BATISMO de JESUS: experiência fundante do amor de Deus... (Pe. A. Palaoro SJ)

 “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer” (Lc 3,22)

 


Começamos o tempo litúrgico conhecido como “Tempo Comum”. O batismo é o primeiro acontecimento público da vida de Jesus que os evangelhos narram. Os evangelistas começam suas narrativas com o batismo de Jesus por João Batista. Os quatro ressaltam a importância que teve para Jesus o encontro com João Batista e a descoberta de sua missão. O batismo é o evento mais significativo desde seu nascimento até sua morte. 

 

Quando ouviu falar de João Batista, que batizava no rio Jordão, Jesus se uniu à multidão e foi também ver João. Jesus entrou no Jordão. Jesus desce ao profundo das águas de nossas fragilidades humanas e compartilhou conosco a densidade de nossa história. O batismo foi a prova de sua verdadeira humanidade.

 

Jesus foi lentamente tomando consciência da proximidade de Deus, ao ser batizado no rio Jordão. Chegou o momento em que, junto com a multidão Jesus entrou na água. A um sinal do Batista, Ele se submergiu na água e assim se deixou batizar, como faziam todos. 

 

Depois de ser batizado, enquanto rezava, Jesus sentiu uma tremenda comoção interior: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer”.

 

Lucas não dá nenhum destaque ao fato do batismo em si; ele destaca os símboloscéu abertodescida do Espírito e voz do PaiTrata-se de uma teofania. Os céus se abrem e Deus se aproxima dos homens. Viu-se o Espírito descer sobre Ele em forma de pomba. Trata-se de uma representação plástica para expressar uma radical e originalíssima experiência espiritual vivida por Jesus: sente-se Filho amado de Deus-Abba. É invadido por uma paixão de amor divino que revirou sua vida. Experimentou uma absoluta e direta proximidade de Deus. Já não é Ele quem busca a Deus, mas foi Deus que o buscou e o assumiu como seu Filho querido

 

Aqui se encontra a grande singularidade relatada pelos evangelistas: dar testemunho da proximidade radical de Deus, do Deus que busca intimidade não só com Jesus de Nazaré, mas com todos os seres humanos, independentemente de sua condição moral, social, religiosa e de sua situação de vida. Trata-se do transbordamento do amor gratuito de Deus para seus filhos e filhas.

 

Com isto se inaugura um novo caminho, diferente daquele da observância da Lei. Não é esse o “modo de ser e agir” do Abbá de Jesus. Irrompe um amor divino ilimitado, oblativo, gratuito, começando por aquele de quem nunca falam, que nunca foi a uma escola de teologia, quando muito à escolinha bíblica da sinagoga. O Nazareno não pertence ao mundo dos letrados, dos juristas, da casta sacerdotal ou de algum status social. É um anônimo, mais acostumado ao trabalho manual do que ao uso da palavra.

 

Os evangelistas nos repetem continuamente que Jesus, em diferentes momentos de sua vida, teve a experiência de ser Filho Amado. 

 

De repente tudo mudou: inundado da proximidade amorosa de Deus Jesus se pôs a pregar com tanto entusiasmo e sabedoria que os ouvintes comentavam: “De onde lhe vem essa sabedoria? Não é ele o filho do carpinteiro?” (Mt 13,54-55). 

Andando com pessoas de má fama, Jesus ia lhes mostrando a proximidade amorosa de Deus.

Por que fazia isso? Porque quis levar a todos, especialmente aos socialmente desqualificados - os leprosos, os paralíticos, os cegos -, mas também aos pecadores públicos, aos desesperados, a novidade de que Deus está próximo de todos eles. Jesus, transbordando do amor de Deus-Abbá, sai do seu batismo com a nobre missão de anunciar essa novidade da proximidade incondicional de Deus que se faz para todos o “Abbá generoso”.

 

A partir de então, o decisivo não é a prática minuciosa da Lei e das tradições, mas deixar ressoar no coração aquela voz que Deus-Abbá disse a Jesus e que agora repete para todos: “vós sois minhas filhas e filhos amados, em vós encontro meu regozijo”.

 

A Igreja existe na medida em que é capaz de oferecer um espaço de nascimento (de batismo) a todos. Neste contexto se situa a experiência cristã do batismo, como sacramento que expressa o nascimento em Deus, uma experiência de filiação celebrada e partilhada em comunhão com todos.

 

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