Condenados para sempre no inferno?

Hoje estarás comigo no Paraíso...
Inferno. Acabo de ler o livro de Dan Brown com o mesmo título. Diversos “infernos” são apresentados à nossa memória: o do genial escritor Dante Alighieri (1265-1321) na Divina Comédia, o do exímio pintor Sandro Botticelli (1445-1510), o do nosso entorno criado pelas multinacionais e o próprio inferno de cada um. Qual é o pior de todos?
Nossos “infernos” são passageiros. Ninguém pena neles por muito tempo, por mais terríveis e enfadonhos que sejam.
A Igreja defendeu o castigo do inferno destinado aos pecadores como “eterno”. Ideia iniciada no século VI com Santo Agostinho. O Papa Francisco nos surpreendeu ao afirmar que a Igreja “não condena ninguém para sempre”. E isso no discurso natalino, 2014, aos cardeais. Nossa doutrina não pode ser anti-evangélica.
Segundo o Papa da misericórdia, Francisco, no DNA da Igreja está a salvação para sempre: Hoje estarás comigo no Paraíso!
Não foi um lapso a afirmação de Francisco aos cardeais de que a Igreja “não condena ninguém para sempre”; as portas da misericórdia e do perdão estão sempre abertas aos pecadores.
A doutrina teológica sobre a eternidade e irreversibilidade das penas do inferno, sofreu mudanças ao longo da história. Até o século III, a Igreja nunca defendeu a doutrina da eternidade do inferno. Pelo contrário, o exegeta das Escrituras, Orígenes (185-253) defendeu a doutrina da apocatástase (Deus perdoa sempre), baseado na parábola do Filho pródigo.
No século V, São Jerônimo estava convencido de que a doutrina do inferno não conciliava com a misericórdia de Deus.
Somente no século VI aparece o conceito de “condenação eterna”, sobretudo com S. Agostinho.
O Concílio de Florença, século XV, rubricou definitivamente a doutrina de S. Agostinho: o inferno é eterno. Mas, nunca a Igreja condenou oficialmente alguém para penar eternamente no Inferno...
Hoje, o papa Francisco deu um salto de séculos ao se colocar ao lado das primeiras comunidades cristãs, ainda embebidas da doutrina do misericordioso profeta de Nazaré, que veio “para salvar e não para condenar”.
E você, o que acha desse tema?

13 comentários:

  1. Mas se uma pessoa se condena ao inferno, é para sempre, não é?

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  2. Jesus salvou a todos!

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  3. Como leigo, penso que está em nossa natureza humana a total liberdade, o que implica que, levados pelas forças do mal, tomamos decisões erradas e pecamos. É de nossa natureza pecar.

    Se Deus nos condenasse para a eternidade, a vida seria uma grande "armadilha" pois é quase impossível passar por ela sem errar, sem pecar. Não consigo imaginar que Deus nos condenaria para todo o sempre, ainda mais sendo o pecado tão inevitável.

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  4. Obrigada por ajudar a revelar a face misericordiosa de Deus. Abraços.

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  5. Penso que quando ressuscitarmos e passarmos pelo juízo final, quando o Senhor colocará uns à sua direita e outros à sua esquerda (no caso destes últimos, onde haverá choro e ranger de dentes), haveremos de estar tão perto do Altíssimo quanto estivemos nesta vida terrena e provisória... Não vejo a coisa dividida simplesmente entre "céu, inferno e purgatório" (e este ainda temporário). Quero dizer, não vejo Deus como maniqueísta, bipolar ou coisa assim. Haverá os muito próximos, que hoje chamamos "santos", mas, mesmo entre eles, haverá os mais próximos (os filhos de Zebedeu intuíram isso e Jesus não os dissuadiu da ideia). E, todos os salvos estarão na presença de Deus, como penso, a certa distância "proporcional" à distância que manteve aqui. Os que se mantiveram e morreram completamente apartados, não estarão na presença de Deus de forma nenhuma - que é o que penso ser o inferno.

    O Papa tem alguma razão em dizer que a Igreja não condena ninguém para sempre, pois, na verdade, a Igreja não pode condenar... Pois não é juíza. Deus é o juiz. Mas a Igreja pode unir ou separar. Este poder o Senhor concedeu à Igreja: "o que unires aqui, estará unido lá; etc.". Bem, os excomungados não estão unidos à Igreja. Os suicidas morrem em pecado mortal (e, até a última vez que verifiquei, não podiam ter as exéquias celebradas). Os que morrem em pecado habitual, morrem privados dos sacramentos... São várias exclusões que a Igreja "celebra"... Ritualisticamente inclusive. Faz parte daquele "se não ouvir, seja tratado como gentio e publicano".

    E tudo isso está no Evangelho. No caso, Mateus 18. E remete ao Sermão da Montanha, pois se Deus é Misericórdia, também é Justiça.

