Se Jesus deu a Comunhão a Judas Iscariotes... (Cf. M. A. Velásquez Uribe)

Tomai e comei todos vós...

Entre os dias 5 e 19 de outubro se realiza em Roma o Sínodo dos Bispos sobre a Família. As expectativas foram realçadas com o “Questionário do Papa”, apresentado em 2013, que de modo realístico entrava na realidade da vida familiar.

As respostas, analisadas no “Instrumentum Laboris”, deixaram a descoberto o que todos intuíam: a enorme brecha entre os ensinamentos morais da Igreja e a vida dos fiéis, a conhecida diferença entre a ortodoxia e a ortopráxis.

No intervalo entre a convocação e o começo do Sínodo mesmo aconteceram fatos significativos, que trouxeram à tona a existência de um grave conflito no interior da Igreja: comunhão dos separados e divorciados que voltaram a se casar. O conflito atualiza as diferenças entre aqueles que defendem as questões dogmáticas e os pastoralistas, Lei e Misericórdia. É a mesma polêmica dos fariseus e mestres da Lei com Jesus.

Antecipando-se ao Sínodo, o cardeal G. Muller publicou no L´Osservatore Romano (23/OUT/2013) o documento “A força da graça”, onde enfatiza a doutrina da indissolubilidade do matrimônio. Pouco depois (7/NO/2013) o cardeal R. Marx declarou que “o Prefeito da para a Doutrina da Fé não pode acabar com a discussão” sobre o tema dos divorciados que voltaram a se casar, por ser matéria do esperado sínodo. Posteriormente, o cardeal W.  Kasper expôs um extenso documento, encarregado pelo próprio Papa Francisco, para iluminar os caminhos de abertura à comunhão dos separados e divorciados que voltaram a se casar. O papa, no dia seguinte, elogiou efusivamente o trabalho do cardeal Kasper dizendo que “isto se chama fazer teologia de joelhos”, numa clara alusão à teologia da misericórdia.

Faltando poucos dias para o Sínodo, um grupo de cinco cardeais (G. Muller, R. Burke, W. Brandmuller, C. Caffarra e V. de Paolis) e quatro teólogos (Robert Dodaro, John Rist, Paul Mankowski e Cyril Vasil) publicaram o livro “Permanecendo na verdade de Cristo: matrimônio e comunhão na Igreja”, dando uma resposta contundente ao documento do cardeal Kasper que sustenta o espírito de misericórdia do papa. No dia 17/SET, o mesmo cardeal Kasper manifestou com gravidade a surpreendente irrupção deste livro, dizendo “nunca me havia acontecido nada parecido em toda minha vida acadêmica”, e acrescenta que “durante o Concílio Vaticano II e no pós-Concílio existiam as resistências de alguns cardeais frente a Paulo VI, inclusive por parte do então Prefeito do Santo Ofício. Mas, se não me equivoco, não com esta modalidade organizada e pública”.

Articula-se assim uma oposição organizada contra a práxis da misericórdia. E sendo a misericórdia o selo distintivo do pontificado de Francisco, fica assim também definida a oposição organizada para com seu pontificado.

Obrigação da Igreja de oferecer uma “tábua de salvação” que permita às pessoas em segundas nupcias, enfrentar as exigências da vida familiar.  Justifica assim a acolhida de alguns casos de segundas núpcias que permitiriam saltar os impedimentos que a inquestionável indissolubilidade conjugal impõe. Paralelamente busca-se expedir os processos de anulação matrimonial, removendo assim um obstáculo para o acesso à Comunhão Sacramental.


É evidente que o núcleo do conflito teológico enraíza-se no princípio da indissolubilidade do matrimônio. Se a indissolubilidade do matrimônio é inquestionável, os argumentos em favor da abertura parecem aproveitar da  oportunidade para habilitar a centralidade da misericórdia que permita aos separados e divorciados recasados o acesso à comunhão .

