10. O DISCURSO DO INIMIGO E AS LIÇÕES DO SENHOR... (cf. Pe. Ulpiano V. SJ)



A "ciência das coisas de Deus", em que Inácio foi introduzido e nos introduz, não estaria completa se não nos falássemos sobre o que impede de sermos uma carta de Deus.

Uma carta de Inácio a Tereza Rejadel" nos pode guiar na experiência que o Peregrino (Inácio de Loyola) nos comunica a respeito dos "discursos do inimigo" e das "lições de Deus".
Eis aqui a carta:

A SOROR TERESA RAJADELL
                                        Veneza, 18 de junho de 1536
IHS. A graça e amor de Cristo Nosso Senhor esteja sempre em nosso favor e em nossa ajuda!   
Recebi, nos dias passados, vossa carta e com ela me alegrei muito no Senhor, a quem desejais servir mais, e a quem devemos atribuir todo o bem que aparece nas criaturas.

Dizeis em vossa carta para Cáceres me informar largamente de vossos assuntos. Assim ele o fez, e não só dos vossos assuntos, mas ainda dos meios e pareceres que vos dava para cada um deles. Lendo o que me diz, não acho nada mais para vos escrever, embora preferisse a informação por vossa letra. Ninguém pode dar a entender as aflições próprias quanto a própria pessoa que as padece.

Pedis que, por amor de Deus Nosso Senhor, tome cuidado de vossa alma. Por certo, muitos anos há que sua divina majestade, sem eu o merecer, me dá desejos de comunicar, quanto possa, o maior prazer a todos e a todas que caminham em sua vontade e beneplácito. E também de servir aos que trabalham em seu divino serviço. Não duvido que sejais uma delas e quisera achar-me na situação de vos mostrar por obras o que vos digo de palavra.

Igualmente me pedis que vos escreva por inteiro o que o Senhor me inspire, e claramente exponha meu parecer. O que sinto no Senhor, di-lo-ei claramente, de muito boa vontade. Se algum ponto parecer duro, é mais contra quem vos procura atrapalhar e não contra vossa pessoa. Em dois pontos, o inimigo vos perturba, mas de maneira que não vos faz cair em culpa de pecado, nem no extremo de vos apartar de vosso Deus e Senhor. Todavia, na turbação vos afasta de seu maior serviço e vosso maior repousoO primeiro‚ persuadir-vos e levar-vos a uma falsa humildadeO segundo‚ incutir-vos exagerado temor de Deus, em que vos detendes e ocupais demasiado.

Quanto ao primeiro, a tática geral empregada pelo inimigo com os que querem e começam o serviço de Deus Nosso Senhor, é colocar impedimentos e obstáculos, primeira arma com que procura ferir. Sugere-lhes: como viver toda a vida em tanta penitência, sem o consolo de parentes, amigos, posses, em existência tão solitária, sem um pouco de repouso? Podes-te salvar sem tantos perigos... Dá-nos a entender havermos de viver uma vida mais longa em sofrimentos que antepõe, jamais vividos por homem algum. E não nos dá a entender os regalos e consolações tão grandes que o Senhor costuma dar aos tais, se o novo servidor do Senhor rompe todos estes impedimentos, elegendo querer padecer com seu Criador e Senhor.

Logo emprega o inimigo a segunda arma, a saber, a jactância ou vanglória, dando-lhe a entender que há nele muita bondade ou santidade, pondo-o em lugar mais alto do que merece. Se o servo do Senhor resiste a estas flechas com humilhar-se e abaixar-se, não consentindo ser tal como o inimigo lhe persuade, tira a terceira armaque é a da falsa humildade. Procede assim: ao ver o servo do Senhor tão bom e tão humilde que, fazendo quanto o Senhor manda, ainda se julga todo inútil e olha suas fraquezas e em nada sua glória, põe-lhe no pensamento que, se ele fala de graças recebidas de Deus Nosso Senhor, obras, resoluções e desejos, peca por outra espécie de vanglória, porque fala em favor próprio. Assim procura que não fale dos benefícios do seu Senhor, para que não faça nenhum fruto nos outros, nem em si mesmo: pois a lembrança dos benefícios recebidos sempre ajuda para ações maiores. Entretanto, o falar deles deve ser muito comedido e movido pelo maior de todos, isto é, de si e dos outros, se estiverem preparados para crerem e se aproveitarem.

