Pedro Casaldáliga e o missionário jesuíta de Minas Gerais... (Gabriel Vilardi, SJ)

 


Há um ano da morte do bispo do Araguaia, fez-se memória dos mártires da caminhada, como a do Pe. Burnier. Duas vidas missionárias se encontraram no interior da Amazônia e fizeram história. Dois religiosos apaixonados pelo Evangelho de Jesus Cristo, o claretiano D. Pedro Casaldáliga (em mangas de camisa) e o jesuíta Pe. João Bosco Burnier (paramentado).

 

No domingo, 8/AGO, completou-se um ano da Páscoa do Profeta do Araguaia. Como um dos primeiros signatários do Pacto das Catacumbas, após o Vaticano II, D. Pedro abriu mão dos títulos e do poder clerical. Chamavam-no de bispo Pedro ou simplesmente, Pedro; um anel de tucum e um chapéu de palha sempre o acompanharam. Dom Pedro colocou-se a serviço do povo sofrido e espoliado. "A injustiça tem um nome nesta terra: o latifúndio", e "o único nome certo do desenvolvimento aqui é a reforma agrária".

 

Na ordenação episcopal de Casaldáliga, o bispo escreveu uma carta pastoral intitulada Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social (1971), e que quase 50 anos depois dará origem à Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), ao Sínodo para a Amazônia (2019) e à Conferência Eclesial da Amazônia (Ceama).

O bispo poeta e comprometido com os empobrecidos, encantou gerações de cristãos e militantes sociais de toda América Latina.

Dentre os muitos que o seguiram foi o Pe. João Bosco Penido Burnier. Em 2021 celebram-se os 45 anos do martírio do padre jesuíta, oriundo de Juiz de Fora-MG, e que nutria o desejo de ser missionário no Japão. Depois de quase trinta anos de vida religiosa, tendo ocupado importantes funções dentro da Companhia de Jesus, pediu para ser enviado a uma missão de fronteira.

Em 1966 foi destinado para a Missão Anchieta, na Prelazia de Diamantino-MTEram tempos da ditadura militar no país. Com o tempo, os indígenas conquistam o coração do austero jesuíta, e com afeto, o povo Bakairi dá-lhe o nome de Sapinágue.

Em FEV/1976 ocupa a função de coordenador regional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), no nordeste do estado. No começo de outubro daquele ano, o padre João vai até a Prelazia de São Félix participar de um Encontro Indigenista. Concluído o encontro, ambos foram até a cidadezinha de Ribeirão Bonito (hoje, Ribeirão Cascalheira) celebrar a festa de Nossa Senhora Aparecida. Ao chegarem perceberam o clima de terror que imperava no pequeno vilarejo. O lugar estava tomado por policiais militares em reação a morte do cabo Félix, conhecido na região pelos seus crimes e arbitrariedades. Ainda assim, Casaldáliga e Burnier se juntaram ao povo que festejava sua padroeira.

Por volta das 18 horas, ouviram os gritos de duas mulheres presas injustamente pela polícia. Eram Margarida e Santana e estavam sendo submetidas a torturas horrendas. O bispo resolveu intervir naquela situação e o padre João Bosco se ofereceu para acompanha-lo.

Apresentaram-se na delegacia e tiveram um tenso diálogo, com insultos e ameaças por parte dos policiais. Indignado, o jesuíta disse que os denunciaria às autoridades superiores pelas ilegalidades praticadas. Nesse instante, o soldado Ezy Ramalho Feitosa deu-lhe uma bofetada, seguida de um golpe de revólver no rosto e do tiro na cabeça.

Após os primeiros socorros, conseguiram leva-lo de avião para Goiânia. Mas, era tarde demais, o Pe. Burnier fizera a sua Páscoa no dia 12/OUT/1976, dia de nossa Senhora Aparecida...

No lugar da delegacia, o povo levantou o Santuário dos Mártires da Caminhada. Trata-se do único santuário do mundo que celebra os que caíram em defesa da justiça e do direito. E desde 1986 acontece a cada cinco anos a Romaria dos Mártires da Caminhada. 

Celebrar é preciso! Mesmo em meio a tanta dor, diante das mortes provocadas pela pandemia do coronavírus. Celebrar é resistir. Resistir à desesperança crescente de cada dia, em que os tempos parecem se tornarem mais sombrios. Na missa do sepultamento do Pe. Burnier, D. Pedro profetizou: 

"Somos filhos da Luz, filhos da EsperançaA morte já foi vencida, faz muitos séculos. Não há mais morte; há só paixão, há só passagem, há apenas Páscoa. A morte para nós é vida e ressureição; a fé para nós tem um nome: Jesus; e um sobrenome: Ressuscitado. Jesus Ressuscitado é a nossa fé. Esta é a fé do padre João Bosco. Por esta fé vamos morrer e por esta fé vamos ressuscitar". 

Tantos cristãos e cristãs que tombaram pela fidelidade ao Reino de Deus. Falem por si mesmos os intensos 92 anos de um testemunho comprometido e profético. Dom Pedro Casaldáliga viveu uma vida martirizada, farol para os homens e mulheres de boa vontade. 

Minha terra prometida és Tu, Jesus! Dom Pedro sempre foi santo...

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