21º DTC: A PORTA QUE DÁ ACESSO À VIDA... (cf. Pe. A. Palaoro SJ)

“Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita” (Lc 13, 24)

Segundo o relato de Lucas, um desconhecido interrompe o caminho de Jesus e lhe faz uma pergunta“Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?”

Tal pergunta, no fundo, é uma ofensa ao amor de Deus e, por detrás dela, uma falsa imagem d’Ele, como se Deus colocasse travas à salvação e não quer que este dom chegue a todos. Por isso, Jesus não responde diretamente à pergunta. 

O importante não é saber quantos se salvam, mas viver com lucides e acolher a salvação do Senhor. Quem está disperso não está em sintonia com o dom da salvação, e perde a oportunidade de acolhê-la. Por isso, Jesus insiste: Fazei todo esforço para entrar pela porta estreita.

Para entender corretamente o apelo a “entrar pela porta estreita”, é preciso recordar as palavras de Jesus encontradas em João 10, 9: Eu sou a porta; quem entrar por mim será salvo. Entrar pela “porta estreita” é fazer caminho com Jesus e revestir-se do modo de ser e de viver d’Ele... Jesus não pede rigorismo legalista, mas amor radical a Deus e aos outros.

Jesus é uma porta sempre aberta, e ninguém pode fechá-la; só não passamos por ela se nos fechamos em nosso egoísmo e legalismo.

Ao longo da história da espiritualidade cristã esta frase – “esforçai-vos por entrar pela porta estreita” - foi entendida como sacrifício e mortificaçãoconquista de méritos e recompensas, inflando um ego perfeccionista.

Não conhecemos nenhum mestre espiritual que tenha dito que a porta que conduz à Vida seja cômoda ou ampla. Espaçosa e plena é a própria Vida, mas a porta é estreitaPara entrar por ela é preciso despojar-se de tudo aquilo que foi sendo acumulado ao longo da vida: posses, honras, consumismo, vaidades, poder, prestígio... “Entrar pela porta estreita” é desinflar-se, e deixar transparecer a verdadeira identidade do próprio ser.

As portas do Reino estão sempre abertas para todos. Os “egos inflados” acreditam estar dentro, quando na realidade estão fora; acreditam ser donos da porta; não se atrevem a entrar por medo à verdade e preferem ter um pé dentro e outro fora.

Numa perspectiva psicológica, conhecemos a imagem da porta nos nossos sonhos. A porta trancada significa que perdemos o contato com nosso interior, com nossa essência e vivemos apenas na exterioridade. No evangelho deste domingo, as pessoas que o dono da casa afirma não conhecer, vivem apenas na superfície de si mesmas. Até mesmo sua fé é meramente exterior. Elas dizem ter comido e bebido com Jesus e ter ouvido seu ensinamento, mas seu coração está fechado

O dono da casa ao dizer - não sei quem sois – apenas afirma que tais pessoas não são dele. 

Portanto, a parábola deste domingo nos convida a fazer a travessia do exterior para o interior. Na verdade, a porta estreita conduz a um horizonte mais amplo, e atravessá-la significa fazer emergir o que há de mais nobre em nós. Passar pela “porta estreita” é uma experiência de “morte” àquilo que não somos para viver o que somos. 

O símbolo da “porta” não se define como um espaço, mas é o “limite” entre um lugar e outro, é o interstício entre dois espaços, é o que divide dois modos de ser e viver.

Somos“seres de travessia”, e é próprio do ser humano ousar, romper, ir além... Para isso é preciso arriscar para viver uma experiência transformadora, aproximando-nos do diferente: abrir portas de mundos que desconhecemos, e viver situações às quais não estávamos acostumados...



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