O inimigo ao ver-nos humildes, procura levar-nos a uma falsa humildade, a saber, a uma extrema e viciada humildade. Disso dão excelente testemunho vossas palavras. Porque, depois de narrar algumas fraquezas e temores bem a propósito, dizeis: Sou uma pobre religiosa, desejosa, parece-me, de servir a Cristo Nosso Senhor. Ainda não ousais dizer simplesmente: Sou desejosa de servir a Cristo Nosso Senhor ou o Senhor me dê desejos de servi-lo. Mas ficais no "parece-me". Se bem considerais, aqueles desejos de servir a Cristo Nosso Senhor não são vossos, mas dados pelo Senhor. Falando assim: O Senhor me dê crescidos desejos de servi-lo, o estais louvando, porque publicais seu dom, e vos gloriais nele, e não em vós: pois não atribuís a vós mesma essa graça.

Portanto, devemos olhar muito o seguinte: se o inimigo nos alça, abaixemo-nos, lembrando nossos pecados e misérias. Se nos abaixa e deprime, levantemo-nos em verdadeira fé e esperança no Senhor, enumerando os benefícios recebidos e pensando com quanto amor e bondade nos espera para salvar-nos, enquanto o inimigo Não se importa de nos falar verdade ou mentira, mas só de nos vencer. Olhai como os mártires, diante dos juízes idólatras, diziam que eram servos de Cristo. Assim vós, posta diante do inimigo de toda natureza humana e por ele tentada, quando vos quer tirar as forças dadas pelo Senhor, e vos quer tornar tão fraca e tão temerosa com insídias e enganos, não ousareis dizer apenas que sois desejosa de servir a Nosso Senhor, mas haveis de dizer e confessar que sois sua servidora e antes morrereis do que vos afasteis do seu serviço.

Se o inimigo me representa justiça, respondo-lhe logo com misericórdia; se misericórdia, logo ao contrário digo justiça. Assim, é necessário que caminhemos para não ser perturbados. Fique assim o enganador enganado e elegemos aquele texto da Sagrada Escritura: Guarda-te, não sejas tão humilde, que humilhado te deixes arrastar à estultície" (Eclo 13, 8).

Vindo ao segundo ponto, se o inimigo pôs em nós temor, com uma sombra de humildade falsa, para não falarmos nem sequer de assuntos bons, santos e proveitosos: depois traz outro temor pior ainda, a saber, de estarmos apartados, separados, longe do Senhor Nosso. Isto se segue, em grande parte, do primeiro temor, quando o inimigo alcança vitória: então acha facilidade para tentar-nos desse modo. Para melhor o declarar, exporei outra tática do inimigo. Se acha uma pessoa de consciência larga, que passa os pecados sem ponderá-los, ele se esforça, quanto pode, para que o pecado venial não seja nada e o mortal seja venial e um enorme pecado mortal pouca coisa. Assim ele vence com o defeito que sente em nós, a saber, o da consciência demasiadamente larga.

Se acha outra pessoa de consciência delicada, que como tal não comete falta e afasta de si os pecados mortais e veniais possíveis, pois nem todos é possível evitá-los, e que ainda procura lançar de si toda parecença de pecados mínimos, imperfeições e defeitos, então o inimigo se esforça por tornar exagerada essa consciência tão boa, imaginando pecado onde não há, defeito onde há  perfeição, a fim de nos desbaratar e afligir. Onde não pode induzir a pecar nem espera alcançá-lo, procura pelo menos atormentar (EE 349).

