Concluiu-se no dia 20/ABR a 56ª Assembleia Geral da CNBB, depois de 10 dias de trabalhos. 

O documento registra a comunhão do episcopado brasileiro com o Papa Francisco e destaca a necessidade de promover o diálogo respeitoso para estimular a comunhão na fé em tempo de politização e polarizações nas redes sociais.A mensagem retoma a natureza e a missão da CNBB na sociedade brasileira, justificando sua missão e excluindo-a de opções partidárias. Será que mantendo o politicamente correto nãofaltou o tom proféticopara esta situação política, social e econômica que vivemos?...

 

MENSAGEM DA CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL AO POVO DE DEUS

 

O que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo (1Jo 1,3)
Em comunhão com o Papa Francisco, nós, Bispos membros da CNBB, reunidos na 56ª Assembleia Geral, em Aparecida – SP, agradecemos a Deus pelos 65 anos da CNBB, dom de Deus para a Igreja e para a sociedade brasileira. Convidamos os membros de nossas comunidades e todas as pessoas de boa vontade a se associarem à reflexão que fazemos sobre nossa missão e assumirem conosco o compromisso de percorrer este caminho de comunhão e serviço.
Vivemos um tempo de politização e polarizações que geram polêmicas pelas redes sociais e atingem a CNBB. Queremos promover o diálogo respeitoso, que estimule e faça crescer a nossa comunhão na fé, pois, só permanecendo unidos em Cristo podemos experimentar a alegria de ser discípulos missionários.
A Igreja fundada por Cristo é mistério de comunhão: “povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (São Cipriano). Como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (cf. Ef 5,25), assim devemos amá-la e por ela nos doar. Por isso, não é possível compreender a Igreja simplesmente a partir de categorias sociológicas, políticas e ideológicas, pois ela é, na história, o povo de Deus, o corpo de Cristo, e o templo do Espírito Santo.
Nós, Bispos da Igreja Católica, sucessores dos Apóstolos, estamos unidos entre nós por uma fraternidade sacramental e em comunhão com o sucessor de Pedro; isso nos constitui um colégio a serviço da Igreja (cf. Christus Dominus, 3). O nosso afeto colegial se concretiza também nas Conferências Episcopais, expressão da catolicidade e unidade da Igreja. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, 23, atribui o surgimento das Conferências à Divina Providência e, no decreto Christus Dominus, 37, determina que sejam estabelecidas em todos os países em que está presente a Igreja.
Em sua missão evangelizadora, a CNBB vem servindo à sociedade brasileira, pautando sua atuação pelo Evangelho e pelo Magistério, particularmente pela Doutrina Social da Igreja. “A fé age pela caridade” (Gl 5,6); por isso, a Igreja, a partir de Jesus Cristo, que revela o mistério do homem, promove o humanismo integral e solidário em defesa da vida, desde a concepção até o fim natural. Igualmente, a opção preferencial pelos pobres é uma marca distintiva da história desta Conferência. O Papa Bento XVI afirmou que “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com a sua pobreza”. É a partir de Jesus Cristo que a Igreja se dedica aos pobres e marginalizados, pois neles ela toca a própria carne sofredora de Cristo, como exorta o Papa Francisco.
A CNBB não se identifica com nenhuma ideologia ou partido político. As ideologias levam a dois erros nocivos: por um lado, transformar o cristianismo numa espécie de ONG, sem levar em conta a graça e a união interior com Cristo; por outro, viver entregue ao intimismo, suspeitando do compromisso social dos outros e considerando-o superficial e mundano (cf. Gaudete et Exsultate, n. 100-101).
Ao assumir posicionamentos pastorais em questões sociais, econômicas e políticas, a CNBB o faz por exigência do Evangelho. A Igreja reivindica sempre a liberdade, a que tem direito, para pronunciar o seu juízo moral acerca das realidades sociais, sempre que os direitos fundamentais da pessoa, o bem comum ou a salvação humana o exigirem (cf. Gaudium et Spes, 76). Isso nos compromete profeticamente. Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada. Se, por este motivo, formos perseguidos, nos configuraremos a Jesus Cristo, vivendo a bem-aventurança da perseguição (Mt 5,11).
A Conferência Episcopal, como instituição colegiada, não pode ser responsabilizada por palavras ou ações isoladas que não estejam em sintonia com a fé da Igreja, sua liturgia e doutrina social, mesmo quando realizadas por eclesiásticos.
Neste Ano Nacional do Laicato, conclamamos todos os fiéis a viverem a integralidade da fé, na comunhão eclesial, construindo uma sociedade impregnada dos valores do Reino de Deus. Para isso, a liberdade de expressão e o diálogo responsável são indispensáveis. Devem, porém, ser pautados pela verdade, fortaleza, prudência, reverência e amor“para com aqueles que, em razão do seu cargo, representam a pessoa de Cristo” (LG 37). “Para discernir a verdade, é preciso examinar aquilo que favorece a comunhão e promove o bem e aquilo que, ao invés, tende a isolar, dividir e contrapor” (Papa Francisco, Mensagem para o 52º dia Mundial das Comunicações de 2018).
Deste Santuário de Nossa Senhora Aparecida, invocamos, por sua materna intercessão, abundantes bênçãos divinas sobre todos.

