Mulheres jesuítas?…


Qual a relação das mulheres com a Companhia de Jesus? Algumas foram realmente jesuítas?
Embora a Companhia de Jesus entrou na história como a grande misógina, por não ter o ramo feminino, não foi assim nos seus primórdios. Por isso, é bom fazer uma dupla distinção: cronológica e conceitualmente.
Cronologicamente ocupa um lugar destacado o período fundacional sob a orientação do Santo fundador Inácio de Loyola (1491-1556). Morto o fundador e aprovadas as Constituições na 1ª Congregação Geral (1558), se corrigiram algumas iniciativas particulares de Inácio de Loyola, entre as quais acolher algumas mulheres com os votos da Companhia. Conceitualmente se impõe a distinção entre a orientação espiritual de mulheres, sempre possível, e o extremo cuidado de não iniciar o ramo feminino da Ordem.
No 1º período cronológico, propriamente inaciano, o tema das mulheres ficou deliberadamente um tanto na penumbra, não por ser ignorado, mas prudentemente silenciado. Silenciado não por desconhecer a presença próxima de algumas mulheres piedosas dentro de nossa Instituição religiosa, mas por não parecer prudente continuar com essa iniciativa. Lembremos algumas dessas mulheres que conheceram pessoalmente a Inácio de Loyola:
·       Isabel Roser (+1554), dama barcelonesa, com sua serva Francisca Cruyllas se trasladaram a Roma, e pediram viver sob a obediência de Inácio. Fez os primeiros votos diante do próprio Inácio, mas 4 meses depois foi dispensada deles. Morreu como Clarissa franciscana.
·     Lucrecia de Bradine, madama italiana que apelou ao Papa Paulo III para fazer parte do nosso instituto, coisa que foi imposta a Inácio de Loyola, pelo Papa. No ano seguinte, 1546, e com aprovação do próprio Papa, ambas senhoras desistiram desta caminhada na Companhia. A primeira, que eu saiba, foi para as clarissas franciscanas.
·    Isabel de Josa (1490-1564), piedosa e rica viúva, orgulho das damas de Barcelona, onde destacava pela sua cultura e profundidade espiritual foi outro caso de agregação à Companhia de Jesus. Ficou viúva em 1517, e com três filhos. Parece que se proibiu a esta mulher de pregar, e apenas se lhe permitiu ler suas preleções publicamente.
·     Princesa D. Juana de Áustria (1535-1573), mãe do famoso rei D. Sebastião de Portugal, filha do Imperador Carlos 1º de Espanha, irmã do rei Filipe II, esposa do rei de Portugal (casou aos 16 anos, em 1552), viúva no ano seguinte, e após fazer os Exercícios Espirituais com o Pe. Francisco de Borja, pediu para fazer parte da Companhia de Jesus. Em 1554, se lhe concederam os primeiros votos religiosos, os quais implicavam no propósito de «ingressar na Companhia de Jesus». Juana tinha 19 anos de idade quando se fez jesuíta.
    O caso da princesa – e naquele momento Regente de Espanha – se manteve no mais restrito segredo. Ela continuou seu estilo de vida, já de por si muito ‘monacal’, e usava os pseudônimos de «Mateus Sánchez» ou «Montoya» na sua correspondência oficial com os jesuítas de Roma.
    A princesa conversava diariamente com o Pe. Francisco de Borja (futuro Superior geral, e santo) ou o Pe. Antonio de Araoz, o que criava algumas fofocas na corte. Esta situação preocupava a Inácio de Loyola, Superior Geral, pois via comprometida de algum modo a liberdade apostólica desses jesuítas, e quis retirar ambos da corte espanhola. Eis a resposta negativa e ‘politicamente correta’ de Juana: Devoto Padre (Inácio). Una carta vuestra me dio el P. Nadal, con que holgué mucho, porque se me dobla la razón que tengo para favorecer a la Compañía, pues no queréis que la ida del P. Francisco (de Borja) sea sin mi voluntad, lo cual os agradezco mucho, que es el mayor contentamiento que me podéis dar, porque no podía dexar de sentir mucho la falta que acá hiciera. [...] Y lo mesmo siento del doctor Araoz, y así les he mandado que en ninguna manera vayan. [...] Y porque estos dos Padres no puedan hacer ningún camino sin mi licencia, me habéis de dar poder sobre ellos, para que se lo mande por obediencia, que en ello me haréis muy gran placer. [...]
