Poesia em toda parte... (Gilmar P. da Silva SJ)


Há poesia em toda parte. Chamo poesia toda palavra que me toca, reflete, desinstala ou transborda. Olho para uma pedra e, na sua dureza, aspereza, irregularidade, vejo algo da condição humana. Uma pedra não é só uma pedra. Nela cabe um mundo e por isso Drummond se incomodou tanto com a que estava em seu caminho.

Não é porque você não vê esses mundos que eles não estão lá. Estes não se abrem para quem os busca com razão dura. É a poesia quem deve lhe encontrar. Ela roça a retina, colore a língua e perfuma os ouvidos. Às vezes a gente tem que inverter os sentidos (ou interpolá-los, ou intercala-los, ou fundi-los, ou pareá-los) para acolher a poesia e saboreá-la, e sentir seu gosto na pele. Daí a gente olha para o mundo e vê que tudo é bom.

Se eu fosse traduzir a Bíblia, preferiria dizer que o Criador, diante de sua obra, viu que tudo era bonito. Ouvi dizer que a palavra usada no texto original do Gênesis, onde se diz “bom”, quer dizer, ao mesmo tempo, belo e bom. E se for assim, pecado é tudo o que tira a beleza da vida. Imagine, só: um céu de poetas! Acho que, desse jeito, inferno não seria um problema para as pessoas. Afinal, um dia você estaria a caminhar pela rua, olharia uma pedra e encontraria Deus. A arte nos aproxima do mistério da vida.

Por isso é que a gente precisa de arte para viver, para dar esperança e para deixar inquieto. Às vezes a realidade dura se impõe e é nessas horas que a realidade poética precisa crescer, para ajudar a ver que a vida é mais do que a adversidade que se passa e que é possível se mexer e mudar o cenário. Nessas horas a poesia precisa se espalhar como praga e contaminar o mundo.

Gosto da ideia de contaminação. Nizar Qabban,i com sua poesia, foi crítico da guerra e da realidade de seu povo. Sua poesia desinstala. Kalil Kalil, sensível a essa obra, fez um filme (Taif Nizar, de 2002) sobre Qabbani. Quem não dirá que o filme de Kalil tocou a outros tantos que o assistiram, espalhando a poesia? E assim a arte vai brotando de chão em chão, de peito em peito, em todos os continentes.


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