Papa: Dante, profeta de esperança e poeta da misericórdia....


  

Na Carta apostólica “Candor lucis aeternae”, o Papa recorda o VII centenário da morte de Dante Alighieri, destacando a atualidade, a perenidade e a profundidade de fé da “Divina Comédia”.


Passados 700 anos da sua morte, ocorrida em 1321 em Ravena, em doloroso exílio da sua amada Florença, Dante ainda nos fala, e nos pede para não somente ser lido e estudado, mas também, e sobretudo, ouvido e imitado no seu caminho rumo à felicidade, isto é, ao Amor infinito e eterno de Deus. 


Assim escreve o Papa Francisco na Carta apostólica “Candor lucis aeternae – Esplendor da vida eterna”, 25/MAR/2021. O mistério da Encarnação é “o verdadeiro centro inspirador e o núcleo essencial” da “Divina Comédia”, que realiza “a divinização”, isto é, o prodigioso intercâmbio entre Deus e a humanidade, que “é assumida em Deus, no Qual encontra a verdadeira felicidade”.


A Carta apostólica se abre com um breve excursus que do pensamento de diversos Pontífices sobre Dante. O Papa destaca a vida de Dante Alighieri, definindo-a “paradigma da condição humana” e destacando a atualidade e a perenidade da sua obra, parte integrante da nossa cultura cristã, pois representa o património de ideais e valores humanos e cristãos.


Dois são os temas centrais da Divina Comédiao desejo, presente no ânimo humano e a felicidade, dada pelo Amor que é Deus. Dante é “profeta de esperança”, pois impulsiona a humanidade a libertar-se da  “selva escura” do pecado para reencontrar “a reta via” e alcançar, assim, a “plenitude de vida na história” e a bem-aventurança eterna em Deus.  O caminho indicado por Dante, verdadeira “peregrinação”, é “realista e possível” para todos, porque a misericórdia de Deus oferece sempre a possibilidade de converter-se.

 

A Carta apostólica dá relevância a três figuras femininas da “Divina Comédia”Maria, Mãe de Deus, emblema da caridade; Beatriz, símbolo da esperança, e Santa Luzia, imagem da fé. Estas três mulheres evocam as três virtudes teologais, e acompanham Dante em várias fases do seu peregrinar, demonstrando o fato de que “não nos salvamos sozinhos”, mas que é necessária a ajuda de quem “possa apoiar e guiar com sabedoria e prudência”. Maria, Beatriz e Luzia, com efeito, são sempre movidas pelo amor divino, “a única fonte que pode nos doar a salvação”, “o renovamento da vida e a felicidade”.

O Pontífice dedica um parágrafo a São Francisco, que na obra dantesca é representado na “cândida rosa dos bem-aventurados”. Entre o Pobrezinho de Assis e o Sumo Poeta, o Papa entrevê “uma profunda sintonia”: ambos se dirigiram ao povo, o primeiro  “foi para o meio do povo”, o segundo escolhendo não usar o latim, mas a vulgata, “a língua de todos”. Além disso, ambos se abrem “à beleza e ao valor” da Criação, espelho do seu Criador. Artista genial, cujo humanismo “ainda é válido e atual”, Dante Alighieri também é “um precursor da nossa cultura multimediática”, porque na sua obra se fundem “palavras, símbolos e sons” que formam uma única mensagem.

 

Por fim, Francisco pede que este “patrimônio” não permaneça fechado nas salas das escolas e universidades, mas seja conhecido e difundido graças à contribuição das comunidades cristãs e das associações culturais. Também os artistas são chamados em causa: Francisco os encoraja a “a dar forma, cor e som à poesia de Dante, ao longo da via da beleza”, de modo a difundir “mensagens de paz, liberdade, fraternidade”. Uma tarefa mais relevante do que nunca neste momento histórico marcados por sombras, degradação e falta de confiança no futuro. Dante pode “ajudar-nos a avançar, com serenidade e coragem, na peregrinação da vida e da fé que todos somos chamados a realizar, até o nosso coração encontrar a verdadeira paz e a verdadeira alegria, até chegarmos à meta última de toda a humanidade, «o amor que move o sol e as estrelas»”.

 

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