O que você sentiu diante dessa mensagem?


“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas”(Jo 10,11)



A partir deste 4º Domingo de Páscoa, a liturgia se afasta dos relatos das aparições do Senhormas não sai do tema pascal. O tema do Bom Pastor: dar a Vida, está profundamente sintonizado com o tempo de Páscoa. Jesus está vivo e comunica Vida à comunidade.

Crer e anunciar a Ressurreição é confiar na Vida que já não morre. Somos chamados a proclamar que há algo mais além da vida limitada e frágil. A morte foi vencida. Viver a Páscoa significa apostar pela qualidade de vidaPaira por todo lado uma falta de cuidado para com tudo e todos. Jesus foi o “homem-do-cuidado” e deixou aos seus seguidores esse mesmo estilo de vida. O evangelista Marcos diz com extrema finura: Ele fez bem todas as coisas! (Mc 7,37).

A cada dia o Pai chama as criaturas pelo nome e as convoca à vida: águas fluem, animais procriam, astros retomam seu curso e o ser humano acorda para cumprir suas tarefas. A Criação se refaz de crepúsculo em crepúsculo e de aurora em aurora.

O cuidado é algo mais que uma virtude; ele é a raiz do ser humano. `cuidado´ nos faz sensíveis e nos compromete com quem está à nossa volta, e nos une às criaturas. Jesus de Nazaré foi o homem do “cuidado”, revelou à humanidade o “Deus que cuida”, especialmente os pobres, os famintos, os discriminados e os doentes.

As parábolas do bom samaritano (compaixão pelo caído na estrada), do filho pródigo (acolhido e perdoado pelo pai), e, sobretudo, a do Bom Pastor, são expressões exemplares do amor que vira `cuidado´.

Cuidar é dar atenção, descentrar-se de si próprio e sair em direção ao outro. Sem o cuidado deixamos de ser humanos.

O amor é a expressão mais alta do cuidado, porque o que amamos também cuidamos.




Nunca podíamos pensar que aconteceria o que vimos e ouvimos. Uma delegação vaticana, com o Cardeal Jean Louis Tauran (* 1943) à cabeça, ficou por uma semana no reino saudita, encontrando-se com o rei e o príncipe herdeiro. O cardeal sofre do mal de Parkinson desde 2012, debilitando seu aspeto físico, mas não sua cabeça. 
O que é o cardeal disse, no seu discurso oficial, é uma pérola da boa convivência humana: “O que nos ameaça não é o choque de civilizações, mas o choque da ignorâncias e dos radicalismos. Conhecer-se é reconhecer-se”. 
Ao chegar a Riad no dia 13/ABR, o cardeal foi recebido pelo príncipe herdeiro, o vice-governador da capital, e pelo próprio secretário da Liga mundial muçulmana. Lembro que o reino saudita, é a terra natal do Islã, e lá estão os dois lugares mais importantes dos muçulmanos: Meca e Medina.

O cardeal também disse que os lugares sagrados cristãos, na Terra Santa, em Roma ou em outros lugares, estão sempre abertos a todos nossos irmãos e irmãs muçulmanos, para os fiéis de outras religiões e também a todas as pessoas de boa vontade que não professam qualquer religião... Também em muitos países, as mesquitas estão abertas a visitantes, e isto é o tipo de hospitalidade espiritual que ajuda a promover o conhecimento mútuo e a amizade, contrastando os preconceitos.

