11º DTC: COMPAIXÃO COMO FONTE DO CHAMADO... (cf. Pe. A. Palaoro SJ)

“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas...” (Mt 9,36)

Uma pessoa que se define tem força para despertar, arrastar e mobilizar os outros... Jesus inspira e nos impulsiona.

Jesus nos seduz porque alcançou um grau extraordinário de humanidade, de compaixão e de liberdade.

A grande novidade de Jesus começou em sua maneira de olhar a realidade e de deixar-se afetar por ela. A “subversão” da vida começa pela subversão do olhar e vice-versa. O coração sente de acordo com o que os olhos veem, mas os olhos veem de acordo com o que sente o coração. A realidade subverte o olhar, e o olhar subverte a realidade. Olhos que não veem, coração que não sente. Mas os olhos também não veem quando o coração não sente.

Os olhos de Jesus viram muita dor, miséria, violência, e suas entranhas se comoveram. Viu o seu povo despojado da terra, e dos direitos mais elementares... Jesus viu e se compadeceu; compadeceu-se e indignou-se; indignou-se e se comprometeu na transformação daquela realidade dolente e comprometeu-se porque seus olhos viram outro mundo possível.

Na raiz de sua atividade terapêutica está sempre seu amor compassivo. Jesus se aproxima dos que sofrem, alivia sua dor, toca os leprosos, liberta os possuídos, os resgata e os devolve à convivência.

O que move a vida de Jesus é a compaixão. E a compaixão é mobilizadora dos sentimentos mais nobres no interior de cada um. No calor da compaixão brota o chamado e a resposta dos seus seguidores. Sem compaixão, a resposta ao chamado se esvazia, o serviço se burocratiza, o seguimento vira lei. 

Jesus não nos chama para seguir uma religião, uma doutrina, nem faz proselitismo... Ele desencadeia um movimento e nos convoca a segui-Lo, ou seja, identificar-nos com Ele e com sua proposta de vida.

O horizonte do chamado e do envio não é outro que o compromisso em favor da vida e das pessoas. A partir desta perspectiva, a “missão” pode reencontrar seu verdadeiro sentido.

A novidade de Jesus consiste justamente em afirmar que existe um caminho para encontrar a Deus que não passa pelo Templo, pela pompa dos ritos nem pela observância estrita das leis. Desse modo, reconhece-se a vida como lugar privilegiado da Sua Presença.

O seguidor de Jesus não é aquele que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquele que, movido por uma radical compaixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, e aí se encarna e revela os traços da Misericórdia.

É neste mundo complexo que Deus nos chama a estender o seu Reinado, trabalhando cada dia como amigos de Jesus que passam, se compadecem, curam, ajudam, transformam, multiplicam os esforços humanos. Apaixonados por Deus e pelo mundo que, em sua diversidade, riqueza, profundidade e fragilidade revela o rosto misericordioso do Deus.
Jesus não fundou o clero nem quis instituir um corpo ou estamento de “homens sagrados”, uma espécie de funcionários do templo, constituindo-se numa “classe superior”. O que Jesus quis foi “discípulos/as” que lhe “seguissem”, e vivessem como Ele viveu.

Jesus, “rosto misericordioso do Pai”, continua passando diante de cada um de nós, parando e fazendo um chamado que desperta comoção e compaixão. Sua presença provocativa e seu chamado exigente colocam em questão o costume de nos refugiar na assepsia das doutrinas, na tranquilidade de uma vida ordenada, longe do rumor da vida e dos gritos daqueles que sofrem e morrem nas periferias deste mundo.

Escutar e seguir Seu chamado implica abandonar a estreiteza de nossos caminhos e deixar o nosso coração bater no ritmo dos doentes e marginalizados, vítimas da desumanização de nossa sociedade.

Como evitar que a aventura, na qual um dia nos embarcamos, nascida de uma paixão pelo Senhor e pelo seu Reino, transforme-se num tedioso cumprimento de normas e costumes? Estamos, talvez, experimentando a frustração de não ter acertado na rota da busca da vida na qual quisemos investir as nossas melhores energias?

Como Igreja, nem sempre temos adotado o estilo itinerante que Jesus propõe. Nosso caminhar torna-se lento e pesado; não acertamos o passo para acompanhar a humanidade; não temos agilidade para deslocar-nos em direção à margem sofredora; agarramos ao poder e às estruturas que tiram a mobilidade; enredamos nos interesses que não coincidem com o Reinado de Deus.

Para Jesus, o ideal de sua mística é estar sempre pronto para responder às oportunidades que são oferecidas pela vida.

Para isso é preciso despojar-nos de hábitos arraigados, pré-juízos, idéias fixas, modos fechados de viver e abandonar a atitude do “sempre fizemos assim”.



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