1º domingo de ADVENTO: sentir o tempo... (cf. Pe. A. Palaoro SJ))

Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento... (Mc 13, 33)


Com o Advento, iniciamos mais um novo “tempo litúrgico”. Podemos representá-los graficamente visualizando um círculo, onde começamos com o Advento, percorremos os “tempos” da vida de Jesus (Natal, Epifania, Reis...), o “tempo comum”, Quaresma, Páscoa e outro tempoco mum que culmina com a festa de Cristo Rei.

 

Também é assim o grande círculo da vida. Tempos para gestar a vida, para trazê-la à luz, para alimentá-la e cuidá-la, “tempos comuns” para descobrir a inspiração do viver cotidiano... Como num espelho, nos vemos no tempo litúrgico, para compreender e inspirar nossa vida a partir de “Jesus” e da “comunidade cristã”.

 

Vivemos hoje tempos conturbados, no entanto, resistimos. Em meio às sombras, perplexidades, contradições, provocações e promessas, que constituem o atual momento histórico, queremos expressar a fé no futuro da vida. Ainda que soframos ventos contrários e as nuvens se adensem no horizonte, sabemos que “há esperança de um futuro”, embora seja válido o alerta: “Viver é muito perigoso” (G. Rosa).

 

A liturgia deste 1ºdomingo de Advento se atreve a proclamar a esperança com uma grande trombeta que não chama para a morte, mas para a vida. A esperança é um princípio vital que nos faz sonhar com o “mais” e o “melhor”. A esperança cristã combate a “atrofia espiritual” dos satisfeitos, e tem os pés plantados no “hoje” da nossa história. Ela introduz na sociedade a sede de justiça e o compromisso de humanização.

 

Ao adentrarmos, mais uma vez, no tempo do Advento, sentimos ressoar, no mais íntimo, a voz do Mestre da Galiléia, que nos convida a estar vigilantes e atentos, e a viver despertos... Precisamos superar o medo que nos paralisa, renovar a esperança no sentido da vida, avançar para uma nova Igreja em saída, mãos de Jesus para curar, consolar e repartir o pão... Tempo para despertar e cuidar da “casa” que foi confiada à nossa responsabilidade. Vigilar é estar atentos. 

 

Precisamos redescobrir a simplicidade, despojando-nos de tudo o que bloqueia nossa visão, e deixar-nos conduzir pelo fluir contemplativo. Com esse olhar contemplativo, podemos deixar-nos impactar pelo novo que se revela do outro lado.

 

O instigante tempo do Advento ativa em nós os desejos mais nobres que nos fazem ultrapassar a barreira do imediato e a entrar em sintonia com Aquele que vem e, ao mesmo tempo, já está presente. Por isso, o evangelho de hoje nos apresenta uma imagem sugestiva, que reúne no desejo duas atitudes importantes: o tempo da espera e o permanecer vigilantes.

 

Nesse novo tempo litúrgico, permanecemos à escuta dos passos de Deus em nosso mundo, em nossa vida. Quem realmente espera o encontro com o Senhor lê a história como uma experiência salvadora, redentora, positiva...

 

Os “esperantes” cristãos precisam aprender a “ressignificar” o tempo, pois o tempo de Deus e do Reino é o da decisão em favor da vida (kairós versus Kronos). O reino tem seu tempo e seu ritmo. Tentar acelerar sua vinda seria como esticar o talo da planta para que cresça mais rápido. O importante é ter a paciência de quem sabe que a semente do Reino foi semeada em nossa história e ninguém poderá deter seu desenvolvimento.

 

Nesta tremenda e instigante história, da qual fazemos parte, precisamos nos situar bem: Trata-se da sabedoria de “sentir o tempo”, pois diante da dramaticidade que vivemos, nossa tentação é querer saltá-lo, fugindo de suas exigências.

 

Presto atenção à história que todos vivemos, às suas dores e à sua beleza? Reconheço seus poderes e a vida misteriosa de Deus iluminando ela, apesar de tudo?

 

Sentir o tempo” de um modo novo, fazer-nos amigos dele, e nomeá-lo de um modo novo. Cada momento esconde sua pérola, e é  emocionante poder chegar a descobri-la. Precisamos recuperar a força do “hoje” de Deus fazendo “memória” dos grandes personagens do passado:  Isaías, Jeremias, Elias, João Batista, Isabel, Maria de Nazaré, José... Eles continuam falando, continuam desvelando sinais de vida plena na história presente. 

 

Só uma sensibilidade marcada pelo tempo do Advento é capaz de entrar em sintonia com as surpresas imensas de Deus.

 

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