O cardeal falou sobre fundamentalismos: Em todas as religiões há radicalismos. Talvez os fundamentalistas e os extremistas sejam pessoas zelosas, mas infelizmente, se desviaram de uma compreensão sólida e sábia da religião. Além disso, consideram todos os que não compartilham de sua visão como infiéis, que devem se converter ou ser eliminados, para assim manter a pureza. São pessoas confusas que podem passar facilmente à violência em nome da religião, incluindo o terrorismo. Estão convencidas de que estão servindo a Deus? A verdade é que estão somente fazendo mal a si mesmas, destruindo os outros, destruindo a imagem da sua religião e dos seus correligionários. Por isso, precisam da nossa oração e da nossa ajuda.

Depois de esclarecer que a religião pode ser proposta, jamais imposta, e também aceita ou recusada, o cardeal falou que um dos campos em que cristãos e muçulmanos devem estar de acordo, já que no passado houve muita competição entre as duas comunidades, é o da construção de lugares de culto. De fato, todas as religiões devem ser tratadas do mesmo modo, sem discriminações, porque seus seguidores, assim como os cidadãos que não professam nenhuma religião devem ser tratados do mesmo modo. Plena cidadania para todos! Se não eliminarmos medidas desiguais do nosso comportamento como crentes, alimentam a islamofobia ou o anticristianismo

Os líderes espirituais temos o dever de evitar que as religiões estejam a serviço de uma ideologia, e reconhecer que alguns dos nossos correligionários, como os terroristas, não estão se comportando corretamente. O terrorismo é uma ameaça constante, e não se pode justificá-lo jamais. O terrorismo quer monstrar a impossibilidade da convivência. Nós acreditamos no contrário, por isso  devemos evitar agressões e difamações.

O pluralismo religioso é um convite a refletir sobre a própria fé, porque o diálogo inter-religioso autêntico inicia com a proclamação da própria féNão podemos dizer que todas as religiões são iguais, mas que todos os crentes e todas as pessoas de boa vontade sem uma filiação religiosa, têm a mesma dignidade. Cada um deve ser deixado livre para abraçar a religião que quiser. O Deus que nos criou não pode ser motivo de divisão, mas de unidade!

Quando li o discurso do cardeal percebi que os critérios por ele elencados, fazem do diálogo ecumênico e do diálogo interreligioso pérolas preciosas para o enriquecimento mútuo.

E você o que pensa?
   
Candidatos ao Noviciado dos jesuítas/2018...

Estava em Itaici, quando um jovem de 22 anos me disse que gostaria de entrar na vida religiosa. Pensei: Deus trabalha sem parar, a pesar de nossas limitações e fragilidades. 

Sabemos que os MCS não valorizam nosso celibato. Parece, até, como se a nossa “vida afetivo-sexual” ficasse à vista de todos. São muitos os que se posicionam contra, argumentando teses já sabidas: imposição desumana, atentado aos direitos pessoais, hipocrisia generalizada, etc. E no em tanto, no meio desse mar agitado, Deus continua chamando pessoas para a vida consagrada e ministerial. 

A primeira reação diante dos “casos escandalosos” que surgem nos MCS não deve ser o do pânico ou da censura, mas o da sensatez. Não adianta esconder notícias que se filtram por toda parte nem podemos colocar os jovens vocacionados numa “estufa”, protegendo-os da opinião pública. A liberdade de expressão é um valor, e a impossibilidade de controle faz inviável falsos recursos protetores.

Também não adianta “matar o mensageiro”, desautorizando-o com revelações ou insinuações sobre sua má conduta ou “motivos” inconscientes inconfessos. Não podemos usar dos recursos negativos dos que não nos valorizam.  

A melhor atitude a tomar é a de conhecer a realidade e analisá-la. Reconhecer o que existe de verdade (“não queiramos tapar o sol com a peneira...”), e não generalizar os problemas. O realismo é a melhor cura contra o escândalo. 

Quem entra no clero carga com os pecados de todos os seus colegas... Sem dramas! Por mais sadio, maduro, honrado ou santo que possamos ser, carregamos com a  boa ou má fama das nossas instituições. 