    E não sei se é uma boa ideia dizer que as pessoas podem se salvar sem os sacramentos (uma vez tendo-os conhecido), porque, senão, daí, logo chegaríamos à conclusão de que não precisamos da Igreja...

    Daí, poderiam dizer algo como: "mas Aquele que entregou seu Filho único, há de salvar a todos". Bem, isso não é evangélico. É bonito, enche nosso peito de esperança e fé, mas não está escrito em lugar nenhum - e nem a Igreja o tem ensinado. Na instituição da Eucaristia Jesus diz que está fazendo aquilo "em favor de muitos", não de todos...

    Marcelo Lima

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    1. Completamente de acuerdo, Marcelo.
      Pepa Fdez de la Cigoña

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    2. Obrigado. Não sei de onde se tira a ideia de que a Igreja poderia julgar. Mas, infelizmente, sabemos que pode ajudar a condenar...

      Marcelo

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    3. "E não sei se é uma boa ideia dizer que as pessoas podem se salvar sem os sacramentos (uma vez tendo-os conhecido), porque, senão, daí, logo chegaríamos à conclusão de que não precisamos da Igreja..."
      Eu fico muito triste com essa linha de raciocínio. Sabemos que o cristianismo veio muito depois que outras religiões milenares (Budismo, Hinduísmo, Judaísmo ...) Nesse sentido, sua idéia de salvação pelos sacramentos e a necessidade da igreja, que aqui está claramente marcada como sendo Igreja católica, leva-nos a crer que estão condenados todos os que vieram antes do cristianismo, já que somente pelos sacramentos e pela necessidade da Igreja(Católica) poderemos alcançar a salvação. Se assim for, Deus condenou todos os que vieram antes do Cristianismo, certo?

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    4. Amigo, você reparou no que está entre parênteses? Repito: uma vez tendo-os conhecido (os sacramentos). Essa ideia é baseada em 2 Pd 2, 20-21, que transcrevo: "Com efeito, se aqueles que renunciaram às corrupções do mundo pelo conhecimento de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, nelas se deixam de novo enredar e vencer, seu último estado se torna pior do que o primeiro. Melhor fora não terem conhecido o caminho da justiça do que, depois de tê-lo conhecido, tornarem atrás, abandonando a lei santa que lhes foi ensinada".

      O que está em jogo aqui é que para aqueles a quem foi anunciada a salvação, a escolha é entre aderir a Jesus Cristo ou ser condenado - aliás, a segunda carta de Pedro, ela toda parece ter sido escrita pensando no problema da condenação (se é que posso falar assim).

      O que a Bíblia deixa claro é que a salvação vem por Jesus Cristo. O que a Igreja tem ensinado é que "todo aquele que crer e for batizado será salvo". E com relação a todos os não batizados, de todos os tempos e lugares (inclusive de terras cristãs)? A Igreja tem ensinado que como a Lei de Deus, expressa nos Dez Mandamentos, é a Lei Natural, todos as pessoas, em todos os tempos e lugares a conhecem - e se aqueles que nunca ouviram falar de Jesus Cristo seguirem tal Lei, podem ser salvos. E aqueles que não chegam ao uso da razão (para seguir a Lei)? Não sabemos. Simples assim. Confiamos na Misericórdia do Pai.

      Então, é sempre bom e útil rezar por aqueles que não conheceram Jesus Cristo. Que o Senhor se lembre de ter Misericórdia deles também.

      Mencionei especificamente os sacramentos porque não queria deixar a ideia escapar da Igreja. São muitas as religiões e seitas que anunciam o nome do Senhor e que batizam nesse mesmo nome - e que, portanto, levam muitas pessoas a crer em Cristo. Não quero discutir o destino dessas pessoas, justamente porque se o que elas fazem é suficiente para alcançar a salvação, bem, talvez não precisemos da Igreja Católica Apostólica Romana...

      Marcelo Lima

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  6. Y lo de San Mateo de «Apartaos de mí, malditos, al fuego eterno», ¿es también del siglo VI? Y por supuesto que la Iglesia no condena a nadie para siempre, menuda novedad. Ese poder sólo lo tiene Dios nuestro Señor.

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  7. Gostei , Ramón, dessa reflexão. Sou muito acética em relação ao inferno. Nunca acreditei. Rever o que o nosso papa diz me anima e só posso aplaudi-lo.

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  8. Mesmo na minha catequese antiga das freirinhas piedosas eu nao aceitava essa historia de condenação eterna, mas ficava quieta elas queriam impor esse modo de entender. Cada pessoa na sua historia teve seus motivos de escolher dessa ou daquela forma. Aquele caminho ou o outro e na confiança mesmo se a escolha nao foi boa, ele me diz "Eu estarei convosco todos os dias"

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