes queridos.

3. Vida adulta avançada (dos 65 anos em diante...). Entramos na Terceira Idade com a consciência de que não podemos viver o entardecer da vida com o programa do amanhecer.  A aposentadoria permite se centrar mais nos relacionamentos significativos familiares e sociais. A vida saudável e os exames médicos retrasaram positivamente os efeitos negativos desta fase.

Uma das experiências mais completas da vida adulta é a de ser dono do próprio nariz. Contudo, essa experiência é novamente confrontada com os contratempos que aparecem.

A idade adulta avançada é uma oportunidade para lembrar e nomear com carinho e gratidão as nossas perdas. Muitas coisas e pessoas foram ficando pelo caminho... Essa memória histórica cura velhas feridas e sentimentos do passado. Viver positivamente o presente, liberta de culpas passadas. A terceira idade é a melhor idade para experimentar ternura e compaixão. No entardecer da vida seremos julgados sobre o amor...

Uma pergunta:  Há perdas inevitáveis “necessárias” e outras “desnecessárias”... Como você elabora as primeiras e se enrola nas últimas?

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