Meu Pároco é gay: O que faço?... (Cf. Frei Vanildo Luis Zugno, Cap.)


Nada. Não faça nada! Se você fizer qualquer coisa, é muito provável que faça bobagem. Ou que o que você venha a fazer seja considerado por outras pessoas como uma grande bobagem. O risco é grande. Então o melhor é não fazer nada!

E há várias razões para não fazer nada. A primeira e fundamental, é que ser gay é normal. Já passou o tempo em que se considerava que homossexualidade era doença. A medicina, a psicologia e os estudos antropológicos coincidem em afirmar que a homossexualidade é uma das formas de o ser humano viver a sua identidade de gênero e a sua vida sexual. Em todos os tempos e lugares, sempre houve uma parcela da população – masculina e feminina – que viveu e expressou sua condição homossexual. O modo como as diferentes culturas aceitaram esse grupo social é que variou e varia nos tempos e lugares. Enquanto em algumas culturas a homoafetividade e a homossexualidade eram reprimidas e consideradas uma maldição, em outras, foram vistas como uma bênção dos deuses para a comunidade. Hoje, em pleno século XXI, só os fundamentalistas religiosos e as tendências políticas conservadoras e autoritárias ainda consideram a homossexualidade um pecado, doença ou ameaça para a sociedade. Então, se seu pároco é gay e você se considera uma pessoa normal, civilizada, culta, vacinado e imunizado contra os totalitarismos religiosos e políticos, fique calmo! Ele é uma pessoa normal e não há necessidade de você se preocupar com a sexualidade do padre.

Em segundo lugar, uma boa razão para você não fazer nada, é que o bispo já sabe que o padre é gay. Não precisa contar prá ele e nem pros outros padres. Se você se deu conta que o padre é gay, é praticamente certo que os colegas dele, os outros padres, assim como o bispo dele, também saibam que ele o é. E mais: é quase certo que o bispo sabia, antes mesmo de ordená-lo, que ele era gay. Afinal, para ser padre é preciso passar por pelo menos oito anos de formação nos seminários. E, em oito anos, é impossível não conhecer uma pessoa e saber se ela é gay ou não. Só não vê quem não quer... Se os formadores e o bispo não quiseram ver, aí o problema já não é do padre e sua homossexualidade. O problema é a incapacidade ou falta de vontade de considerar a afetividade e a sexualidade como fator importante na formação de um padre. E se eles sabiam e mesmo assim o ordenaram, é porque acreditavam na possibilidade e capacidade de uma pessoa gay ser padre e pároco. Aí o problema é você e sua intolerância a um fato aceito pela hierarquia da Igreja.

Mas você poderá dizer: “o problema é que o padre tem um namorado”! Fique tranqüilo: alguns padres  heterossexuais também têm namoradas. E, outros, até tem filhos e filhas. E a maioria – se não todos – os padres e bispos sabem disso e tentam administrar estas situações. Alguns o fazem com mais acerto e outros com menos dando lugar a escândalos que são exacerbados pela mídia em busca de audiência. Outros, a maioria, passam imperceptíveis e a vida nas paróquiais continua normal como se nada tivesse acontecido. No máximo, no final do ano, o padre é transferido para outra paróquia. Então, se é possível administrar as namoradas dos padres héteros, por que não administrar os namorados dos padres homos?

E, convenhamos, se nos despirmos de preconceitos e olharmos friamente, há alguns padres que convivem informalmente com uma mulher ou com um homem e são melhores párocos e pastores do que aqueles que seguem rigidamente as normas do celibato. E os paroquianos aceitam com muita tranqüilidade um padre em sua situação canonicamente irregular quanto ao celibato, desde que ele atenda com carinho, préstimo e atenção os fieis que lhe foram confiados. Como ouvi recentemente numa Paróquia em que fui convidado para uma palestra: “Todo mundo sabe que o padre vive com a... Mas ele é um bom padre. Ele atende todas as pessoas com muito carinho e está sempre disponível para a comunidade. Prá nós está bem assim. A gente gosta dele e ninguém se importa de ele viver com a mulher dele.

Voltando ao caso do pároco gay, eu diria que, se você considera que a homossexualidade não é doença e você está ciente de que o bispo sabe que seu pároco é homossexual, você não tem nenhuma razão em se preocupar com isso e se perguntar o que fazer. Retifico. Se esse for o caso, acho, sim, que você deve ter uma preocupação. Mas é bem outra... Sinceramente, acho que você deve perguntar-se por que o fato de o padre ser homossexual o incomoda tanto. Será que é o jeito dele viver a sexualidade diferentemente daquilo que é considerado padrão pela sociedade que incomoda você? É a diferença dele que lhe perturba? Ou talvez você se perturbe por existir a hipótese de que você gostaria de ser como ele e não tem coragem?

