Apostolicidade em uma Igreja sinodal... (Cf. Marcelo Barros OSB)


A festa dos apóstolos Pedro e Paulo é uma das mais importantes, porque eles foram considerados padroeiros da Igreja de Roma, pois ali estão os seus túmulos. 
A Igreja éUna, Santa, Católica e Apostólica. Apostólica porque vem dos apóstolos e é fiel ao que os apóstolos ensinaram. O problema é que, no decorrer dos séculos, esse “vir dos apóstolos e ser fiel ao que eles ensinaram” foi compreendido de forma quase mecânica: um bispo validamente ordenado que ordena um novo bispo. Assim, teria se mantido até hoje uma linha histórica que viria desde os apóstolos. Evidentemente que muitos elementos de doutrina, liturgia e disciplinamudaram. A Igreja foi se adaptando e mudando através dos tempos. 
Proponho, pois, outro critério de apostolicidade. A Apostolicidade da Igreja seria fazer com que ela se pareça com Jesus em sua forma de ser, de crer e de agir... Essa é a apostolicidade e não querer legitimar a sacralidade divinizada dos ministérios ordenados em nome da apostolicidade. Nossa missão é apostólica se retomamos às fontes da fé e somos testemunhas da ressurreição de Jesus.
Na carta aos efésios se diz que todos os fieis são como um edifício construído sobre a base (os fundamentos) dos apóstolos e profetas, tendo como pedra angular o próprio Cristo Jesus(Ef 2, 20). Um corpo tem duas pernas e a Igreja esses dois pilares: o dos apóstolos e o dos profetas. Mas, há séculos a nossa Igreja anda com uma perna só (a dos apóstolos) já que a dos profetas sumiu ou foi sumida...
A Igreja tem duas dimensões: a institucional(identificada pela apostolicidade) e a carismática(a profecia). Essas duas dimensões devem conviver e se completar. O problema é que se identificou apostolicidade com autoridade.
No primeiro século, cada igreja local tinha seu jeito próprio de ser e de se organizar. Havia as Igrejas chamadas apostólicas, isso é, governadas por um apóstolo ou apóstola(Paulo conclui a carta aos romanos pedindo: “Saúdem Andrônico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, (ele e ela) apóstolos notáveis” (Rm 16, 7). E havia comunidades como as `joaninas´ que não não tinham nenhuma hierarquia estabelecida. O modelo de organização era sinodal. Toda a Igreja era ministerial e não existia hierarquia acima da comunidade.
 Só depois do ano 100, a comunidade joanina precisou acrescentar o capítulo 21 ao seu evangelho. Ali, mesmo sem chamar os discípulos de apóstolos, a comunidade do quarto evangelho aceitou a missão especial de Pedro e tentou compreender essa missão institucional em relação com a função carismáticae mais livre do discípulo amado (Jo 21, 15 – 23). Esse é o evangelho que, todos os anos, a Igreja propõe como leitura da Missa da tarde ou da Vigília dessa festa de São Pedro e São Paulo.
Já no evangelho do dia, (Mt 16, 13- 19) relemos a confissão de fé de Pedro. Só o evangelho de Mateus traz a palavra de Jesus: “Tu és Pedro”. Só Mateus escreve que Jesus respondeu à profissão de fé de Pedro, com a promessa: “Tu és Simãofilho de Jonas. De agora em diante, te chamarás Cefas que quer dizer pedra”.
Conforme alguns exegetas, na época de Jesus, o povo tinha o costume de escavar as rochas para daí tirar pedras para construir casas. Era um tipo de pedra mais mole que, quem sabe, poderia nos recordar nossa pedra-sabão, usada por vários artistas para esculturas em pedra. Era um tipo especial de pedra, mas possível de ser quebrada e partida para dar lugar a abrigos. Os buracos formados nas rochas recebiam na língua aramaica o nome de `kepha´.As pessoas pobres e sem casa se abrigavam nestas cavernas e as usavam como sendo suas casas. Assim sendo, o nome `Kepha´ pode ser traduzido por pedra ou por gruta escavada na rocha, isto é, gruta que servia de abrigo para os pobres sem-teto. A tradução mais literal dessa palavra atribuída a Jesus seria: “Tu és Pedro e sobre ti, como gruta que serve de abrigo aos empobrecidos quero construir minha comunidade”.
A função da Igreja seria ser refúgio que acolhe as pessoas sem teto e a missão dos seus ministros é garantir essa abertura aos mais desprotegidos. Na forma como vive o seu ministério, parece que o Papa Francisco tem voltado a essa compreensão da palavra de Deus. Ele tem se consagrado à defesa radical dos migrantes e refugiados.
Jesus tinha dito que toda pessoa que escuta e pratica a Palavra é como quem constrói a sua casa sobre a rocha. “No edifício da igreja, ninguém pode colocar outro fundamento que o Cristo Jesus, pedra angular” (1 Cor 3, 11).
Mateus é o único evangelista que usa a palavra ‘Igreja’ e no seu contexto significa a comunidade local. Pedro é o apoio, pedra que deve dar solidez e segurança ao edifício. Pedro é símbolo do discípulo a quem o Senhor confia o encargo de “confirmar na fé aos seus irmãos” (Lc 22, 31- 32). Embora Jesus entrega a todos a missão de testemunhar o reino, Jesus entrega a Pedro as chaves do Reino. Na concepção atual, dar a chave seria dar o poder. No Brasil, é usual que o prefeito de um município entregue a uma autoridade que o visita, a “chave” da cidade. Jesus entregar a Pedro as chaves do reino dos céus que dizer que Pedro é o verdadeiro escriba e tem o dom do discernimento.
A Igreja Católica construiu toda uma teologia sobre o ministério de Pedro e seus sucessores, como bispos de Roma. Sem dúvida, a Igreja de Roma tem o direito de se apoiar em uma tradição, mas os estudos exegéticos atuais não sustentam que o Jesus histórico tivesse querido fazer de Pedro o chefe da Igreja, pois não existia ainda como conjunto de comunidades nem na época de Jesus nem no tempo em que os Evangelhos foram redigidos. 
Do texto de Mateus não se pode concluir que Pedro teria um sucessor. (…) Quando o Evangelho foi escrito, Pedro tinha morrido provavelmente um quarto de século antes e o Evangelho não fala ainda em qualquer sucessão. Em 1995, na encíclica “Ut unum sint”, o Papa João Paulo II pediu aos representantes de outras Igrejas que o ajudassem a aprofundar outras formas de exercer o ministério petrino. Por ter feito isso, recebeu muitas críticas. A Igreja Anglicana e a Federação Luterana responderam ao pedido do Papa. 
O desafio hoje é pensar a apostolicidade a partir de uma Igreja sinodal.Para isso, o segredo é restituir à figura do/a apóstolo/a, sua dimensão profética e carismática e não continuar com o mito de que o sinônimo de apostolicidade é hierarquia e menos ainda clericalismo.

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