4º DTQ: DESCOBRIR O PAI QUE NOS HABITA... (cf. Pe. A. Palaoro SJ)

Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e foi tomado de compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e o cobriu de beijos... (Lc 15, 20). 


As parábolas mais belas de Jesus foram aquelas nas quais deixou transparecer a misericórdia de Deus. E a mais cativante é a parábola do “pai misericordioso”. É incorreto chamar o relato de “parábola do filho pródigo”. Ela não é dirigida aos pecadores para que se arrependam, mas aos fariseus e mestres da lei para que mudem sua ideia e imagem de Deus

Na parábola, Jesus justifica sua postura para com os publicanos e pecadores, desvelando quem é o Deus de misericórdia para todos nós, sejamos “bons” e “maus”. Na maneira de atuar com os dois filhos, o pai da parábola torna visível o rosto do Deus compassivo revelado por Jesus; Deus que ama a todos indistintamente.

Jesus não fala nunca de um Deus indiferente ou distante, esquecido de suas criaturas ou interessado por sua glória ou seus direitos. Não é um Deus “legislador” procurando governar o mundo por meio de leis, nem um Deus “justiceiro” irado com os pecados dos seus filhos e filhas. Para Jesus, Deus é compaixão, e a compaixão é o modo de ser de Deus, sua maneira de ver a vida e de olhar às pessoas. Deus sente como uma mãe sente para com o filho que leva em seu ventre. Deus nos carrega em suas entranhas misericordiosas.

A compreensão da “parábola do amor paterno-materno de Deus” pode ser para nós uma verdadeira iluminação. Ela revela não só o “coração compassivo” de Deus, mas também o que devemos aprender sobre o “falso eu” e o nosso verdadeiro ser. Os três personagens representam diferentes aspectos de nós mesmos.

“parábola dos dois filhos” trata de uma denúncia implacável contra a espiritualidade farisaica. Em primeiro lugar, tanto o filho mais novo como o primogênito habitam em cada um de nós; podemos encontrar em cada um deles, elementos que nos levem a identificar-nos com ambos.

“filho mais novo” simboliza nossa natureza egocêntrica e narcisista que nos domina enquanto não descubramos o que realmente somos. Todos temos muito do filho mais novo,aquele que rompeu a aliança e se distanciou da casa paterna. A atitude do filho mais velho também deveria ser objeto de uma atenção mais cuidada. É relativamente fácil sentir-nos “filho pródigo” (ter dilapidado um capital que nos foi entregue sem ter merecido), cair na conta que temos rompido com o pai e com a casa, e desejar que ele morra para herdar seus bens. Tudo para potenciar nosso egoísmonosso hedonismoà custa daquilo que nos foi entregue com amor. O fracasso do filho mais novo e a desesperada situação à qual chegou, facilita a tomada de consciência de que tomou o caminho equivocado.

É difícil mais descobrir em nós o“irmão mais velho” e, no entanto, provavelmente todos temos mais traços deste filho do que do outro. Com frequência, não entendemos o perdão do Pai, e nos irrita que uma pessoa que se comportou mal seja tão querida... Não percebemos que rejeitar o irmão é rejeitar o Pai, e caímos facilmente na queixa que envenena e no julgamento que mata. Não nos sentimos identificados com o Pai, mas buscamos, por todos os meios, que o Pai se identifique conosco. Tampouco descobrimos que precisamos de conversão e temos de regressar ao Pai. Por isso, a parábola deixa em um suspense inquietante a resposta do irmão maior; não nos diz se ele acolheu o apelo do Pai e se incorporou à festa. Isto nos faz pensar.

A descoberta de que somos o irmão mais novo e, ao mesmo tempo, o irmão mais velho, nos faz perceber o objetivo da parábola, que é o Pai. Temos de deixar de ser “irmão mais novo” e “irmão mais velho” para converter-nos finalmente em “Pai”.

Somos chamados a deixar de ser irmãos e identificar-nos com o Pai, como Jesus (descobrir um profundo significado da frase de Jesus: “Eu e o Pai somos Um”). Nossa maturação pessoal acontece quando deixamos transparecer em nós a figura do Pai. “Sede misericordiosos como vosso pai é misericordioso”. A parábola de hoje nos faz tomar consciência que sempre haverá, em nossa vida, etapas a serem superadas, na direção do coração compassivo do Pai.

Interpretar a parábola a partir da perspectiva de um Deus que se revela dentro de nós mesmos. Nós mesmos somos o Pai/Mãe que perdoa, acolhe e integra tudo o que há em nós de fragilidade e engano. Ser verdadeiro(a) filho(a) não é viver submetido ao pai ou afastado dele, mas imitá-lo até identificar-nos com ele.

O “pai” é nosso verdadeiro ser, nossa natureza essencial, o divino que há em nós. É a realidade que temos de descobrir no fundo de nosso ser. Não faz referência a um Deus que nos ama a partir de fora, mas ao que há de Deus em nós, formando parte de nós mesmos. É o fogo do amor compassivo que derrete a frieza nos nossos relacionamentos, queima toda pretensão de julgamento e intolerância, e ativa o impulso ao contínuo retorno à casa paterna.

Para redescobrir o(a) “pai-mãe que nos habita”, não supõe ignorar nossa condição de “irmão mais novo” e “mais velho”; é preciso aceitá-la, é preciso saber conviver com o que ainda há em nós de fragilidade e imperfeição. Devemos buscar superá-la, mas enquanto esse momento não chega, é preciso aceitá-la e ultrapassá-la, ativando o amor incondicional do Pai. Tanto o irmão mais novo como o irmão mais velho que há em cada um de nós, deve ser objeto do mesmo amor. A parábola não exige de nós uma perfeição absoluta, mas que caiamos na conta de que nos resta um longo caminho a percorrer. O que ela pretende é colocar-nos no caminho da verdadeira conversão: a superação do auto-centramento e do perfeccionismo.

Falta-nos dar o último passo no desprendimento do ego e para nos identificar com o que há de divino em nós, o Pai. 


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