Da distração à dedicação... (cf. Adolfo Nicolás SJ)


Durante algum tempo, os religiosos temos nos perguntado a respeito de nossa vida na Igreja, e o poder e a atração de nosso testemunho, pois não é necessária uma visão extraordinária para dar-se conta de que o que chamamos “vida religiosa” perdeu algo de seu impacto na Igreja. Claro, isto não é universal. Alguns grupos têm mantido e, inclusive, aumentado sua credibilidade pela autenticidade de sua vida, seu serviço aos pobres ou a profundidade de sua oração. O que perdemos? Onde nos equivocamos? Estamos sem rumo?
Estive relendo alguns dos. Os encontrei mais refrescantes para o coração. É como voltar para casa, de novo, às origens, ao primeiro amor, quando pensei pela primeira vez que havia algo pelo qual valia a pena dar toda minha vida. Perguntei-me o que é que estava tão presente nos clássicos da vida religiosa (Inácio de Loyola, Francisco Xavier, João da Cruz, Teresa D’Ávila...) e que parece que perdemos? Creio que é seu centramento total. Eles foram surpreendidos pelo Espírito e permaneceram totalmente centrados em Cristo, reconstruindo suas vidas em torno deste centro. Tornaram-se luminosos para gerações de pessoas. Estes homens e mulheres estavam totalmente centrados. Nós, pelo contrário, parecemos estar imensamente “distraídos”.

1. Do «distrair-se na oração» para o «distrair-se na vida». As distrações no tempo de oração foram preocupação nos primeiros anos de minha vida religiosa. Levei alguns anos de lutas para dar-me conta de que minha verdadeira distração estava em minha vida, não em minha oração. Estava distraído em quase todas as áreas da vida, o trabalho ou o estudo. Não é de estranhar que minha oração tenha sofrido o mesmo mal-estar. Como centrar-me na oração quando minha mente e meu coração estavam distraídos com tantas coisas.
Se estávamos distraídos era porque as distrações nos rodeavam. O idealismo da sua juventude terminou convertendo-se em interesses sociais, étnicos ou culturais. E estas são uma grande distração que nunca vi nos “clássicos” religiosos.
Outra distração é a identificação emocional com grupos que sofrem algum tipo de opressão ou injustiça. Devido a que as pessoas consagradas têm, geralmente, bom coração, são propensas a essa distração.
As pessoas religiosas que querem representar o Evangelho tendem a ser débeis diante das ideologias e do pensamento ideológico. Projetamos, facilmente, a verdade total sobre qualquer compromisso ao qual nos sentimos chamados, e nos tornamos cegos aos matizes, às ambiguidades e, inclusive, às contradições. Durante um bom número de anos estivemos divididos em nossas congregações religiosas entre os do setor social e os da educação; entre os que servem aos pobres e os que servem à elite. Nem sempre entendemos que uma opção preferencial pelos pobres era uma opção de amor, e não se pode “exigir” aos demais, porque tem que vir do coração

2. O perfeccionismo como distração narcisista. O “perfeccionismo” é uma velha distração, mortal para a vida religiosa. São Paulo o chamou de “farisaísmo”.
A psicologia presta muita atenção ao fenômeno da especial preocupação por si mesmopela própria imagem. Distraídos pelo impulso para a perfeição.
A distração perfeccionista é muito sutil nos religiosos, e se traduz como competiçãonecessidade compulsivade estar em dia com a tecnologia, etc... 
3. O ego como distração número um. A distração maior e central é o “eu”. Nosso ego nunca descansa e sempre chamará a atenção para si mesmo. O ego é a maior fonte de distrações ao longo de nossa caminhada pela vida. Centrar-se no eu incompreendido e ferido acaba sendo uma distração gigantesca.
A “distração da popularidade” tem origem na mudança do lugar e o processo de nossa tomada de decisões do processo de discernimento. Também acontece quando nossos horizontes humanos e espirituais se reduzem, e nos apegamos a nossas próprias opiniões. Quando Santo Inácio oferece às pessoas que terminam os Exercícios Espirituais algumas regras para ter os sentimentos e atitudes corretas na Igreja, está querendo ajudá-las a libertar-se desta distração de horizontes estreitos, abertura para algo maior que umas poucas ideias, mesmo sendo as minhas.
A importância desta liberdade se torna evidente se, no lugar das opiniões pessoais, falamos de ideologias e opções ideológicas. 
A distração do ego é mais poderosa quando a comunidade se dilui e desaparece. Aqui encontramos o verdadeiro significado da obediência. Mas, isto é muito difícil, particularmente para os mais inteligentes ou dedicados a uma causa importante. Podemos converter-nos em profetas fora da comunidade, até que as pessoas com autoridades queiram silenciar-nos. Não há má vontade deliberada. Há muitos bons desejos, muita visão, grande determinação para marcar diferença… mas, não obstante, estamos distraídos.

