Rezar nos umbrais do inconsciente... (II)

Sou um sujeito cheio de recantos...
Como orar em profundidade? Apresentamos alguns métodos simples a serem seguidos conforme a disposição do que se exercita. Lembremos que todos os métodos são relativos, e o único que fazem, é predispor a pessoa para acolher o dom, a graça: deixando agir diretamente o Criador com a criatura. No encontro interpessoal humano-divino é Deus quem toma a iniciativa. Por isso os métodos devem ser usados tanto quanto ajudem. Podem ser vários e modificados. Colocamos alguns para esclarecer, de algum modo, o que até agora dissemos. A única observação a ser feita, para aqueles que querem aprofundar sua oração, é que deem um tempo longo para mergulhar e se exercitar nesse caminho.

A) Mergulhando no poço. A pessoa que se exercita pode ler o texto da Escritura que pretende orar. Provavelmente vão se destacar algumas palavras ou imagens que mais tocam. A seguir pode contar, devagar, de 5 até 0, respirando lenta e profundamente, com os olhos fechados... Pode se imaginar ao lado de um poço profundo... É preciso entrar, de algum modo, nesse poço.... À medida que desce pode fazer outra contagem regressiva, lentamente, de dez a zero, por exemplo. Podem acontecer diversas coisas neste seu mergulho interior: Há pessoas que param ou cochilam ao chegar num desses determinados números... outras não conseguem continuar, pois têm medo... Provavelmente, encontram resistências inconscientes que o paralisam e que seria bom posteriormente explicitar.

Esta primeira abordagem é importante por ser intensamente integradora e purificadora. Algumas pessoas recolhem este material negativo num saco imaginário, numa trouxa, e o levam para cima e lá, quando estão pelo 5º degrau da escada, subindo do poço, abrem uma janela e o jogam para fora. É um modo de purificar o subconsciente.

Inicia-se uma etapa de purificação muito própria da primeira semana! Espontaneamente brota um sentimento de gratidão a Deus por esta experiência de purificação, de salvação. Esta fase pode demorar alguns dias ou mesmo semanas.

Mergulhando mais no nosso inconsciente é possível entrar numa zona iluminada, transparente e cristalina, onde cada um poderá encontrar grande claridade... O que pode acontecer? Provavelmente a pessoa terá experiências integradoras, tão diversas e originais que é impossível defini-las ou indicá-las. Estamos muito perto da experiência mística. Deus se faz extremamente íntimo e presente e a pessoa obtém, por experiência, enorme clareza do que acontece. É como se nos encontrássemos no máximo grau de participação da contemplação inaciana ou mesmo no mais profundo da aplicação dos sentidos.

A pessoa que assim se exercita encontra-se profundamente concentrada, envolvida por tudo isso que pode surgir. Não são idéias! Encontramo-nos no nível da experiência, do "sentir", tão íntimo e querido de Inácio. Neste nível acontece a oração, o encontro inter-pessoal humano-divino. Não é de estranhar que esse tipo de encontro seja, como dizia no início, profundo, comprometido e místico. Por isso, acabar com um colóquio, como um amigo fala com outro!...

Como se faz o retorno? Seguindo o mesmo caminho, fazendo uma contagem progressiva.

Quando as pessoas têm oportunidade de partilhar o acontecido provavelmente terão muitas coisas a dizer. As palavras usadas revelam o alto grau de experiência vivida e experimentada e todas com grande clareza.