Para melhor explicar, em parte e brevemente, como se causa o temor, exporei duas lições que o Senhor costuma dar ou permitir. Pois de uma e permite outra. A que dá a consolação interior, que afasta toda a perturbação e atrai a todo amor do Senhor: a estes ilumina em tal consolação, àqueles revela muitos segredos e mais do que isso. Finalmente, com esta consolação divina, todos os sofrimentos são prazer e todas as fadigas são descanso. A quem caminha com este fervor, calor e consolação interior, as maiores cargas lhe parecem leves; penitências e outros trabalhos lhe são doces. Esta nos mostra e abre o caminho do que devemos seguir, e do contrário, que devemos fugir; Não está sempre em nosso poder, mas nos acompanha em certos tempos, segundo a ordenação divina. Tudo para nosso proveito: pois, ficando sem esta consolação, logo vem a outra lição.

Nosso antigo inimigo, trazendo-nos todos os impedimentos possíveis para desviar-nos do bem começado, tanto nos atormenta contra a primeira lição, que muitas vezes nos mete tristeza, sem sabermos nós mesmos porque estamos tristes. Então não podemos orar ou contemplar com alguma devoção, nem ainda falar nem ouvir coisas de Deus Nosso Senhor com sabor ou gosto interior algum. E não é só isto. Se nos acha fracos e muito humilhados por esses pensamentos deprimentes, nos sobrepõe outros, como se de todo fôssemos esquecidos por Deus Nosso Senhor e cheguemos a pensar que de todo estamos apartados de Nosso Senhor. Então, quanto fizemos ou queríamos, nada vale. Procura assim, sugerir-nos desconfiança de tudo: assim se causa nosso grande temor e fraqueza, olhando demasiadamente, nesse tempo, nossas misérias e humilhando-nos muito com seus falazes pensamentos.

Por isso, é necessário a quem combate, olhar: se é consolação, devemos abaixar-nos, humilhar-nos e pensar que logo vir a prova da tentação. Se vem desolação, obscuridade e tristeza, devemos ir contra elas, sem ressentimento algum, e esperar com paciência a consolação do Senhor, a qual expulsar todas as perturbações e trevas de fora.

Agora resta falar o que sentimos, lendo a respeito de Deus Nosso Senhor, como o temos de entender; e entendido, como o temos de aproveitar. Acontece que muitas vezes o Senhor nos move a força, abrindo nossa alma a isto ou aquilo. Então fala dentro dela sem ruído algum de vozes, erguendo-a toda a seu divino amor e nos abre a seu sentido, sem podermos resistir, ainda que o quiséssemos. O sentido seu, que apreendemos, está necessariamente em conformidade com os mandamentos, preceitos da Igreja e obediência a nossos Superiores, e cheio de toda a humildade, porque o mesmo espírito divino está em tudo. Onde bastantes vezes nos podemos enganar, depois de tal consolação ou inspiração. Como a alma fica cheia de gozo, aproxima-se o inimigo, todo envolto de alegria e boa cor, para fazer-nos aumentar o que sentimos de Deus Nosso Senhor e assim desordenar e desconcertar tudo.

Outras vezes nos diminui a lição recebida, pondo-nos embaraços e impedimentos, para não cumprirmos inteiramente o que nos foi mostrado. É preciso mais advertência que em tudo mais, refreando muitas vezes a grande vontade de falar das coisas de Deus Nosso Senhor; outras, falando mais do que pedem a vontade e o movimento que nos acompanham: pois nisto é necessário olhar mais a situação dos outros do que os meus desejos. Quando o inimigo nos leva a aumentar ou diminuir o bom sentido recebido, nós, de nossa parte vamos tentando aproveitar aos outros, como quem passa um vau: se acha bom passo ou caminho ou esperança de que se seguir algum proveito, passar adiante! Se o vau está turvo e se escandalizam das boas palavras, reter as rédeas sempre, buscando tempo ou ocasião mais propícia para falar.

