29º DTC: A VIÚVA E SUA SANTA INDIGNAÇÃO... (cf. Pe. A Palaoro SJ)

Faze-me justiça contra o meu adversário!... (Lc 18,3)



O maior poder do mundo é o rosto indignado do órfão, da viúva, do refugiado, do excluído... O rosto de quem sofre e carrega no mais profundo de si mesmo toda a energia de Deus. O “rosto” dos indignados que gritam exigindo justiça.

Somos dominados pela voz daqueles que vivem para se impor e abafar a voz dos mais frágeis e vulneráveis, e querem enganar-nos com o circo midiático das mentiras organizadas (fake news). Para que este mundo se transforme e a justiça se faça presente continua sendo necessário o grito das viúvas, e a voz de todos os oprimidos da terra. É chegado o momento de nos comprometer a elevar a voz, como tantos homens e mulheres de nosso tempo. Como a viúva do evangelho queremos denunciar todo tipo de injustiça.

Numa sociedade onde a realidade feminina era invisível, Jesus tornou-a visível. Sua conduta foi radicalmente “contra-cultural”. Considerando seus gestos e palavras foi um revolucionário, pois mostrou-se sensível ao que pertencia à esfera feminina, em contraposição ao mundo cultural machista, centrado na dominação e submissão do fracoJesus faz emergir o mundo vital das mulheres tirando-as do anonimato. Por isso, Jesus narrou preciosas parábolas tendo as mulheres como protagonistas, especialmente as mais pobres.

A mensagem e a prática de Jesus significam uma ruptura com a situação imperante e início de um novo tipo de relação, fundado no amor, respeito e igualdade entre homem e mulher. 
Em um contexto social no qual as relações se estabelecem através do poder, da hierarquia, da autoridade, a parábola deste domingo nos introduz em uma nova ordem das relações que devem caracterizar o Reino de Deus, inclusão que quebra toda pretensão de poder e de imposição.

As viúvas, os órfãos e os estrangeiros são os as mais pobres entre os pobres. E o grito continua: “Fazei-me justiça!”.  Os pobres aparecem submetidos à arbitrariedade dos poderosos, mas sua voz chega até Deus. Eles ocupam um lugar especial no evangelho de Lucas, e oxalá também no nosso coração. 

Contrariamente àqueles que pensam que não vale a pena sair às ruas para gritar e protestar (no plano social e religioso, político e eclesial), o evangelho deste domingo nos situa diante do grito desta viúva, capaz de mudar a ordem injusta do sistema.

Às vezes, tudo parece ficar restrito a um grito, mas esse brado é mais profundo e eficaz que todas as vozes opressoras, prepotentes e intolerantes do sistema dominante. Esse grito da viúva continua sendo promessa de vida para todos nós.

Jesus também foi um indignado, e adotou uma atitude crítica frente ao sistema político e religioso de seu tempo; Ele se comportou como um “transgressor” frente à ordem estabelecida, centrada no poder e na exclusão. O conflito nascido de sua indignação define seu modo de ser, e caracteriza sua forma de viver. A indignação de Jesus de Nazaré com os poderes, político-religiosos constitui um desafio para os cristãos e cristãs de hojeUm outro mundo é possível.

Precisamos alimentar uma espiritualidade da indignação, quando é preciso reagir frente à mentira e à injustiça que envenenam as relações entre as pessoas. Somos habitados pelo mesmo Espírito que movia Jesus no contexto do seu tempo.  

No seguimento de Jesus, há algo contraditório entre nós cristãos: somos seguidores de um transgressor e, no entanto, nos acovardamos escondidos atrás de leis, doutrinas e ritos que alimentam uma cultura de indiferença frente à realidade que nos cerca. Precisamos ativar a atitude evangélica da denúncia nesta sociedade perplexa que somos, neste tempo incerto que vivemos e neste planeta ameaçado que habitamos.

Trata-se de deixar ressoar o clamor dos(as) “descartados”, e de tantas pessoas e grupos excluídos do direito ao pão, ao trabalho, à terra, ao teto, à justiça... Deixa ecoar o grito da terra frente a tanta destruição; deixa fluir o grito de tantas vítimas da violência institucionalizada. 

Há um clamor uníssono tão forte capaz de atravessar os céus, ultrapassar as nuvens e não deixar de ser escutado. No fundo, é o próprio Deus que grita nos seus filhos e filhas; escutar o grito dos últimos e dos excluídos é escutar a voz do próprio Deus que “derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes”.

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