    Esta obediência forçada dos jesuítas à Rainha Juana, secretamente jesuíta, não agradava a santo Inácio.
    D. Juana de Áustria morreu jovem, 38 anos de idade, aos 7/SET/1573, com os primeiros votos dos jesuítas. Seu filho, D. Sebastião, tinha então 19 anos de idade.
    Dona Catalina de Mendoza  (1542-1602) é outro caso curioso. Esta mulher nasceu em berço esplêndido, no Real Alcazar de Granada, filha do ilustríssimo Senhor D. Íñigo López de Mendoza y Mendoza, 4º conde de Tendilla e 3º marquês de Mondéjar, alcaide perpetuo da Alambra e capitão general de Granada. Casou por poderes com o Conde de Gomera, mas conhecendo a vida licenciosa do seu marido, conseguiu a anulação antes de coabitarem.
Dona Catalina de Mendoza, conhecida como «a marquesa santa», deixou como herdeira dos seus bens à Província de Toledo da Companhia de Jesus, com a obrigação de abrir um colégio em Mondéjar (coisa que não se fez) e tentou, de algum modo, entrar na mesma Companhia, coisa que parece não ter conseguido do Pe. Geral Aquaviva.
Catalina Mendoza pronunciou seus votos diante do Pe. Provincial e das pessoas presentes, com a fórmula siguiente: Dios mio y Señor mío y mi bien todo, yo Catalina, aunque indigna sierva vuestra, con deseo de serviros y agradaros, en presencia de la Virgen Nuestra Señora y de toda la Corte celestial, hago voto y prometo a vuestra divina Majestad, perpetua castidad, pobreza y obediencia al Rvdo. Pe. Padre Claudio Aquaviva, Prepósito General de la Compañía de Jesús, y al muy R. Pe. Hernando Lucero, Provincial, y a todos los que sucedieren en su lugar, y suplico humildemente a vuestra infinita bondad reciba este sacrificio en olor de suavidad; y como me habéis hecho merced de darme gracia para lo desear y hacer, me la hagáis de darmela muy abundante para que lo cumpla y guarde muy a gloria y honra de vuestro santísimo Nombre. Alcalá, 24 de Junio de 1600. Deu o papel dos votos ao celebrante, e recebeu a sagrada comunhão, tal como fazemos os jesuítas. Um ano e meio depois a Catalina morria em odor de santidade.
Não há dúvida de que estas mulheres pertenceram juridicamente, e por algum tempo, à Companhia de Jesus. 
Dentro desse contexto destaco um caso notável: Mary Ward (1585 - 1645), inglesa, que quase 50 anos depois, não podendo ser jesuíta, copiou o Instituto da Companhia e fundou uma Ordem religiosa feminina com o mesmo nome. Pouco depois o Papa Urbano VIII abortou brutalmente essa congregação. Mary Ward estava tão imbuída do espírito dos Exercícios Espirituais que assinava suas cartas como Prepósita Geral da Companhia de Jesus. Atualmente, estas religiosas se chamam de Congregação de Jesus.
Mary Ward foi declarada "Venerável" pelo Papa Bento XVI, em 19/DEZ/2009.

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3 comentários:

  1. Nossa padre Ramon são histórias interessantes, eu já as havia lido, porém eu não sabia do nome dessas mulheres e nem tao pouco que algumas tinham morrido com os votos na SJ. Contudo tenho uma duvida um pouco polêmica: é verdade que em umas das cartas de Inácio a um de seus companheiros há uma referida mulher que supostamente poderia ser filha de Inácio de Loyola? como disse supostamente. E outra é dúvida.
    E parabéns pelo texto informativo.

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  2. Parabéns padre essas informações dá a nós mulheres mais força e foco em nossos exercícios espirituais..Deus o abençoe. Sto Inácio rogai por nós.

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  3. Pena Pe. Ramon. Ainda hoje a vocação das mulheres inacianas continua sendo de segunda, terceira, quarta categoria. Tudo bem. Somos fortes o suficiente para sofermos em silêncio a discriminação. Não creio que precisamos estar ligadas institucionalmente à Companhia. Afinal nosso horizonte é "em tudo amar e servir".

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