Em qualquer uma destas hipóteses, o problema já não é o padre ser gay. O problema é outro: é a dificuldade que temos, nos ambientes cristãos e católicos, em falar sobre afetividade e sexualidade. E não só dos padres, mas de toda a comunidade cristã. E isso, sim, é um problema grave pois a salvação não passa só pela alma. Ela também perpassa nosso corpo, nossos sentimentos e nossas relações.

O que você achou deste artigo do Frei Vanildo?


7 comentários:

  1. Quero elogiar o artigo realista postado. Um artigo corajoso como esse nos motiva a continuar acreditando numa igreja misericordiosa... (Lipe/S. Gonçalo)

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  2. confesso que me incomodou profundamente o parágrafo em que se diz que "é normal padres terem namoradas, e até filhos e filhas", e que o máximo que acontece muitas vezes "é ser transferido para outra paróquia". Isto, a meu ver, é de uma hipocrisia gigantesca. Como uma instituição pode defender a família, se ela acoberta atos de um pai que inicia uma família a qual terá, necessariamente, que abandonar??? (G.R)

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  3. Ser gay é diferente de agir como gay.
    Deus ama a todos, .mas a forma como cada um vive é que faz a diferença.
    A Palavra é clara quando diz que é abominável um homem se "deitar" com outro homem.
    Muitas vezes provocamos polêmica sobre um tema, a fim de justificarmos o que pensamos ou encobrir nossos próprios erros ou sentimentos. Esse texto não é sadio para o coração cristão, pois confunde-se e pode nos confundir no justo entendimento da Palavra.
    Esse texto que estamos comentando foi escrito por um Frei. Qual é a verdadeira intenção dele? Será que é a de "encobrir" suas próprias ações como sacerdote que é ?
    Fica a interrogação.
    Há uma corrente que diz que "uma mentira (ou suposição) constantemente repetida, torna-se "verdade" com o passar do tempo.
    Será que esse texto do Frei tem essa intenção?
    Que Deus nos ilumine...! (A.W.C/Guaratinguetá)

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  4. "A medicina, a psicologia e os estudos antropológicos coincidem". Só por essa frase este artigo prova sua falta de cientificidade. Não há nenhuma coincidência na opinião médica, psicológica e antropológica sobre a origem da homossexualidade. Ao contrário, há muita controvérsia. Desde estudos sérios de Richard Cohen e Gerard Aardweg, até a posição da "normalidade" da homossexualidade baseada, costumeiramente, não em estudos científicos, mas em agenda ideológica. O Frei Vanildo deveria procurar fontes mais confiáveis para sua militância. (A.E.P.P.O)

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  5. Bem, sabemos que aqueles que professaram um voto de celibato ou castidade não são seres assexuados - mas decidiram, em nome de um projeto de fé, decidido com base em sua experiência de vida com Deus (normalmente em conjunto com uma comunidade), dar um rumo para a sua sexualidade que não a praticando com outra pessoa. E para isso tanto faz se aquele que professa o voto é homo, bi, trans ou heterossexual: vai seguir sua vida de fé dentro de um sistema com o qual se comprometeu... se não consegue, bem, pode pedir ajuda, pode tentar fugir da prática e pode desistir...

    Digo essas coisas como pessoa em segunda união estável: sou interditado para uma série de coisas porque não condizem com minha opção de vida. Um assassino e estuprador pode confessar e comungar, eu não... O meu caso se chama "pecado habitual". O dos padres dentro de relacionamentos afetivos íntimos também... Então, de fato, o paroquiano comum não pode fazer nada se a situação o incomoda e o bispo não faz nada. Talvez pudesse fazer uma queixa ao Vaticano... Fora isso, só lhe resta mudar de paróquia - e rezar para que não se veja na situação daqueles que trouxeram uma mulher adúltera para que Jesus se manifestasse a respeito (vide João 8)...

    Marcelo Lima

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  6. Parabéns pela reprodução do artigo, Ramón!
    Chega de tapar o sol com a peneira.
    Afinal, "não importa a ´tua´opção sexual. Importa é o que fazes com ela."
    Aliás, o que Marcos fazia nu no Jardim das Oliveiras às vésperas da paixão?

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  7. Confesso que me senti incomodada com o artigo do Frei Vicente. Ele foi bem realista, corajoso em trazer em público situações que a Igreja numa atitude hipócrita faz de conta que não existe e "tá tudo bem". Essas realidades de vida dupla que muitos padres vivem geram incredibilidade, incoerências, hipocrisias com o que a Igreja prega.
    A instituição Igreja deveria rever a disciplina do celibato. Muitos padres não dão conta de viver essa disciplina.
    Fico pensando nesses padres que tem vida dupla no confessionário, atendendo os paroquianos que estão em situação de adultério, semelhante à vida deles, aconselhando... que hipocrisia! Seria mais honesto, autêntico, eles reconhecerem que não dão conta e saírem para viverem a relação com a outra pessoa.

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