Eucaristia, o banquete dos fracos e excluídos... (B. Franguelli SJ)


Quem de nós nunca sentiu-se excluído? É bem possível que em algum momento da nossa infância tenhamos sido marcados com alguma recordação infeliz. Nunca fui bom em dominar a bola de futebol. E claro, durante o momento em que os colegas selecionavam os membros de suas equipes para jogar bola, eu tinha de enfrentar aquele terrível sentimento gerado pela exclusão e com ele a pavorosa ideia de acreditar-se incapaz. De diferentes maneiras, em algum momento da vida a exclusão coloca-se diante de nós, e com ela, aquele perigoso sentimento de resignação. E a memória da dor sofrida por aquela rejeição, dificilmente se despede de nós.

Quantos são os excluídos dos bens fundamentais para o desenvolvimento da vida humana? Bens estes materiais, culturais e até religiosos! Recordo-me de uma das muitas belas igrejas de Diamantina-MG, conhecida como a Igreja de Chica da Silva. Sua história é muito conhecida. Por ser negra, Chica da Silva estava impedida de assistir à Missa ocupando os mesmos lugares dos brancos. Sua única possibilidade era permanecer em pé, atrás das torres da igreja. Mas tudo foi resolvido pelo homem que a amava, que construiu para ela uma igreja com as torres ao fundo, atrás do altar. Deste modo, sua amada não sentia-se excluída e podia praticar sua fé ocupando o lugar que desejasse na igreja.

Hoje, mesmo com tantas questões culturais aparentemente superadas, nossas comunidades cristãs ainda possuem elementos de exclusão. E esta realidade é evidente quando se trata de recepção da Eucaristia. Introduziu-se estranhamente em nossas comunidades eclesiais - parafraseando ao contrário as palavras do Papa Francisco - a concepção de que a Eucaristia é “um prêmio para os bons” e não “um remédio para os fracos”. O Sacramento da Reconciliação, que nos regenera depois de cometer uma grave ação de infidelidade batismal, passou a ser acreditado por muitos como simples “permissão para comungar”. A Comunhão, ao invés de ser o Pão de todos, passou a ser um pão de alguns, considerados “devidamente preparados” e que se sentem “dígnos”, e por isso mesmo, no direito de recebê-la. Criou-se o falso slogan: Para que possamos receber Jesus precisamos ter a casa limpa!” E assim, ignoramos as páginas dos Evangelhos que revelam os encontros mais intensos e desconcertantes de Jesus. Teriam limpas suas casas a samaritana envolvida em tantas uniões conjugais, o centurião pagão, a adúltera e tantos outros? Acho que não!

Um dos principais motivos pelos quais essas atitudes rígidas e arbitrárias em relação à recepção da Eucaristia absorveu nossas comunidades é a presença de resquícios do antigo jansenismo. Deste modo, tal doutrina, muito presente entre os séculos XVII e XVIII e já condenada pela Igreja, se une à terrível perspectiva da atual sociedade de consumo, que cada vez mais concebe o ser humano como mero indivíduo submetendo-o aos seus mesquinhos interesses. Uma espiritualidade individualista e egocêntrica se difundiu ligeiramente pelas nossas igrejas e o evidente e desastroso resultado ocorreu: "o divórcio entre fé e vida, Eucaristia e compromisso com os irmãos".

Lembro-me de um grande amigo que já se encontra nos braços do Pai: Pe. João Batista Libanio. Era teólogo, aprendido nas coisas de Deus. Em suas celebrações eucarísticas, após a invocação do Espírito Santo e a Consagração do Pão e do Vinho, levantava suavemente suas mãos em direção a assembleia e dizia:Este é o momento mais solene!” E invocava o Espírito Santo sobre cada um de nós para que, ao comungar do Corpo e Sangue de Cristo, fôssemos transformados no Corpo dEle que é a Igreja. E ainda acrescentava: “E que esta se torne uma comunidade de acolhida, comunhão e de muito cuidado de uns para com os outros!”. Com essas simples e sábias palavras, Pe Libanio nos introduzia mistagogicamente no mais profundo mistério da Igreja. Nos protegia de qualquer individualismo ou egoísmo espiritual. Como bom pastor, nos conduzia ao sentido último da Eucaristia: à comunhão de irmãos.

É exatamente a partir da Eucaristia que todos podemos ser de um modo real irmãos uns dos outros. Já não somos mais indivíduos, mas parte insubstituível do Corpo Místico de Cristo. O mesmo sangue corre por nossas veias e nos une em um só corpo e um só espírito. Deste modo, quando recebemos a Comunhão, nos unimos uns aos outros em vínculo espiritual que ultrapassa toda e qualquer consanguinidade humana.


Somos definitivamente a Igreja, esposa do Cordeiro. “E desta alegria ninguém está excluído.


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