23º DTC: Ephatá! Imediatamente seus ouvidos se abriram e sua língua se soltou... (Mc 7, 35)



 

Diz um proverbio chinês que “quando os olhos são liberados, começa-se a ver; quando os ouvidos são liberados, começa-se a ouvir; quando a boca é liberada, começa-se a saborear, e quando a mente é liberada, alcança-se a sabedoria e a felicidade”.

 

Para nos livrar da auto-referência é preciso “cristificar” nossos sentidos, tornando-os oblativos e expansivos. O estado original dos sentidos e da mente é a contemplação e a admiração, e não o instinto possessivo ou a suspeita. Com os sentidos oblativos, a inteligência é chamada a “sentir” o mundo como Tabernáculo de uma Presença, que tudo dignifica e torna sagrado.

 

Todo o corpo humano é expressão: gesto, atitude, palavra, e tudo isto revela interioridade, sentimento, espiritualidade. Os sentidos, se estão atentos, podem captar o que foi expresso. Eles nos humanizam.

 

No relato deste 23º Domingo, encontramos Jesus peregrino, atravessando terra estrangeira, espaço habitado por “pagãos”. Jesus, quebra distâncias e se faz próximo do diferente, daquele que é rejeitado por não ter as mesmas ideias, a mesma religião, a mesma cultura...

 

O relato ajuda a nos fixar na corporeidade de Jesus, pois nos fala de suas mãos, de seus dedos, saliva, olhos, respiração... todo o seu ser a serviço do bem

 

Jesus nos apresenta uma maneira original de viver o encontro, a acolhida, o diálogo e a cura. Ele rompe fronteiras e pré-juízos, se aproxima e permite que os outros se aproximem dele, oferecendo o melhor de si mesmo e despertando o melhor que há  na outra pessoa. 

 

No encontro com o enfermo que lhe é apresentado, Jesus começa por usar uma linguagem não-verbal, primitiva e anterior à palavra. Pelos gestos, o surdo-mudo vai sendo reconstruído em sua humanidade. Jesus “o conduz à parte, longe da multidão”; é uma ação personalizadora. 

E lá, na intimidade do contato, o deficiente é cuidado na individualidade das suas limitações.

- “Colocou os dedos nos seus ouvidos”: literalmente, “pôs o dedo na ferida”. A mão é fonte de contato, e canal de energia curativa. 

- “Com a saliva tocou a língua dele”: força terapêutica da saliva.

- “Olhando para o céu..”: Jesus olha para o alto, em direção ao Pai, origem de toda vida.

- “Jesus suspirou”: com o sopro, prolonga o gesto do Criador no 6º dia da Criação. Traz à memória o sopro do Espírito, que transforma o “caos” em “cosmos”.

- “E disse-lhe: ‘Effatha’ (‘abre-te’)”; palavra dirigida ao coração: destrava teu interior!

 

Depois de tantos gestos, vem a palavra. O surdo-mudo desata sua língua e começa a falar. 

 

A sociedade na qual estamos inseridos requer de todos nós uma nova sensibilidade para facilitar a convi-vência, a transformação social e acolher a nova visão da existência humana. No entanto, a convivência social se revela cada vez mais conflituosa; uma das grandes dificuldades é a ausência de saber escutar, olhar, sentir...

 

Vivemos tempos de ódios e intolerâncias, bem o contrário do “ephatá-abre-te”. A conversão evangélica precisa chegar a alcançar a sensibilidade para ser efetiva. Os senti-dos se fazem “espirituais”, isto é, tornam-se sentidos transfigurados, animados pelo Espírito de Deus sempre que são positivos e gratuitos. Somos “templo do Espírito”.

 

Uma sensibilidade cristificada nos permite viver o seguimento de Jesus de um modo sempre mais original e aberto. O nosso agir cristão ficou petrificado, depende da sensibilidade e enquanto esta não for evangelizada não podemos ter certeza de reagir evangelicamente na vida.

 

Escutar, sentir, perceber as próprias sensações físicas, as emoções primárias, as reações psíquicas; o corpo é criativo nas suas expressões e na arte da comunicação. A corporalidade tanto pode ser escutada como sentida. Somos convidados a nos identificar com Jesus Cristo ativando positivamente os olhos e ouvidos, tato, o paladar e o olfato

 

Só assim nossa presença e comportamento serão mais evangélicos

 

 

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