16/AGO: Alberto Hurtado, santo e advogado, lutou por direitos sociais... cf.Gabriel Vilardi SJ

Jesuíta chileno foi autêntico amigos dos pobres em sua missão...


 

Dirigindo-se aos movimentos sociais em abril de 2020, o Papa Francisco, nestes tempos de "tanta angústia e dificuldade", reafirmou a sua esperança nas "periferias esquecidas" e excluídas da globalização. Conclamou que os "verdadeiros poetas sociais" ousem sonhar um desenvolvimento humano integral voltado ao acesso universal dos chamados três Ts: Terra, teto e trabalho.

O Papa convidou a "uma conversão humanística e ecológica que termine com a idolatria do dinheiro e coloque a dignidade e a vida no centro". Não se trata apenas de uma proximidade àqueles que são invisibilizados por uma cultura do descarte, mas de uma presença que os reconheça como protagonistas e "construtores indispensáveis dessa mudança urgente".

O testemunho apaixonado e profético do Papa argentino remete a outro companheiro de Jesus: Santo Alberto Hurtado (1901-1952). A Igreja celebra a memória do jesuíta chileno neste dia 18 de agosto. Esse santo contemporâneo teve uma vida curta, porém intensa. 

Talentoso, cultivou um coração sensível às questões sociais. "O que quer Deus de mim?", questionava-se com coragem. O desejo de uma maior radicalidade no seguimento de Jesus pulsava no seu interior. Desde pequeno nunca deixou de se comprometer com os empobrecidos. Aprendeu a ser solidário com os sofredores de seu tempo.

Para dom Manuel Larraín, "o padre Hurtado compreendeu plenamente o que o ensino social da Igreja traz e representa". Tinha bem claro que o cristianismo ou é social ou não é.

Apóstolo da juventude, seu testemunho inspirou muitos jovens a abrirem-se a um seguimento ousado e encharcado de esperança. Desde os quinze anos já se sentia chamado a entrar na ordem dos jesuítas. Como assessor nacional da Juventude Católica percebeu a importância de ajudar os jovens a se interrogarem sobre seu futuro e os provocava a terem "uma preocupação especial por estudar sua carreira em função dos problemas sociais próprios de seu ambiente profissional".

Todavia, as oposições e incompreensões não tardaram a chegar. Setores da sociedade e da Igreja criticavam a "sua falta de espírito hierárquico, sua ingerência em assuntos políticos e suas ideias avançadas em matéria social". O mesmo tipo dos que hoje criticam o Papa Francisco por defender que "uma fé autêntica exige sempre um desejo profundo de mudar o mundo".

Homem de profunda espiritualidade e orientador de Exercícios Espirituais. A multidão de crianças vagando pelas ruas o incomodava sobremaneira. Um grupo de senhoras se juntou a ele para fundarem o "Lar (Hogar) de Cristo".

Esses "Lares de Cristo" rapidamente se espalharam por todo o país e formaram uma importante rede de proteção às pessoas em situação de rua. Muitas crianças e adolescentes sem-teto foram acolhidos e tiveram suas vidas transformadas com as oportunidades oferecidas.

Cursou Direito na Universidade Católica pelas manhãs e a tarde trabalhava. Além de arranjar tempo para colaborar como professor voluntário no Instituto Noturno Santo Inácio. Viu seu sonho de ser admitido à Companhia de Jesus ser adiado por um tempo para apoiar financeiramente sua mãe. De alguma forma, isso lhe permitiu experimentar a dureza da vida de trabalhador.

Preocupado com a justiça e a caridade cristãs fundou a Ação Sindical e Econômica Chilena (1947). Desejava "despertar nos trabalhadores cristãos a consciência de sindicalizar-se e agrupar os cristãos já sindicalizados, para que com plena formação lutem no interior dos sindicatos por uma visão cristã". Para dar voz aos operários explorados criou também a revista Tribuna Sindical.

Por questionar as injustas estruturas, padre Hurtado foi acusado de ser "comunista". Sua missão ia além da ação direta pelos empobrecidos. Estava consciente que era preciso promover uma profunda reflexão sobre o tema. Com esse objetivo publicou inúmeras obras, entre elas, Humanismo Social (1947), A Ordem Social Cristã (1948) e Sindicalismo (1950).

O jesuíta chileno se sentiria confirmado com as palavras do Papa Bergoglio: "para os cristãos o discernimento dos fenômenos sociais não pode ser independente da opção preferencial pelos pobres". Afinal, "não é uma opção sociológica, nem moda de um pontificado", mas "uma exigência evangélica".

Nos últimos tempos, no Brasil, experimenta-se uma ampla e progressiva retirada de direitos trabalhistas e sindicais. Em 2017 foi aprovada a famigerada "reforma trabalhista" valorizando os contratos individuais em detrimento da Justiça do Trabalho e dos indispensáveis sindicatos. 

Contudo, os dados atuais são alarmantes e comprovam que a situação piorou: 15 milhões de desempregados. Trata-se do maior índice da série histórica

Como reagiria Santo Alberto Hurtado nesse cenário caótico de retrocessos? Ele não se calaria. Cristão consciente e comprometido, chamado a ser fermento na massa, o apóstolo dos empobrecidos lutaria com os trabalhadores. Provavelmente, também sofreria ataques das milícias digitais e seria vítima das fake news questionando a sua ortodoxia cristã.

Mas, as perseguições não seriam suficientes para pará-lo. Talvez respondesse como quando com apenas 51 anos agonizava no hospital, tomado pelo câncer de pâncreas: "que se trabalhe para criar um clima de verdadeiro amor e respeito ao pobre, porque o pobre é Cristo". 

O seu único critério, que deveria pautar a vida de todo cristão, era a inquietante pergunta: o que faria Cristo no meu lugar?

 

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