Quem não quiser carregar com os pecados coletivos parece não estar maduro psicológica e espiritualmente para entrar na vida consagrada ou no ministério presbiteral.

A história, com seus claros e escuros, leva-nos a viver hoje com maior coerência. Como diz o provérbio: “Hay que ser honrados y también parecerlo…

Alguns dizem que os jovens de hoje são personalidades frágeis, pouco desenvolvidas e “inseguros ontologicamente”. Apoiamo-nos excessivamente na instituição e nos refugiamos facilmente no anonimato da corporação. Confundimos frequentemente obediência com submissão, e fidelidade com indiferença. Isso não é bom.

Sabemos que “os jovens participam da fragilidade psicológica de seus contemporâneos”, e que o “pensamento líquido” busca segurança nas instituições e funções que exercemos. Mas, queiramos ou não somos obrigados a nos expor, “spectaculum facti sumus” (1 Cor 4, 9). Cada um responde por conta própria, e como pode. Oxalá sejamos sempre positivos!

A confiança que temos (ou não temos!) provem não do ofício que desempenhamos, mas das qualidades pessoais que temos. Não são as coisas que me fazem importante; sou eu que faço importantes as coisas que eu faço!

Daqui a importância da maturidade humana e afetiva. Sem ela, ninguém deveria assumir um cargo de comando, pois se não há “sujeito” humano adequado, não há carisma vocacional. Ou cultivamos a autenticidade positiva ou caímos no “funcionarismo público da Igreja”, na busca de compensações, no jogo político da inveja e da competição, no carreirismo e na hipocrisia. Não somos meros “repetidores” do que apreendemos ou do que outros disseram, mas hoje se nos exige que sejamos capazes de afirmar e confirmar os outros a partir de nossa própria experiência, sem cair na autorreferencialidade.
            
Não podemos depender da última teoria ou modismo. As personalidades fortes configuram-se a partir de convicções profundas que criam motivações e atitudes humanas e adequadas. Por isso temos que oferecer pensamentos globais, horizontes amplos e sentido para a vida. 

Só quem encontra Deus também no celibato é chamado para a vida religiosa. O ministérios ordenados (diácono, presbítero e bispo) seguem outros critérios de disponibilidade e serviço descartando tudo o que cheira a “dignidade, autoridade, endeusamento e poder”.

O presbítero não é um agente de serviços religiosos nem o funcionário público de uma instituição! O que hoje se considera mais indicativo e constitutivo do ministério é a “caridade pastoral”, conforme Jesus Cristo, o Bom Pastor. Se alguns abandonaram a igreja é porque esta os abandonou primeiro, não sabendo acompanhá-los nas suas situações existenciais. Como Jesus, queremos acolher fraternalmente os pequenos, os fracos e os necessitados.
            
Desse modo, não cairemos numa `empresa´ prestadora de serviços, no ativismo ou no vazio religioso e espiritual. Entender o ministério como “serviço” significa trabalhar com serenidade, paz interior e generosidade. Que eu saiba, o sucesso não é um dos nomes de Deus! Pelo batismo, todos somos servidores uns dos outros.

Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa? 


“Muita gente pequena, em lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, pode mudar o mundo...”

Tempo atrás, os meios de comunicação noticiaram turistas socorrendo 88 refugiados africanos chegando exaustos às mais badaladas praias das Ilhas Canárias. Os surpreendidos banhistas ajudaram, espontaneamente, os imigrantes clandestinos a descer das canoas, os cobriram com suas toalhas e lhes deram comida. Diante da pergunta dos jornalistas de por que reagiram assim, os improvisados samaritanos responderam: como não ajudá-los? Quê outra coisa poderíamos fazer?

Diante do sofrimento reagimos espontaneamente com compaixão. Quando vemos o sofrimento de alguém, a compaixão é a reação imediata. A compaixão não se reduz à mera empatia, mas ação para aliviar o sofrimento do outro.

Na parábola do Bom Samaritano, Lucas descreve uma série de ações: o samaritano se compadece, se aproxima, enfaixa as feridas, coloca o ferido no seu animal, o conduz à hospedaria, o cuida... Ações de ajuda, diferenciando-se de outras propostas retóricas ou descomprometidas.

