5º DTC: VIVER EM REDES, SEM ENREDAR-SE... (cf. Pe. A. Palaoro SJ)

“Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes...”(Lc 5,4)

Jesus é o misterioso visitante que chega para nos advertir que precisamos nos libertar do tedioso cotidiano, quando ele se torna convencional e carregado de desencanto, pesado e estressante... Corremos o risco de sermos apenas imitadores ou repetidores, pois tememos nos perder na busca do novo.

O encontro com Jesus nos arranca da rotina do “sempre fizemos assim” e nos desafia a “pescar” de maneira diferente e no vasto mar que Ele nos oferece. Sua presença nos desperta para aquilo que devemos ser como seus(suas) seguidores(as).

São grandes os riscos de vivermos em mares estreitos; é comodismo delimitar, defender e fechar-se no próprio mar. Isso fazemos de maneira tão zelosa que nem vemos aquilo que está para além da margem onde nos estabilizamos. Tal estreiteza de vida aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, e à insensibilidade social.

Hoje, o lago de Tiberíades se converteu numa grande rede que abarca o mundo inteiro. Mas, o que as pessoas buscam nessa grande rede? E, sobretudo, o quê estamos oferecendo nela para evangelizar? Com um só click podemos chegar a milhões de pessoas, podemos fazer muito bem, mas também podemos criar muita confusão, podemos levar a mensagem de Jesus ou simplesmente fazer transparecer todo o nosso ego inflado, e cheio de si mesmo. As redes sociais têm seus perigos, mas também suas grandes oportunidades. Enquanto não evangelizemos a partir dos meios eletrônicos modernos, não poderemos encher nossas redes de peixes. Precisamos de evangelizadores nas redes sociais. Somos convidados a “ser pescadores do humano”.

Estamos no mundo das telas: através delas nos inter-conectamos, transmitimos informações e saberes. As diversas telas tendem à convergência: com um só dispositivo, fixo ou móvel, podemos falar, enviar e receber fotos, música, vídeos e qualquer tipo de arquivo.

O que caracteriza nosso tempo é a consciência de ser rede-comunhão-interconexão-unidade. Tempo surpreendente, onde as espetaculares inovações tecnológicas nos convidam a entrar numa inimaginável redede informações, imagens e conexões... Nosso planeta está dotado de uma complexíssima textura de comunicações. 

E aí estamos nós, seguidores(as) de Jesus, “en-redados(as)”, nos perguntando por nossa identidade cristã, na vivência do Evangelho e na missão de nos fazer presentes neste “novo mundo” global e interconectado; formamos parte de um todo. A realidade vai se revelando como um manto sem costuras, onde todos estamos implicados e comprometidos.

“Rema mar adentro!” A multidão permanece em terra; somente Pedro e seus companheiros se adentram no mar profundo. O “bados”(grego ) e o “altum” latim significam profundidade (alto mar); só nas profundezas é que se pode extrair o mais autêntico do ser humano, o que é mais nobre e divino. 

Ir mar adentro não é tão fácil como pode parecer. Exige ultrapassar as seguranças do “eu superficial” e adentrar-nos nas incontroladas águas de nosso ser profundo. Dizia Teilhard de Chardin: “Quando descia ao profundo de meu ser, chegou um momento em que não ‘dava mais pé’ e parecia que me deslizava para o vazio”.

O mar era o símbolo das forças do mal“Pescar homens” significava tirar alguém de um perigo grave. Não é fazer proselitismo ou converter as pessoas à força para a religião cristã. Aqui quer dizer: ajudar as pessoas a sair de todas as opressões que lhe impedem crescer e desenvolver suas potencialidades

Neste contexto, precisamos humanizar a rede para “pescar o humano”, que está escondido no oceano interior de cada um. Na rede há uma grande necessidade de silêncio para que possamos ouvir a verdade com amor. Há excessivas palavras, notícias falsas, “bullings”, campanhas desqualificadoras e comentários feitos com extrema má educação. 

Silêncio construtivo, linguagem propositiva, compreensiva que estenda pontes de diálogo, e que leve em conta o que “o outro” diz. Silêncio construtivo significa tomar partido pelos mais fracos e excluídos. Precisamos do azeite do consolo que cura as feridas, o vinho da esperança que nos une como irmãos, o pão da compaixão que alimenta e eleva. Precisamos fazer a “travessia” do estreito mar de nossa vida, onde nossas inúteis barcas e redes só “pescam” futilidades, para o grande oceano que Jesus nos oferece, carregado de vida e vida em plenitude.


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