Moções e artifícios...


Na vida daquele que segue evangelicamente o Senhor "progredindo de bem para melhor" acontecem não só paixões ou tentações, mas sobretudo "artifícios". Estes são mais perigosos que os anteriores pela situação existencial do sujeito (decididamente no seguimento de Jesus) e pelo ofuscamento do objeto apresentado (confusão mental). 
            
As paixões e tentações atacam a pessoa de modo declarado buscando, em geral, satisfazer grosseiramente o mundo dos sentidos. Os artifícios, pelo contrário, apresentam-se de modo encoberto e dão-se no nível da razão. É o engano e a corrupção do valor, da proposta e do sentido da vida. A pessoa, seguindo o artifício, esquece o objetivo evangélico almejado, e desvia-se para um outro alvo, ilusório e pseudo evangélico. A confusão e a desolação experimentada por aquele que segue o artifício é o sinal indicativo do desencaminhamento acontecido!

É preciso descobrir as sutilezas dos artifícios e o falso ordenamento que eles propõem. Todo artifício apresenta-se como um bem que esconde o mal ou no dizer de Santo Inácio: "anjo mau disfarçado em anjo de luz" (EE 332). O sujeito que segue o artifício busca, em vão, razões e explicações aparentes que possam justificar sua escolha errada que não convencem os outros, e muito menos a ele próprio. O artifício é como lobo mau travestido de inocente e simples ovelha. Ai daquele que cair "na sua intenção depravada" (EE 334) ou nos seus "enganos secretos e perversas intenções" (EE 332).

Como detectar os artifícios e evitá-los? Os artifícios, como as tentações, pertencem ao mundo das moções. Uma primeira e boa postura é ter um espírito crítico, desconfiar de todo pensamento e imagem exageradamente grande e que induz a ações ambíguas e pouco evangélicas. Como sempre, é preciso não esquecer a finalidade para a qual fomos criados: "para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor" (EE 23) segundo S. Inácio. Relacionar-se com Deus como filhos e com os outros como irmãos.  Mas, como ter os outros como irmãos se não temos Deus como pai?

Temos um comentário magnífico nos Exercícios Espirituais que ajuda a descobrir a sutileza do artifício: "Devemos atender muito ao decurso dos pensamentos. Se o princípio, meio e fim são todos bons, inclinados inteiramente para o bem, é sinal do bom anjo. Mas se o decurso dos pensamentos sugeridos termina em alguma coisa má ou que distrai ou que é menos boa do que a que a alma se propusera anteriormente fazer, ou enfraquece ou inquietaou conturba a alma, tirando-lhe a paz, tranquilidade e quietude que antes possuía, então é sinal claro de que provém do mau espírito, inimigo do nosso proveito e salvação eterna" (EE 333).         

Manter-se sempre em comunhão com a Igreja e a própria comunidade é outro critério seguro, desmascarador de todo possível artifício. É próprio do mal espírito dividir e separar; e de Deus, o unir e perdoar. Nenhuma razão justifica qualquer divisão.

Quem segue os artifícios sentirá o gosto amargo da desolação, bem diferente da paz e tranquilidade da consolação. Deixar-se conduzir pelo Espírito é o modo sensato de dar sentido à própria vida.

Todos nos definimos nas nossas ações e decisões. As escolhas dependem fundamentalmente das paixões (tentações, artifícios) ou das moções do Espírito de Deus. As opções que fazemos mostram o caminho que trilhamos e os valores que carregamos. Decidir bem é, pois, fundamental. Que eu saiba, só as crianças não elegem, pois outros o fazem por elas. 

A espiritualidade inaciana é uma mística de serviço, baseada no discernimento das moções para melhor servir. Não é qualquer serviço mas o maior e melhor que se possa fazer e prestar.
Penso que sobre a face da terra existem fundamentalmente dois tipos de pessoas: aquelas que se deixam conduzir por Deus e as que são arrastadas pelas suas próprias paixões, tentações ou artifícios. 

Somos importantes e significativos, amados sempre por Deus nosso Pai.



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