Atingimos matérias que não se podem descrever bem, se não por longo processo, e mesmo assim com risco de se omitirem partes que melhor se deixam sentir do que declarar, quanto mais por letra. Se ao Senhor Nosso assim apraz, espero que em breve nos veremos lá, onde nos poderemos entender mais interiormente em alguns assuntos. Entretanto tendes aí mais perto o doutor Castro: creio seria bem vos corresponderdes com ele. Donde nenhum dano pode vir, algum proveito pode seguir.

E, pois, me dizeis vos escreva o que sentir no Senhor, digo sereis bem-aventurada, se souberdes guardar o que tendes. Termino rogando à Santíssima Trindade, por sua infinita e suma bondade, nos dê completa graça para que sintamos e inteiramente cumpramos sua santíssima vontade.

De Veneza, a 18 de junho de 1536.
Pobre de bondade,
                        Ínhigo.

Soror Tereza Rajadell era religiosa no mosteiro de Santa Clara, de Barcelona, fundado no século XIII. Nesse tempo, Inácio, ainda estudante de Teologia, dava os Exercícios Espirituais a personalidades importantes como a Pedro Contarini, Procurador do Hospital dos Incuráveis e futuro bispo de Verona, e outros.
            
Começa, Inácio, aprovando as decisões de Cáceres, por meio de quem Tereza lhe envia informações sobre assuntos pessoais e lhe manifesta suas aflições espirituais. Em seguida, acedendo a seu desejo, expõe-lhe normas espirituais para conhecer e discernir os pensamentos e movimentos da alma: quais os inspirados por Deus, quais os sugeridos pelo mau espírito, e dá regras para escapar de seus ardis e estratagemas. 

Após a sua "primeira lição", em que descobre Deus como seu "Mestre-escola", como quem tem experiência das "coisas do espírito", Inácio busca passar a outros essa lição, acreditando que "as marcas" de Deus podem ser lidas através da experiência de outra pessoa. Mostra-se aqui, desejoso de que outros aproveitem na vida espiritual: Muitos anos há que sua divina Majestade me da desejos de comunicar quanto possa, o maior prazer a todos os que caminham em sua vontade e beneplácito.

Novamente aparece aqui, a importância que ele dá ao LER e ESCREVER, como também a verdade da comunicação humana: ninguém pode dar a entender tão bem as aflições próprias, quanto a própria pessoa que as padece.

Hoje temos a tendência de reduzir as funções do orientador espiritual comparando-o, muitas vezes, com o confessor ou com o psicólogo terapeuta: aquele que procura qual o pecado, a doença, o trauma... A função do orientador espiritual, em vez, é bem mais abrangente: está aí em nome de Cristo, para consolar a pessoa(papel consolador de Cristo ressuscitado), animando-a no seu seguimento e serviço. Essa espécie de inocência e bondade a toda prova é um desafio para o orientador: Não querer, logo de antemão, colocar etiquetas: "...me pedis que vos escreva por inteiro o que o Senhor me inspire, e claramente exponha meu parecer. O que sinto no Senhor, di-lo-ei de boa vontade".

"...exponha o meu parecer...", isto é, ouvir e dizer o que o Senhor lhe diz. A orientação espiritual torna-se, então, uma espécie de profetismo a dois, onde quem fala inspira o outro que, inspirado, o diz ao outro, e assim por diante. Não é como um gravador que capta mas não sente o que captou; ao contrário, ele deve sentir, experimentar moções a partir do que o outro está falando. Supõe-se que o Senhor está no meio, inspirando a um e outro. 

Essa bondade, inocência e função consoladora do orientador não impedem que se digam coisas "duras", não propriamente contra a pessoa, mas contra o inimigo, tal como faz Inácio a Tereza Rajadell, alertando-a contra a ação do inimigo que quer: 1º levá-la a falsa humildade2º levá-la a um excessivo temor de Deus que paralisa: "Se algum ponto parecer duro, será mais contra quem vos procura atrapalhar e não contra a vossa pessoa...".

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