B) A ilha: Imaginemos que já temos um texto da Bíblia para orar. Ele foi lido, com fé, anteriormente. Provavelmente destacaram-se algumas imagens, palavras ou sentimentos. É bom relaxar, à medida que se vai respirando em profundidade... Pode imaginar, por exemplo, uma bela praia, tranquila, serena, limpa... À medida que vai contando de dez até zero (lentamente, respirando fundo...) imagine que você mesmo se desprende do seu próprio corpo e alça voo. Veja-se voando, como uma bela gaivota e o seu corpo estendido preguiçosamente na praia... Você pode mergulhar mais fundo nesse imenso céu azul que o acolhe com segurança... Provavelmente surgiram imagens limpas, transparentes, positivas... Experiências integradoras de amor, segurança, comunhão com Deus... Depois de curtir, um certo tempo, essas experiências positivas, pode ver, novamente, o seu corpo (que tinha ficado na praia...) Perceba como ele pode se movimentar (ou não!), entrar no mar... À distância, presencie tudo. (Provavelmente poderão surgir imagens negativas do "eu real"...) Fique perscrutando... O que aparece?... (fique aí um bom tempo). Forme, com todo esse "eu negativo" emergido, uma ilha... Contemple-a do alto (lembre-se, você é uma bela gaivota!...)... O que vai brotando do mar?... Forme, agora, uma grande onda... Ela é imensa... Veja como avança sobre a ilha e a lava todinha... Durante um bom tempo viva essa experiência purificadora...

Volte por onde veio... Saia da imensidão do céu que o acolheu... Veja novamente seu corpo na praia... Ele está limpo por dentro. Lavado, purificado! Vá até ele com alegria e una-se numa perfeita harmonia... Sinta-se unificado... Experimente a satisfação de ser um... Respire fundo... Vagarosamente... Mexa suavemente os pés, as mãos... Abra os olhos... Agradeça a Deus pelas experiências vivenciadas.

A) O método inaciano. Evidentemente, Inácio de Loyola, quando se exercitava naquelas grutas de Manresa, não conhecia os conceitos da psicologia nem as suas consequências. Inácio é um auto-didata nas coisas do Espírito! Como um bom basco, era homem de poucas palavras e de grande reflexão. A experiência dos Exercícios Espirituais, naqueles anos de 1522, foi um confronto com sua realidade subjetiva (sua vida...) e com aquela outra objetiva que surgia quando mergulhava nas contemplações da vida de Jesus ou dos santos.

Eis os passos a serem dados na oração inaciana:

1. Depois de ler o texto para ser meditado ou contemplado e guardado o suficiente recolhimento interior, o exercitante coloca-se na presença do Senhor e faz a oração preparatória (Estamos na boca do poço, na beira da praia, segundo os esquemas anteriores).

2. A partir deste momento, começa-se a mergulhar fundo no mais real da vida com a "composição do lugar" (1º preâmbulo) e a "petição" (2º preâmbulo). Entra-se na própria vida, no mais fundo dela!

3. O exercitante se introduz na meditação (seguindo os pontos propostos...) ou na contemplação (vendo, ouvindo, participando da cena!), “sentindo e saboreando as coisas internamente". Quase sem perceber tem-se dado um deslocamento imaginário, uma saída de uma situação subjetiva (provavelmente negativa) para outra objetiva e evangélica. Neste momento podem surgir possibilidades infindas de sentimentos significativos (consolação, desolação), apelos, impulsos, desejos, inspirações, iluminações, dificuldades, resistências, medos... etc.. O "eu real" é compreendido em toda a sua fragilidade e limitação. Ao mesmo tempo, sente-se confrontado e chamado à maior transparência e liberdade. É a experiência da 1ª semana dos EE, a via purgativa!

Uma vez experimentada a misericórdia de Deus (coração voltado para a miséria humana!), o exercitante, movido pela graça, se oferece para refazer sua própria história pessoal e até universal, segundo os valores objetivos de Jesus. Inicia-se a 2ª semana e com ela um outro método de oração, chamado de contemplação. É próprio da contemplação sair de si mesmo e entrar na cena evangélica para participar (ou não participar!), de algum modo do mistério contemplado.

Nesse ir-e-vir da própria situação pessoal para o mistério contemplado e deste para a própria vida podem surgir infindas possibilidades de sentimentos e imagens não procuradas que deverão ser rezadas e melhor discernidas.

Toda a 2ª semana é um convite a ser configurado com Jesus, isto é, se afeiçoar à sua pessoa e aos seus valores. É uma experiência de amor solidário e encarnado. Entra-se no campo do "eu original" que, com o repetir da contemplação (lembremo-nos das duas repetições e da aplicação dos sentidos próprias desta etapa, chega-se ao mínimo de dispersão e ao máximo de concentração, mesmo no amor. Aprofundar na proposta dos valores de Jesus faz emergir o próprio eu na sua integridade! É uma experiência de via iluminativa!

