Quaresma, tempo para construir pontes... (cf. Pe. James Martin SJ)

 

Eu amo ser jesuíta. Minha vida como padre, meu ministério como escritor e a espiritualidade jesuíta são coisas pelas quais eu nunca poderei agradecer a Deus de uma forma adequada. Mas, a bênção mais surpreendente da vida jesuíta têm sido os meus irmãos jesuítas. Eu não tinha ideia de que a vida religiosa significaria conhecer tantas pessoas que eu considero não apenas amigos, mas também os irmãos mais próximos que eu poderia imaginar.

 

A vida em uma ordem religiosa, entretanto, não é perfeita. No entanto, essa falta de perfeição acabou sendo uma fonte de graça para mim.

 

Há muitos anos, eu morei em uma comunidade jesuíta, onde alguém não gostava de mim. Eu não sou nem um pouco perfeito, então não espero que todos gostem de mim. Mas, ele me desprezava. Por vários anos, ele se recusou a falar comigo, ele costumava sair da mesa de jantar quando eu me sentava para comer, e ocasionalmente murmurava maldições ao passar por mim no corredor.

 

Peço desculpas se isso é desencorajador sobre a vida religiosa, mas ordens religiosas não estão imunes à fragilidade humana, e até mesmo ao pecado. Ao longo dos anos, tentei de tudo para corrigir ou mesmo melhorar essa situação. Esforçava-me para lembrar o que eu havia feito para irritá-lo, mas não conseguia me lembrar de nada. Tentei me reconciliar com ele (ele me expulsou do quarto). Falei com meus superiores, que foram simpáticos e solícitos (mas nada mudou). Por fim, aprendi a conviver com isso, a rezar por ele e, como um sábio e idoso jesuíta aconselhava, a simplesmente ser “cordial” com ele. Foi uma grande penitência.

 

Depois de alguns anos nessa situação, fui ao meu retiro anual de oito dias e partilhei com a minha diretora de retiro como isso era difícil. Ela sugeriu aquela que eu achei ser uma passagem estranha para rezar: a rejeição de Jesus em Nazaré  (Lc 4,14-30). Nessa passagem, Jesus se levanta na sinagoga e proclama que ele é o Messias. Inicialmente, os habitantes o elogiam, mas logo depois se voltam contra ele, e tentam matar Jesus. “Levantaram-se e expulsaram Jesus da cidade. E o levaram até o alto do monte, sobre o qual a cidade estava construída, com intenção de lançá-lo no precipício.” Mas Jesus escapa “passando pelo meio deles”. Os habitantes de Nazaré não podiam ver Deus, mesmo quando Deus estava bem na frente deles.

 

Na minha oração aconteceu uma mudança de perspectiva. Sabia que Nazaré era uma cidade minúscula, 200 habitantes. Então, quando imaginei Jesus de pé na modesta sinagoga, eu o imaginei falando para um pequeno grupo de pessoas que o conheciam, mas que ele também conhecia.

 

Na minha oração, me imaginei falando com Jesus: “Como você conseguiu fazer isso?”.

E, eu o ouvi me dizer: “Será que todos devem gostar de você?”.

 

Foi um choque, não apenas na clareza com que essas palavras vieram até mim (não auditivamente, mas sentidas), mas também no seu significado. Na época, eu tive vontade de dizer: “Sim, devem!”. Mas logo depois, percebi que Jesus estava me convidando a ser livre da necessidade de ser amado, apreciado ou aprovado.

 

Isso ajudou imensamente na minha relação com esse outro jesuíta.

 

Cinco anos depois, em 2017, eu publiquei um livro intitulado Building a Bridge” [Construindo uma ponte], sobre a relação da Igreja com os católicos LGBT. Eu não esperava que o livro fosse grande coisa. O livro encorajava a Igreja institucional a tratar os católicos LGBT com o “respeito, compaixão e sensibilidade” pedidos pelo Catecismo, e com o amor, misericórdia e compaixão pedidos por Jesus.

 

Em algumas semanas, o livro levantou reações fortes. Primeiro, vieram respostas intensamente emocionais, onde eu fiquei surpreso ao testemunhar ovações de pé, e longas filas de pessoas esperando para me agradecer. Depois, veio a reação negativa com ataques pessoais intermináveis e odiosos. Iam além da discordância ao ódio.

 

Eu fui chamado de “herege”, “apóstata”, “sodomita”, “homossexual”, “falso padre”, “lobo em pele de cordeiro”, “bicha”, “viado” e todas as calúnias homofóbicas que você pode imaginar. Palestras foram canceladas, recebi telefonemas obscenos, e ameaças de morte `católicas´: nenhuma de assassinato direto, mas sim notas dizendo: “Espero que você morra logo”.

 

Alguns ataques vieram até de alguns clérigos e membros da hierarquia... Um bispo estadunidense condenou o livro na sua coluna semanal, mas admitiu não o ter lido.

 

Felizmente, recebi o apoio dos meus superiores jesuítas, e, alguns meses depois convites de cardeais e arcebispos para falar nas suas dioceses. Uma surpresa: o convite do Vaticano para falar no Encontro Mundial das Famílias, 2018, em Dublin, e, finalmente, uma audiência de 30 minutos com o Papa Francisco, no Palácio Apostólico, em setembro/2019, na qual debatemos sobre o ministério LGBT na Igreja Católica. Eu me senti profundamente consolado. 

 

Os ataques à minha pessoa me levaram de volta à pergunta: “Será que todos devem gostar de você?”. A resposta é: “Não”. Se nem todos gostaram de Jesus, então por que todos deveriam gostar de mim? A libertação da necessidade de ser amado, apreciado e aprovado foi um grande dom. E para finalizar, aquele jesuíta que me detestava finalmente NÃO se reconciliou comigoele simplesmente se mudou da comunidade. Mas a graça que ele me deixou ficou: estar livre da necessidade de aprovação, e, se atacado, poder dizer, com Jesus: “Há coisas mais importantes para se importar...



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