No Novo Testamento, onde nasce a Comunhão Sacramental, não existe nenhuma evidência que indique que para receber o Corpo e o Sangue do Filho de Deus seja necessário estar em estado de graça. Mais ainda, na Primeira Comunhão da história, na Última Ceia (na instituição da Eucaristia), comungaram com Jesus Cristo seus doze apóstolos, incluído Judas Iscariotes.

Jesus Cristo deu a Comunhão Sacramental a Judas Iscariotes, embora tivesse plena consciência de que não estava em estado de graça.

Logo, tudo indica que o Filho de Deus não negaria o sacramento da comunhão às pessoas que com muitíssimo menos culpa, fracassaram na vida, como é o caso das pessoas separadas e divorciadas  que voltaram a se casar.

Assim, fica claro que Jesus Cristo ao instituir o Sacramento da Eucaristia, elevou também a misericórdia à altura do sinal mais sublime da acolhida cristã manifestado na Comunhão.

Uma pergunta: Se Jesus deu a Eucaristia a Judas quem é você para negá-la aos divorciados e recasados?... 



5 comentários:

  1. Judas recebeu a Eucaristia e as coisas não acabaram bem, não é mesmo? O que será que o Apóstolo Paulo diria sobre o seu artigo? Por falar em resistência ao Papa, o que fizeram com Bento XVI foi uma covardia e uma deslealdade. Ele foi sabotado de muitas formas.

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  2. Que bonito, Pe. Ramón!
    Deus o abençoe por ser sempre sinal do amor misericordioso de Deus, testemunho daquilo que o APÓSTOLO PAULO dizia:
    "A lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte... Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir,
    Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor".

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  3. Olá, Ramon.
    Não creio que ninguém. Quem somos nós, pecadores, para julgar.
    E que tristes esses NeoFariseus Católicos! Mas agradeco a Deus por eles, afinal, sem eles, eu não teria compreendido bem uma expressão tão usada por Jesus: Pobres de Espírito.
    Triste ver homens de tanta inteligencia e pouco amor querem reduzir a Igreja apenas a pessoas perfeitas, retas e sem pecado.
    Enfim, me pergunto, a quem esses NeoFariseus acreditam que Jesus falou durante sua vida?

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  4. Ninguém pode afastar um irmão da mesa do Senhor. "Pedra de tropeço" é como Jesus chamava a estes que impunham - e impõem! - aos pequenos um fardo o qual não consegue carregar. Jesus desconcerto pois chama os que estão à margem... Quem fica no centro - egocêntrico - não enxerga o irmão que também é chamado ao banquete.

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  5. Esses modernistas incríveis e sua hipocrisia maravilhosa. Como são tolerantes e misericordiosos com todos: recasados, drag queens, comunistas, islâmicos, espiritas, protestantes, etc, etc. MENOS, com os seus irmãos católicos da tradição. Para esses não há misericórdia. Para eles, todo castigo é pouco. À propósito da comunhão para os recasados, ao invés de ficar dando palpite, é melhor citar a escritura e a doutrina perene da Igreja, muito embora essas leituras não sejam o forte dos modernistas:
    "Disseram-lhe eles: Por que, então, Moisés ordenou dar um documento de divórcio à mulher, ao rejeitá-la? Jesus respondeu-lhes: É por causa da dureza de vosso coração que Moisés havia tolerado o repúdio das mulheres; mas no começo não foi assim. Ora, eu vos declaro que todo aquele que rejeita sua mulher, exceto no caso de matrimônio falso, e desposa uma outra, comete adultério. E aquele que desposa uma mulher rejeitada, comete também adultério." (Mt 19,7-11).
    E, ainda, o Catecismo da Igreja, referindo-se às palavras do Apóstolo Paulo:
    §1385 Para responder a este convite, devemos preparar-nos para este momento tão grande e tão santo. São Paulo exorta a um exame de consciência: "Todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignadamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Por conseguinte que cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação" (1 Cor 11,27-29). Quem está consciente de um pecado grave deve receber o sacramento da reconciliação antes de receber a comunhão.
    Entenderam, modernistas caridosos e sofistas ou é melhor desenhar?

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