O proselitismo impede o dialogo...


O discurso do Papa Francisco em Nápoles, 21/JUN, será lembrado como um dos mais significativos de seu pontificado: A veracidade das diversas religiões e sua coexistência
No passado, o Papa Francisco já tinha criticado o “proselitismo”, mas agora o chamou de `praga´ maléfica. Os que criticam o Papa, aqueles ultraconservadores prontos a serem escandalizados, pensarão que o Papa quis acabar com a atividade missionária da Igreja. Grande ignorância, pois anteriormente Paulo VI e Bento XVI haviam sublinhado a diferença entre `missão´ e `proselitismo´; a missão anuncia a fé respeitando os valores dos outros e o proselitismo pretende converter com mentiras, dolos e ameaças. 

Em Nápoles o Papa Francisco definiu o `proselitismo´ como uma `peste´, como a pior doença. Reivindicou com força o documento firmado com os muçulmanos em Abu Dhabi, onde se afirma que a presença das diversas religiões na Terra era `querida´ por Deus. A Cúria Romana ficou com os pelos em ponta, e tirou a palavra `querida´ e colocou `permitida, sutileza doutrinal que Francisco não aprova. Em Nápoles Francisco falou mal daquela “apologética” na qual o catolicismo fica na frente e tem sempre a razão.

Dizer que o catolicismo não tem “sempre a razão” significa que alguma vez errou, o que levanta ampolas em algumas pessoas historicamente prepotentes. Significa posicionar a Igreja católica entre as religiões, disposta a admitir que na pluralidade religiosas há riquezas, e que outros fora dos nossos quadros podem também ter razão. 

O Instrumento de trabalho do próximo Sínodo sobre a Amazônia, criticado evidentemente pelos “tradicionalistas”, vai na mesma direção, já que podemos aprender também da espiritualidade dos povos indígenas, alguns até bem distantes da fé cristã.

Tudo isto é novo na Igreja, e coloca dois problemas: Primeiro, o próprio Papa Francisco admite que após o discurso de Nápoles crescerão as acusações de “heresia” por parte dos mais conservadores dizendo que o Papa renegou a Tradição. E isso, dito até por algum cardeal e também bispos... A esses, o próprio Papa responde antecipadamente dizendo que a vera Tradição católica “não é um museu”, mas uma “tradição viva” e cabe ao Papa defini-la para o nosso tempo, distinguindo o essencial daquilo que a poeira dos tempos foi acrescentando inutilmente, e que seria até infiel ao Evangelho. Por isso, o supérfluo deve ser criticado e cambiado.  E aos que ainda assim o agridem dizendo “que os ensinamentos tradicionais nunca foram mudados”, Francisco responde: “Sou o Papa, e posso e devo fazer o que faço.

O segundo, embora ainda precise de mais tempo para pensar e elaborá-lo, é o valor do diálogo e a condenação do proselitismo. A Igreja católica renuncia ao proselitismo: isso é um direito dela e também um dever. Mas, com quem dialogar?

O Papa sabe muito bem que – excluindo os mais liberais do protestantismo e do hebraísmo e algum intelectual de outra fé, a maior parte das religiões praticam mesmo o proselitismo. Ironia da história, as religiões “proselitistas” crescem e as não “proselitistas” diminuem

Se a Igreja Católica quer dialogar só com os que não fazem proselitismo, corre o risco de excluir do seu diálogo a maior parte dos que se dizem crentes. Parece não ser essa a posição de Francisco, pois ele foi o primeiro Papa a visitar uma Igreja pentecostal, em Caserta, 2014, e a receber o presidente da Igreja Mórmon, no Vaticano (MAR/2019). Os países a Rússia e a China com os mórmons e os pentecostais, são os mais proselitístas de todos. E o Papa sabe e também fala com todos eles.


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