Todos sabemos da importância dos relacionamentos para o desenvolvimento e a saúde das pessoas. Na parábola, o samaritano se aproxima do homem ferido, o toca, o abraça, lava suas feridas e o faz subir em sua cavalgadura... Contato físico, toque, carinho... Só depois é que usa o azeite e o vinho, como instrumentos de assepsia.

Diante da visão do homem ferido, o samaritano “se compadece”. O termo grego significa abraçar visceralmente a situação do outro.

Não confundir compaixão com lástima ou pena. A compaixão compartilha o sofrimento do outro: padece-com. A compaixão derruba as diferenças entre ajudador-ajudado e prevê reciprocidade: “hoje por ti, amanhã por mim!” A lástima, pelo contrário, interpõe distância entre a pessoa e o sofredor. A lástima não se coloca no lugar do compadecido, pois a relação estabelecida é de cima para baixo e tal desigualdade não é rompida pelos gestos de ajuda; só há sentimento, o que é muito pouco!

Nossa sociedade é muito lastimosa e pouco compassiva. Há situações que requerem ajuda imediata; o perigo é permanecer nessa visão alienante de lástima. A compaixão pergunta pelos desajustes estruturais que estão por detrás de cada desgraça e nos coloca do lado das vítimas; lê o drama da injustiça e da opressão. A “compaixão” se perverte quando faz do sofrimento um espetáculo televisivo e não se detém em analisar as causas estruturais que ocasionaram tamanha desgraça.

A compaixão começa pela capacidade de fixar o olhar no rosto do necessitado, desmontando preconceitos e perguntar por sua vida, sonhos, preocupações e dor. Acolhe, sem interpretar ou julgar. Escutar é fundamental! A compaixão permite colocar-se no lugar e na perspectiva do outro.
O samaritano conduz o animal para a pousada, como um servo. Desçamos, pois, dos nossos “jumentos” (privilégios, preconceitos...) e nos aproximemos fraternalmente dos necessitados.

Uma pergunta: Você apenas lastima ou é mesmo compassivo?

A integração pessoal e a pacificação interior não são fáceis. As decepções são frequentes e profundas. Os relacionamentos não são consistentes e, logo depois dos primeiros contatos, o desencanto brota no coração. Não somos o que queremos nem os outros nos preenchem satisfatoriamente. Somos distorcidos, e escondemos por pouco tempo nossos defeitos e manias. Somos complexos em demasia. E se não nos entendemos, como poderemos compreender o mistério dos outros? Os relacionamentos humanos são frágeis e artesanais. 

Ao mesmo tempo, somos profundos nos sentimentos e superficiais nas consequências que derivam deles. Se entra de cheio em novos relacionamentos, que se perdem com o tempo. O desgaste afetivo é enorme, aumentando progressivamente os desenganos amorosos. 

Conheço muitas pessoas rotas por dentro, necessitadas de gratuidade e carinho. Como levantar a cabeça e não entrar em desesperos existenciais com tamanhos desencontros? Não precisamos ir muito longe para constatar as consequências desastrosas desta falta de integração pessoal. Alguns não conseguem sobreviver por suas próprias forças e recorrem hipocondriamente a médicos, a analistas ou a gurús pseudo-religiosos. Outros buscam nos fármacos a forma de suportar com paciência as consequências do seu lado negativo e sombrio.

O lado “sombrio” inconsciente esconde `fantasmas´, `monstros´ e `personagens deformadas´que nos assustam. Lembro de uma pessoa que me disse: “tenho medo de adentrar em mim e nomear os “demônios” que me habitam...” Mas, se não o fizer `personagens negativos´ se multiplicarão e se manifestarão continuamente de muitas e diversas formas: pensamentos (imagens...), desejos egoístas, sentimentos depressivos, psicomatizações, pesadelos... Eles não se cansam de manifestar colocando nossa paciência `prova. Como escapar desse tiroteio contínuo?

Diante do “imaginário negativo”, alguns tentam reprimi-lo sem resultado; outros o concretizam levianamente, mas há também aqueles que, pelos valores transcendentais que introjetaram, sentem-no, o assumem, não se assustam nem o concretizam.

