34º DTC: REALEZA DES-CENTRADA... (cf. Pe. A. Palaoro SJ)

Ainda hoje estarás comigo no Paraíso... (Lc 23,43)

Celebramos neste domingo a festa de “Cristo Rei”, cume do Ano Litúrgico. Alguns se sentem incomodados com essa imagem `real´; não suportam a imagem de um monarca governando a partir de cima. Quando o Papa Pio XI (1925) proclamou esta festa, havia um interesse nada evangélico: a Igreja estava perdendo seu poder e seu prestígio, acossada pela modernidade, e então nada melhor do que instituir a festa de “Cristo Rei”, para recuperar o prestígio perdido. 

Jesus desencadeou um movimento de Reino, sem tomada de poder, sem palácios e riquezas, sem cetro de comando, sem instituições militares, sem meios de imposição econômica, sem títulos de nobreza. Mas sua visão de Reino não foi acolhida, pois foi rejeitado pelos sacerdotes do Templo e os representantes do poder romano. 

É chamativo este rei ser crucificado entre dois “malfeitores”. Algo havia em Jesus que permitia interpretá-lo como um perigo para o poder imperial. Um poeta que cantava a beleza dos lírios do campo ou dos pássaros do céu não devia terminar sua vida dessa maneira.

A piedade cristã procurou cobrir Jesus de Nazaré com títulos de glória tão pomposos que quase o sepultou de novo. Ao elevar o carpinteiro da Galiléia até a mais alta dignidade, ao coroá-lo rei dos reis e senhor dos senhores quase conseguiram silenciar por completo o Jesus dos pobres, das multidões famintas, dos marginalizados e rodeado de “más companhias e de pecadores”. 

Enfim, acabamos por esquecer o que é nuclear em nossa fé cristã: em Jesus, Deus se faz homem pobre; nasce em um estábulo e morre desnudo numa cruz, suplício dos mais pobres daquela sociedade. 

A narrativa lucana deste domingo é muito provocativa: o único que reconhece Jesus como rei é um condenado à morte, um marginalizado da lei. Este está mais perto do reinado de Deus que as autoridades religiosas. Por isso, Jesus o acolhe como companheiro inseparável. Juntos morrerão crucificados e juntos entrarão no Reino de Vida: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reinado”.

Não se trata de um discípulo ou seguidor de Jesus. Lucas nos apresenta um malfeitor como admirável exemplo de fé no Crucificado, e que no último instante de sua vida “roubou” o Paraíso do Senhor. 

Desse modo, o evangelista parece estar nos dizendo: “Essa Palavra é válida também para ti, hoje, desde que sejas capaz de abrir-te a ela e acolhê-la. Também para ti há uma promessa de vida, que não se acaba na fronteira da morte. Tu também ‘hoje estarás comigo no paraíso’”

A festa de “Cristo Rei” nos convida também a tomar a Cruz da fidelidade e do serviço solidário, e “descer” com Jesus até à cruz da humanidade.

A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica, nos fazem descer aos porões das violências sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados pelo preconceito e intolerância...

Que a festa de Cristo rei seja uma ocasião privilegiada que nos ajude a segui-Lo mais de perto, comprometendo-nos com seu modo de ser e de viver. 

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