7. PAIXÃO E MORTE: CORAÇÃO ABERTO AO MUNDO


É nosso dever respeitar o direito que tem todo o ser humano de encontrar um lugar onde possa não apenas satisfazer as necessidades básicas dele e da sua família, mas também realizar-se plenamente como pessoa. Os esforços a favor das pessoas migrantes resumem-se em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. 

 

Para aqueles que chegaram há bastante tempo e já fazem parte do tecido social, é importante aplicar o conceito de cidadania, que «se baseia na igualdade dos direitos e dos deveres e renunciar ao uso discriminatório do termo minorias.

 

As várias culturas, cuja riqueza se foi criando ao longo dos séculos, devem ser salvaguardadas para que o mundo não fique mais pobre

 

A cultura dos latinos é um fermento de valores e possibilidades que pode fazer muito bem aos Estados Unidos. Uma intensa imigração acaba sempre por marcar e transformar a cultura dum lugar. Os imigrantes são uma bênção, uma riqueza e um novo dom, que convida a sociedade a crescer.

 

O relacionamento entre Ocidente e Oriente é uma necessidade mútua indiscutível, que não pode ser transcurada, para que ambos se possam enriquecer mutuamente com a civilização do outro através da troca e do diálogo das culturas. O Ocidente poderia encontrar no Oriente remédios para algumas das suas doenças espirituais e religiosas causadas pelo domínio do materialismo. E o Oriente poderia encontrar na civilização do Ocidente tantos elementos que o podem ajudar a salvar-se da fragilidade, da divisão, do conflito e do declínio científico, técnico e cultural. A ajuda mútua entre países acaba por beneficiar a todos. Hoje ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém

 

Vivemos num mundo interconectado pela globalizaçãoNão quero limitar esta abordagem a qualquer forma de utilitarismo. Existe a gratuidade, a capacidade de fazer algumas coisas, pelo simples facto de serem boas, sem olhar a êxitos nem esperar receber imediatamente algo em troca. 

 

Quem não vive a gratuidade fraterna, transforma a sua existência num comércio cheio de ansiedade. Deus dá de graça, chegando ao ponto de ajudar mesmo os que não são fiéis e «fazer com que o Sol se levante sobre os bons e os maus». Por isso, Jesus recomenda: «Quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita, a fim de que a tua esmola permaneça em segredo...». Recebemos a vida de graça; não pagamos por ela. De igual modo, todos podemos dar sem esperar recompensa, fazer o bem sem pretender outro tanto da pessoa que ajudamos. É aquilo que Jesus dizia aos seus discípulos: «Recebestes de graça, dai de graça». 

 

A verdadeira qualidade dos diferentes países do mundo mede-se por esta capacidade de pensar não só como país, mas também como família humana. Os nacionalismos fechados manifestam, em última análise, esta incapacidade de gratuidade, a errada persuasão de que podem desenvolver-se à margem da ruína dos outros e que, fechando-se aos demais, estarão mais protegidos. O migrante é visto como um usurpador, que nada oferece. Assim, chega-se a pensar ingenuamente que os pobres são perigosos ou inúteis; e os poderosos, generosos benfeitores. Só poderá ter futuro uma cultura sociopolítica que inclua o acolhimento gratuito.

 

Entre a globalização e a localização se gera uma tensão. É preciso prestar atenção à dimensão global para não cair numa mesquinha quotidianidade. Ao mesmo tempo convém não perder de vista o que é local, que nos faz caminhar com os pés por terra. As duas coisas unidas impedem de cair em algum destes dois extremos: o primeiro, que os cidadãos vivam num universalismo abstrato e globalizante (...); o outro extremo é que se transformem num museu folclórico de eremitas localistas, condenados a repetir sempre as mesmas coisas, incapazes de se deixar interpelar pelo que é diverso e de apreciar a beleza que Deus espalha fora das suas fronteiras». É preciso olhar para o global, que nos resgata da mesquinhez caseiraAo mesmo tempo temos de assumir intimamente o local, pois tem algo que o global não possui: ser fermento, enriquecer, colocar em marcha mecanismos de subsidiariedade. A fraternidade universal e a amizade social são dois polos inseparáveis e ambos essenciais. Separá-los leva a uma deformação e a uma polarização nociva. 

 

A solução não é uma abertura que renuncie ao próprio tesouro. O próprio bem do mundo requer que cada um proteja e ame a sua própria terra; caso contrário, as consequências do desastre dum país repercutir-se-ão em todo o planeta. Isto baseia-se no sentido positivo do direito de propriedade: guardo e cultivo algo que possuo, a fim de que possa ser uma contribuição para o bem de todos.

 

Para orar:

1. Jo 13 (Lava-pés... Deixa que Deus faça sua obra em ti...)

2. Mt 16, 57-67 (Jesus condenado pelo poder religiosoSanedrim, Sumo Sacerdote...); Jo 18, 28-19, 16 (condena do pelo poder político e pagão); Lc 23, 7-12 (poderes do prazer e do dinheiro representados por Herodes); e seus amigos e discípulos (Pedro o nega e os outros fogem: Lc 22, 54-62).

3. Jo 19, 23-27 (perdoa, dá-nos sua Mãe... O Pai silencia diante do mal supremo...)

4. Jo 19, 38-42 (descendimento da Cruz por José de Arimateia e Nicodemos, Maria estava presente... Jesus é colocado no sepulcro... guardas de vigia...)          



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