Sexualidade e Espiritualidade...

E os chamou de amigos... (Jo 15,14)

'Amigo' é a palavra que o apóstolo João usou para descrever o relacionamento de Jesus com seus discípulos. `Amigo´ é mais que companheiro ou sócio, pois expressa laços de afeto. Jesus se relacionou com seus discípulos e discípulas com laços de carinho, e eles eram mais do que ‘companheiros’ de trabalho ou de caminhada. Aqueles homens e mulheres que o seguiam, sentiam que Jesus não só os valorizava e apreciava, mas que os tinha também no seu coração.

'Eu lhes dei a conhecer tudo...' disse-lhes Jesus. O que significa esse ‘tudo’? Verdades divinas, propostas humanas, carinho e respeito... Você já percebeu que só cremos quando amamos e só amamos quando cremos? Os discípulos creram em Jesus, porque o amavam. Desse modo, cresciam em autoestima e experimentavam a salvação! Salvação é vida plena.

Pode parecer estranho e até heterodoxo querer unir espiritualidade e sexualidade, duas dimensões significativas do ser humano. Alguns acham que a ‘espiritualidade’ é para os anjos e a ‘sexualidade’ para os humanos. A tradição judaico-cristã afirma a unicidade do ser humano e não o entende sem aquele ‘sopro divino’, Ruach, experimentado no início da Criação. ‘Ruach’ é sopro e Espírito

O amor, que se alimenta e que se exprime nos encontros, é sempre dom de Deus. Qualquer manifestação humana natural, instintiva ou criada pelo homem, tem sempre um profundo significado espiritual. Toda experiência humana é sempre representação de uma realidade maior, mais profunda e complexa. Sexualidade e espiritualidade nos acompanham desde o início da nossa história, um milhão de anos atrás.

O texto sagrado diz que 'Deus criou o ser humano à sua imagem... e os criou macho e fêmea' (Gn 1, 27)... São ‘humanos’, porque vem do ‘húmus’ da terra, e ao mesmo tempo imagem e semelhança de Deus. Na tradição bíblica mais antiga, a javista (950 aC), não há conflitos entre sexualidade e espiritualidade. Os ‘pre-conceitos’ são posteriores e, certamente, culturais. Lembremos que o matrimônio, na tradição católica é um ‘sacramento’, presença e bênção de Deus no relacionamento sexual dos casados. Quem ama está mergulhado em Deus, pois Deus é amor.

Para alguns, relação íntima significa apenas ‘tirar a roupa’ e fazer sexo. Estes esquecem que toda intimidade só acontece depois de algum tempo e quando se sai do próprio amor, querer e interesse. A ‘nudez física’ só terá sentido quando antes se despojar de toda mentira e egoísmo. Conheço pessoas que não estão dispostas a revelar ao seu parceiro sua realidade ambígua mais íntima... Por isso, intimidade e espiritualidade não se expressam adequadamente em relacionamentos promíscuos ou fortuitos.

Intimidade (intimus = dentro de) é uma conduta amorosa e responsável que se manifesta pela autorrevelação do mais profundo da pessoa e se constrói com respeito e amor. Atitudes que ajudam e dão consistência à intimidade? ‘Desculpe!... Eu não sabia!... Preciso de você!... Fique comigo!... Perdoe-me!... Tenho raiva... Você significa muito para mim!...’ A verdadeira intimidade inclui sempre carinho, respeito e verdade.

Há um princípio muito claro: As pessoas só se unem quando se amam e só o amor responsável cria família e comunidade. Sabemos que há vários tipos de ‘famílias’, todas válidas, e que o tempo ajuda a estruturar ou desestruturar os relacionamentos iniciados.

Quem teve a sorte de chegar ao coração de outra pessoa, provavelmente também encontrou Deus. Só o amor tira da solidão e cria verdadeira comunhão.

Uma pergunta: Você já partilhou sua história mais limitada com alguém?







Um comentário:

  1. É um belo texto. Essas palavras são tão úteis nos dias de hoje. Começo por mim mesmo, que sempre me pergunto: "como exercer minha sexualidade?" E creio que essa é um questionamento comum a muitas pessoas.

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