3. Distrações dos meios e do mercado: equipamentos, internet… Estas distrações são as mais comuns e as mais fáceis de detectar. Precisamos destes meios e alguns dos equipamentos. Mas, por que sentimos que somos inferiores se não estamos atualizados neles? Por que é tão importante ser parte da equipe?
Permitimos que os meios definam uma nova ortodoxia, um novo cânon de “verdade”, que já não é a verdade, mas uma opinião pública intencionalmente construída e acrítica. Queremos informação ou compreensão? Velocidade ou profundidade? Centrar-se em Cristo ou navegar pela web? 

4. Distrações da superficialidade: a favor ou contra os costumes, hábitos, tradições, rituais, devoções, posições, teorias... Estas são distrações que afetam, particularmente, aos jesuítas, dada nossa longa formação intelectual. Nos afetam quando nosso crescimento intelectual não culmina em oração, adoração, ministério. São particularmente inquietantes porque acontecem dentro da Igreja e dentro de sua vida de fé. Nos inclinamos a pensar que o que não se encaixa com minhas teorias não tem sentido. Somos bastante tolerantes com os disparates. Santo Inácio agiu contra esta tendência com suas regras para sentir com a Igreja. Não se preocupava com o que tinha sentido para ele, mas o que tinha sentido para as pessoas, pessoas simples de seu tempo. Inácio nos diz que louvemos tudo o que ajuda às pessoas em sua devoção. Suas regras têm um forte senso e enfoque pastoral. Inácio nos diz que não nos distraiamos conosco mesmos, com nossas ideias, nossos gostos e desgostos, nossas opiniões e teologias, mas que consideremos às pessoas caminhando e vivendo na presença de Deus. 

5. Os grandes jesuítas me parecem homens inteiros, dedicados, consistentes e não distraídos. Estamos muito orgulhosos de nossa história e dos grandes homens que a compõem. Pessoas que deram tudo e permaneceram bem orientados para o objetivo final de sua autodoação: Deus e o serviço de seu Reino. Recordemos alguns nomes:
  • Os fundadores: Inácio, Xavier, Fabro…
  • Os criadores: Anchieta, Vieira, Castiglione, Pozzo…
  • Os pioneiros: Ricci, De Nobili, Brebeuf, Teilhard, Arrupe…
  • Os místicos: Inácio, Xavier, Colombière, Teilhard…
O Senhor continua chamando a amigos para que sigam a seu Filho. A tarefa continua sendo tão imensa e desafiante como sempre. O plano de Deus sempre foi um plano para o universo e não só para a família humana. A presença de Deus em toda a criação está redefinindo nossa missão com os ecos do Gênesis e de Paulo. Escutamos a Inácio recordando-nos que aqueles, quem queiram distinguir-se no serviço de tal Senhor, ofereçam toda sua vida ao trabalho…
Que todos respondamos de novo ao chamamento incessante de Nosso Senhor Jesus pelo bem da Igreja, da humanidade e do universo.
Adolfo Nicolás, SJ

NB. O Pe. A. Nicolás (1936-2020) foi superior geral dos jesuítas (2008 a 2016).


3 comentários:

  1. Olvida-se de si mesmo para defender a vida das outras pessoas. "Não nos distraiamos com nós mesmos" SI

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  2. Muito boa reflexão. Tem um livro chamado "Libertanto Identidades: O fim do Entretenimento" recomendo a todos que desejam se aprofundar ainda mais nesse assunto das distrações e dos prejuízos mentais, emocionais, e por que nao dizer, espirituais também.

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  3. Enquanto isso, muitos padres e bispos se distraem da realidade gastando seu tempo com politicagem barata, torcendo por alguns políticos e odiando a outros.
    E o Reino de Deus, cada vez mais longe do coração... (C. Amorim)

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