11. Os discursos do inimigo da natureza humana...



O temor é a tática que geralmente emprega o inimigo com aqueles que iniciam ou querem iniciar no serviço de Deus, no intuito de arrasar logo de saída.  Os "discursos" são pois, o conteúdo do inimigo, que Inácio chama de "armas", que acabam obstaculando a pessoa e desviando-a do "curso", do caminho do Senhor. São três:

a) 1ª arma: "... dá a entender mais do que está dito com palavras. Sugere-lhe: 'Como viverás toda a vida em tanta penitência, sem o consolo de parentes, amigos, posses..." O discurso do inimigo aqui, é acentuar o sofrimento, o lado duro da vida, as renúncias... "dando a entender", isto é, levando-a a entender mais do que diria, acrescentando a dificuldade da situação, como se não contássemos com a ajuda de Deus mesmo, que costuma ser pródigo em consolações, sobretudo no início de uma vida espiritual.
            
O remédio contra esta arma, segundo Inácio é, diante da dificuldade que se apresenta maior do que objetivamente é, olhar a Jesus Cristo na sua paixão: "querer padecer com seu Criador e Senhor"; ler a própria vida, tendo como pano de fundo a revelação de Jesus cristo, ou seja, projetar a dificuldade no Evangelho para que o Evangelho seja projetado na própria vida.

b) 2ª arma: "Logo emprega o inimigo a 2ª arma, a saber, a jactância ou a vanglória, dando-lhe a entender que há nela muita bondade ou santidade, pondo-a em lugar mais alto que merece". "Logo...": no caso de Tereza Rajadell; nem sempre será assim. Significa que o inimigo recorre geralmente a essa arma quando vê que a pessoa reage com generosidade a seus ardis.
É importante perceber aqui, a força da expressão de Inácio: "dando-lhe a entender...": novamente, não se trata da verdade, mas do que diz e o que sugere.

"...pondo-a em lugar mais alto que merece...": a pessoa começa a olhar os outros de cima para baixo; começa a preferir-se aos demais, tornando-se o "centro" e, Consequentemente, incapaz de amar e servir a Deus.

Inácio aconselha, neste caso, a humildade como remédio reativo à ação sutil do inimigo: "... se o servo do Senhor resiste a estas flechas com humilhar-se e abaixar-se...". Significa ver-se à luz da verdade própria e da Verdade que é Deus, referindo-lhe todo o bem que há em nós.

c) 3ª arma: "tira então, o inimigo, a 3ª arma que é a falsa humildade. Procede assim: ao ver o servo do Senhor tão bom e tão humilde, que fazendo quanto o Senhor manda, ainda se julga todo inútil e olha suas fraquezas e em nada sua glória, põe-lhe no pensamento que, se ele fala de graças recebidas de Deus Nosso Senhor, obras, resoluções e desejos, peca por outra espécie de vanglória, porque fala em favor próprio..."

No caso de Tereza Rejadell, lhe diz Inácio: "...disto dão testemunho suas próprias palavras: 'sou uma pobre religiosa, desejosa, parece-me, de servir a Cristo Nosso Senhor..." Está aí a falsa humildade que paralisa no serviço de Deus Nosso Senhor: falsa humildade que é falta de fé na graça de Nosso Senhor e falta de apreço na graça de Deus, como quando vendemos produtos nos quais não acreditamos.

Neste caso, Inácio propõe reação contrária àquela sugerida pelo inimigo, ou seja: "... se o inimigo nos alça, abaixemo-nos, lembrando nossos pecados e misérias. Se nos abaixa e deprime, levantemo-nos em verdadeira fé e esperança no Senhor..."

2. O outro "dis-curso" - temor pior:

"Se o inimigo pôs em nós temor, com uma sombra de humildade falsa, para não falarmos nem sequer de assuntos bons, santos e proveitosos, depois traz outro temor pior ainda, a saber, de estarmos apartados, separados, longe do Senhor nosso..." Quando o inimigo alcança vitória no primeiro caso, com facilidade tenta-nos deste segundo modo, com táticas ainda mais sutis. Este outro discurso quer ter como resultado final o efetivo afastamento de Deus.

Inácio vê aí uma lógica: as situações se entrelaçam. São duas situações de pessoas: a) pessoa de consciência larga: "se acha uma pessoa de consciência larga, que passa os pecados sem ponderá-los, ele se esforça quanto pode para que o pecado venial não seja nada, e o mortal seja venial, e um enorme pecado mortal, pouca coisa..."

b) pessoa de consciência estreita (delicada): "...que como tal não comete falta e afasta de si os pecados mortais e veniais possíveis, pois nem todos é possível evitá-los... então o inimigo se esforça por tornar exagerada essa consciência tão boa, imaginando pecado onde não há, defeito onde há imperfeição, a fim de nos desbaratar e afligir. Onde não pode induzir a pecar nem espera alcançá-lo, procura pelo menos atormentar-nos".

Sendo do inimigo o discurso, o máximo que Inácio pode fazer é descrever uma lógica nas tentações; mas o sentido desse discurso não pode estar nele mesmo: só a partir de uma situação de consolação se pode entender tal discurso como uma tentação do inimigo. Uma pessoa que somente fosse tentada pelo inimigo, sem experimentar consolação alguma, nunca poderia perceber que a trajetória seria dada por ele.

O Senhor vem, portanto, em nossa ajuda, e a partir de suas lições podemos inverter a situação causada pelo inimigo.

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