A pergunta mais difícil da psicanálise... (cf. Felipe Pimentel)

Caravaggio...

Quando Freud tentou desenvolver uma teoria das emoções e da mente, esbarrou numa grande dificuldade: pensando de forma razoável, julgou que nossa mente atua a nosso favor, isto é, que ela procura fazer o que lhe beneficia e se afastar do que lhe é nocivo. No início, Freud imaginou que o prazer regia nosso funcionamento mental (o prazer adquiriu várias noções em seu pensamento, sendo a primeira a ideia de uma homeostase, isto é, o equilíbrio ou estabilidade de estímulos), entrando somente em desacordo com a realidade bruta – que nos impedia de colocarmos em prática todos os nossos exercícios prazerosos.

Contudo, com a sua prática clínica, logo percebeu um equívoco. No atendimento de seus pacientes, era patente um movimento psicológico irracional da parte deles – comportamentos, emoções e pensamentos que iam, consciente ou inconscientemente, contra o indivíduo. Esses movimentos lhes traziam desprazer e sofrimento, lhes faziam repetir os mesmos erros, padrões de comportamento ou pensamento num ciclo mórbido de contornos aparentemente masoquistas. Escolhas amorosas semelhantes que levam sempre ao mesmo desastre no relacionamento; brigas com o namorado ou cônjuge que parecem boicotar a relação ou um momento de alegria; fracassos profissionais praticamente premeditados; boicotes ao sucesso privado ou público; ações praticamente deliberadas rumo à bancarrota financeira; enfim, um sujeito atentando contra si mesmo – que sentido teria isso?

A ideia de que o prazer regia a mente parecia não só insuficiente, mas contrária a tal percepção, de modo que Freud teve de renovar sua teoria com um conceito à primeira vista estranho: a pulsão de morte. Freud incluía, com esse conceito, um campo de “irracionalidade” no nosso funcionamento mental. De certo modo, Freud nunca conseguiu resolver esse dilema, tendo recorrido a explicações quase simbólicas, como a ideia de que duas forças antagônicas (eros, a pulsão de vida; e tânatos, a pulsão de morte) atuam em nossa mente. Assim, esse fenômeno irracional ocorreria quando da “vitória” de tânatos sobre eros.

Lacan também percebeu o mesmo fenômeno, trabalhando-o dentro de sua temática sobre o gozo, um conceito que abrangia aquele tipo de satisfação oriunda de uma repetição de sintomas ou padrões. Sua abordagem é mais profunda e – por incrível que pareça – mais esclarecedora que a de Freud, tornando-se um dos grandes trunfos da clínica lacaniana (Lacan distinguiu o gozo da pulsão, sendo esta caracterizada pela impossibilidade de atingir a satisfação plena). O que ela nos diz sobre esse fenômeno? Não temos como responder plenamente a pergunta sobre esse complexo e estranho dilema, mas podemos arriscar algumas hipóteses.

O encontro com a satisfação plena, quer se trate de atingir profissionalmente o topo profissional, quer encontrar um objeto amoroso que supostamente é tudo aquilo que desejávamos, adquire para as pessoas um caráter enlouquecedor (de fato, o gozo pleno existe, mas somente na loucura e na drogadição). A primeira razão para isso é que encontrar a plenitude (num objeto amoroso, por exemplo) é uma incrível ameaça de dependência: o que sobra de nós se encontrarmos fora de nós o objeto perfeito? Como sobreviveríamos não só a uma possível perda, mas ao cotidiano com ele – buscando garantir, a todo custo, sua permanência junto a nós? A segunda razão também assusta: encontrar o objeto perfeito nos assombra com a morte do desejo – se já o encontramos, o que nos fará levantar da cama, que força nos mobilizará, senão o desejo?

Por si só, o esvaziamento do desejo já nos angustia, porém o cenário é pior. Sem sua energia, não ficamos totalmente sem forças, mas uma nova força assume seu lugar: a angústia da perda do objeto perfeito. Quer dizer, ao invés de sermos movidos pela força erótica (no sentido metapsicológico, não sexual) do desejo, o somos por tânatos em sua face de angústia. O que nos parece melhor: no primeiro caso, não temos a plenitude da satisfação, mas apostamos na eterna busca do desejo; no segundo caso, vivenciamos a plenitude (ou um simulacro dela), tendo como companhia constante o medo da perda. Nós normalmente estamos no caminho da realização do desejo, e a encontramos nos mais diversos objetos por aí, sejam amorosos, sejam profissionais, sejam etéreos, sejam até materiais. Nossa neurose, quando leve, no máximo foge de uma relação amorosa, boicota uma ascensão profissional, inventa uma discussão de casal ou se perde na contabilidade financeira – são as autossabotagens que a literatura de autoajuda descobriu há pouco, e que a Psicanálise levou muito a sério: ferramentas que utilizamos para vivenciar nossas realizações e nossa plenitude sem enlouquecermos.


O que você pensa sobre isso?



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