Quanto de negativo herdamos do nosso passado? Não imagino. Só sei que cada um carrega não só o pai e a mãe, mas também os próprios antepassados. E convenhamos, quanto fardo negativo foi-se acumulando na própria história! O negativo dos nossos antepassados se não for integrado ou evangelicamente purificado se transforma em “virus psico-espirituais” que corroem as próprias  entranhas e estruturas psíquicas. O que é, pois, um psicopata? Alguém que não percebe que goza fazendo os outros sofrer! O rato sabe quem é o gato, mas nós estamos indefesos diante do psicopata...

Depressões, desejos incontrolados, hipocondria exacerbada, neuroses agudas, paralisias psicológicas, timidez, estouros agressivos, doenças... são fruto da história consciente ou inconsciente do nosso passado. Como amar se nunca fomos amados?  

O peso do nosso passado perde sua força na media que o conhecemos, verbalizamos e assumimos. Não é possível viver condicionados por fatos e experiências não vividas pessoalmente. Precisamos ser positivos conosco e com todos os outros. Para isso, é preciso eliminar palavras, juízos e ações que tornam os relacionamentos difíceis. Reconhecer o outro como irmão e nunca como adversário ou rival. Fazer desaparecer as manifestações de confrontação recíproca. Daí a necessária purificação da nossa memória histórica.

Os relacionamentos humanos são complexos, mas com amor se tornam fonte de grandes alegrias e enriquecimento.

E você o que pensa sobre este assunto?


O ódio à Teologia da Libertação é comum aos grupos extremamente conservadores que  admiram o cardeal Burke (foto). 

Recentes episódios chamaram a atenção para um tipo de catolicismo que parecia dormitar. Primeiro: tentativa de execrar publicamente um frade franciscano por celebrar uma missa em memória de D. Marisa Letícia da Silva (esposa de Lula). Segundo: cruzada difamatória contra a CNBB e a Campanha da Fraternidade acusadas de apoiar entidades comunistas e abortistas. Terceiro: o assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, nomes banidos na comunidade cristã.
Poderíamos mencionar outros casos em que reações muito parecidas ocorreram. Segmentos mais conservadores do catolicismo “saíram do armário” e empunharam técnicas de protesto da esquerda radical. Elementos comuns? Agressividade de pequenos grupos e lideranças que se dizem católicas, distorcendo fatos públicos com ataques agressivos a pastores nos templos ou reuniões de pastoral. Reprodução das “fake news” sem checar suas fontes nem respeitar os princípios básicos da educação ou da piedade cristã, propagando ódio, calúnias e inverdades.
Nestes fatos, a Arquidiocese do Rio de Janeiro/RJ e Londrina/PR surgem como lugares das manifestações mais ácidas. 
E como reagiu o clero? A maioria manteve um silêncio condescendente ou até de apoio verbal aos extremistas. Isso permite que tais mensagens de ódio e intolerância se convertam em instrumentos de cooptação de possíveis agentes de pastorais (como catequistas, músicos e membros da pastoral familiar) em funções de liderança em nível local e diocesano. 
Mas o que significa esse fenômeno? Quem compõe essa onda ultra conservadora? O fundamentalismo católico ganha espaço, e faz muito barulho pelos protestos inesperados nas igrejas, ou mesmo na internet. Não são um bloco homogêneo nem numeroso, mas variados, irmanados por percepções extremistas da realidade. Eles agem com elevado grau de intolerância, a ponto de se tornarem comparáveis aos xiitas muçulmanos ou talibãs afegãos.
Possuem uma compreensão tosca e anacrônica de nossa conjuntura política ou da moral cristã. Repetem slogans que nem eles mesmos sabem justificar. Odeiam a Teologia da Libertação, e movimentos que se aproximam dessa perspectiva pastoral, assumindo posições político-religiosas que remontam ao pré Vaticano II. Em muitos aspectos se parecem com as igrejas evangélicas pentecostais, promovendo um cristianismo intimista, e que insistem no caráter mágico do sagrado. Defendem uma espiritualidade centralizada no louvor desconectada da realidade. Valorizam o terço, a adoração ao Santíssimo, a devoção mariana e a aparente obediência ao Papa.
Completam esse bloco grupos e movimentos religiosos tradicionalistas e que todos conhecemos. 
Em tempo. Um padre da nossa comunidade jesuíta foi interrompido na sua homilia por um senhor que `pontificava´, acusando-o de querer `revolucionar´ a Igreja...