A 3ª e 4ª semanas são místicas. É um sair totalmente de si mesmo e se solidarizar com o pequeno, o pobre, o oprimido e injustiçado representado originalmente por Jesus na sua paixão e morte. O exercitante é convidado não só a se configurar, mas até mesmo a se identificar, experimentando no seu interior os próprios sentimentos (de dor e sofrimento) de Jesus e do povo. A experiência de fidelidade (ao projeto do Pai) e de solidariedade (a todos os homens) mesmo em situações de extremo conflito faz com que o exercitante, não só saia de si próprio, mas que assuma realmente os mesmos valores. O deslocamento imaginário dá lugar a um verdadeiro deslocamento na vida real! O sentir "dor com Cristo doloroso, angústia com Cristo angustiado" da terceira semana e o "me alegrar e gozar intensamente por tanta glória e gozo de Cristo", próprios da quarta semana, fazem com que o exercitante, se fez bem todo esse caminho interior, seja transformado num verdadeiro "sensitivo" no melhor sentido desta palavra, isto é, alguém que é capaz de "sentir" (entrar em comunhão profunda!) não só com as pessoas (que sofrem ou se alegram) mas, também, com o mais íntimo delas (tristeza e/ou alegria). O próprio "eu original" entra em comunhão plena com o "eu de Jesus" e, em consequência, com o "eu dos outros". Entra-se, como graça, numa plena comunhão com Deus, com os outros e com o mundo.

Quem passa por esta experiência transforma-se num homem novo capaz de uma profundidade e observação quase que infinitas porque tocou, com o seu coração, o infinito. Estamos, evidentemente, no umbral da via unitiva ou mística!

A contemplação para alcançar amor, no fim dos Exercícios Espirituais, não é outra coisa que uma experiência do "eu original" do exercitante, entrando em comunhão com o "eu original", cósmico, de Jesus. Nesse momento toda a fronteira some, todos os muros caem... Só fica esta experiência de comunhão universal com todas as pessoas e todas as coisas em Jesus Cristo. O mundo todo foi inundado de luz e de graça! O exercitante converte-se, então, por pura graça, num contemplativo na ação. Seus olhos se fizeram transparentes, prescinde de puros raciocínios e enxerga tudo com um novo olhar! Seu coração e a sua fé se unificaram e sente tudo com uma nova dimensão que o leva a uma maior solidariedade e comunhão! "Tudo é vosso, vós sois de Cristo e Cristo é de Deus" (1 Cor 3, 22-23). Libertos de tudo!

Este é o patamar mínimo onde, humanamente, se pode chegar. Daqui para frente outros horizontes e experiências, sem limite, se abrem. Abordar, agora, essa inter-ação humano-divina e humano-cósmica não entra nos limites deste nosso trabalho.

Neste artigo, quisemos, pois, partilhar apenas uma intuição: Inácio de Loyola, em Manresa, mergulhou fundo na sua oração e atingiu, de algum modo, o seu inconsciente. Ao mesmo tempo abriu um método para outras pessoas percorrerem um caminho semelhante. Rezar em profundidade leva a uma superação, não só das distâncias geográficas, mas também temporais.

Existe um espaço místico onde tudo se encontra: o passado, o presente e o futuro. Quem for capaz de se aproximar d'Ele pode encontrar Tudo!                                                             (in Rev. ITAICI/8/1992)

Uma pergunta: O que tudo isso tem a ver com a sua vida?



3 comentários:

  1. Maravilha.Vou iniciar a oração deste mes de junho refletind e meditando com este texto.Obrigada. Deus lhe abençoi Sbraçso Muneide

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  2. Muito obrigado Padre!
    Tudo a ver com a minha vida e a de todos, pois somente Ele nos revela e dá o sentido verdadeiro da vida. Margareth

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  3. Vou compartilhar com meus companheiros de CVX aqui de Natal/RN

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