6º DTP: CINZELAR PALAVRAS DE VIDA ATRAVÉS DA CONVERSA... (cf. P. A. Palaoro SJ)

O Espírito da Verdade... vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e está em vós... (Jo 15,17)

O Evangelho deste domingo faz parte de uma longa conversa de Jesus com os seus amigos, durante a Última Ceia, e que João recolhe nos capítulos 13 a 17. Conversa amiga, que ficou na memória do discípulo amado. 

Nesta interação Jesus-discípulos, tanto os conteúdos expressos como os aspectos relacionais ganham grande importância: as palavras, os gestos, o olhar, a maneira de falar, o tom da voz, os silêncios, o contexto onde acontece a conversação...; tudo isso forma parte da diversidade e riqueza da revelação de Jesus aos seus mais íntimos. Jesus extrai palavras significativas, previamente cinzeladas e incorporadas no seu interior, onde elas revelam o dinamismo de uma vida interior fecunda. É um verdadeiro “testamento espiritual”.

Há conversa e conversas. Conversas superficiais e conversas profundas que ficam gravadas no coração e na memória. 

Conversar constitui uma das experiências humanas mais antigas e configuradoras de nosso ser. Conversar é uma das aprendizagens vitais que não tem data de vencimento e que requer uma capacidade de escuta acolhimento. É reconhecer no outro o que há de verdadeiro, bom e belo e descobrir como o dinamismo de Deus atua no coração dele

conversação é uma experiência profundamente humana de proximidade, de conhecimento, de inter-câmbio, de ternura..., um encontro entre pessoas que vão compartilhando histórias de vida, esperanças e frustrações, vontade de construir e sonhar... Na conversação, o que importa é a pessoa do outro e não os problemas que apresenta...; ela é o lugar privilegiado de encontro e descoberta misteriosa do Outro (Deus). 

“Conversar” e “converter”, etimologicamente, vem da mesma raiz. Conversar é “converter-se” ao mistério do outro. A conversação reforça laços e cria comunidade de “amigos”. Mesmo “isolados socialmente” devido à pandemia, a conversação nos liberta da solidão e do fechamento, fazendo-nos crescer na transparência. As inúmeras possibilidades de conversar são encontros que nos reconciliam com a vida, nos movem a crescer e a sair de nosso isolamento. 

Encontrar-nos com os outros é uma experiência que requer tempo, espaço e ritmo. Nossa natureza relacional continuamente nos oferece oportunidades para conversar; depende de nós fazê-las banais ou convertê-las em experiência de vida.

O protagonista principal da conversação é o Espírito, que gera em nosso interior palavras de vida e criatividade. Numa conversação profunda deixamos transparecer nossa verdadeira identidade, nossa verdade original. Mas é o Espírito, que nos habita, Aquele que cava em nós palavras de vida

Quando Ele encontra liberdade para atuar em nós, faz brotar das entranhas das palavras sua riqueza escondida. Por isso, Ele é o “Espírito da Verdade”: não a verdade racional, dogmática, doutrinária...
Ele é a “verdade íntima” que nos diz que, no mais profundo de nós mesmos, não só pulsa um coração, mas também um Deus que inspira em todos nós uma maneira original de ser mais humano. Ele é a “verdade autêntica”: somos filhos(as), irmãos(ãs) e somos chamados(as) a viver como tais.

Mais ainda: o “Espírito da verdade” nos convida a viver na verdade de Jesus em meio a uma sociedade onde a mentira é estratégia e a manipulação é um bom negócio. É decisivo redescobrir a presença do Espírito de Deus que, dentro de cada um de nós, provoca movimentos, ativa as brasas escondidas no coração, nos faz fortes, alegres e sábios. Devemos acolhê-lo com coração simples e confiado, abrindo espaço para que Ele atue com liberdade, inspirando-nos e fazendo-nos mais criativos. É Ele que dá sabor e sentido à nossa existência e nos enraíza no modo de ser e de viver de Jesus. 

Este Espírito de Vida subsiste em tudo e em todos, embora muitas vezes nos tornemos traidores do Seu sopro com nossos exclusivismos, condenações e rejeição do pluralismo fomentado pelo mesmo Espírito.

Nenhuma espiritualidade e nenhuma igreja tem o monopólio do Espírito de Cristo, que sopra onde quer, como e quando quer, sem que o controlemos; para o Sopro, não há barreiras e nem fronteiras.

Todos e todas estamos em caminho, envolvidos no dinamismo contínuo desse Espírito Pascal.

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