Salve heróis negros esquecidos pela nossa história...



A cor da pele é provavelmente a única coisa importante que todos carregamos, não para nos distanciar, mas para nos enriquecer e crescer como irmãos e irmãs. Mas na história não foi bem assim. Muitos ficaram marginalizados pela cor da sua pele...

 

Acaba de ser publicada a Enciclopédia negra (Companhia das letras) com o perfil de 550 histórias de mulheres e homens negros e mestiços esquecidos pela história nacional.

 

Mais da metade dos 210 milhões de brasileiros é composta atualmente por pessoas de raça negra. Graças às cotas raciais para entrar na universidade, no ano passado os alunos universitários de raça negra superaram os brancos, apesar dos primeiros viverem bem pior do que os negros e mulatos. O coronavírus vitima especialmente os afro-brasileiros.

 

Uma das autoras da enciclopédia diz: Queremos dar alma e rosto a esses heróis cotidianos que foram silenciados e apagados de nossa história

 

A enciclopédia começa com Abdias do Nascimento (1914-2011) e termina com Zumbi dos Palmares (1655-1695) em um percurso histórico que vai do século XVI ao XXI; Abadias um intelectual, artista e deputado que criou o Teatro Experimental do Negro e deu aulas nas Universidades de Yale e Ifé (Nigéria), Zumbi um escravo sonhador do Brasil colonial, que liderou uma república de libertos e foi convertido no grande símbolo da resistência negra. Todo 20/NOV, data da execução de Zumbi, comemoramos o Dia da Consciência Negra, embora em alguns casos, a realidade se confundam com a lenda.

 

Os protagonistas, apresentados em ordem alfabética, são intelectuais, ativistas, líderes religiosos, músicos, esportistas, políticos, cientistas, amas de leite, etc... As conquistas, façanhas e vitórias descritas compõem uma avassaladora diversidade de trajetórias e origens, coisa pouco frequente neste país continental muitas vezes ensimesmando pelo eixo São Paulo-Rio de Janeiro.

 

Afra Joaquina Vieira Muniz, que aparece na capa do grosso volume da Enciclopédia, ilustra como era complexa a rede da escravidão no último dos países das Américas a aboli-la, em 1888. Afra, nascida em Salvador, era uma pessoa escravizada cuja liberdade lhe foi dada por um antigo senhor ao casar-se com ela. Quando este morreu, por volta de 1870, legou-lhe todos os bens, e duas mulheres que ficavam livres com a condição de cuidar da viúva até sua morte. As duas denunciaram Afra Joaquina à Justiça por maus-tratos, mas perderam a ação e tiveram de ficar com ela.

 

Pretextato dos Passos abriu em 1885 a primeira escola para crianças negras, que não eram aceitas nas escolas de brancos; Benjamim de Oliveira foi o primeiro palhaço negro; a professora Antonieta Barros, deputada pioneira em 1935 na muito branca Santa Catarina. Luiz Gama, que o próprio pai vendeu como escravo, foi revendido, conseguiu fugir para se tornar funcionário público e depois advogado. Obteve nos tribunais a liberdade de outras pessoas antes de morrer em 1882 aos 52 anos.

 

Claudia Silva Ferreira, uma faxineira que tinha quatro filhos, se tornou uma das muitas vítimas de balas perdidas, em tiroteios durante operações policiais, em 2014. Ferida, foi colocada por alguns policiais no porta-malas do carro patrulha dizendo que a levariam ao hospital. Mas a tampa se abriu e ela caiu. Foi arrastada por 400 metros até que os policiais perceberam. Morreu antes de chegar ao hospital e estava prestes a se tornar mais um número de uma volumosa estatística. Mas, como aconteceu agora com George Floyd, alguém filmou a cena macabra e essa morte adquiriu importância social.

 

Alguns dos resenhados são personalidades destacadas que durante décadas foram brancas aos olhos de seus compatriotas. O caso mais marcante é o de Joaquim Machado de Assis (1839-1908), o grande romancista, fundador e presidente da Academia Brasileira de Letras, que em sua imagem mais conhecida foi imortalizado como um branco

 

Publicar a Enciclopédia Negra exatamente agora, porque 2022 é um ano importante. O Congresso tem previsto avaliar as cotas universitárias, que nos últimos anos engendraram uma geração de graduados negros e pobres, o que representa uma profunda mudança para melhor nesta sociedade racista e classista. Também se comemora o bicentenário da independência do Brasil. E o centenário da Semana de Arte Moderna, que deu personalidade própria à arte moderna brasileira, mas excluiu o escritor Afonso Lima Barreto pela cor da sua pele.


Na história do Brasil feita por muitos cabemos todos!


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