5º DTQ: CONVERSÃO, passar do desprezo ao apreço do outro... (cf. Pe. A. Palaoro SJ)

“Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério” (Jo 8,4)

Um país que empequenece seus cidadãos para que possam ser mais dóceis em suas mãos, logo descobrirá que, com seres humanos apequenados, nenhuma coisa grande poderá ser realizada...  (Stuart Mill). Uma sociedade que “empequenece” as pessoas, nunca realizará grandes obras.

Uma afirmação assim, serve de advertência diante do nosso contexto social, político e religioso, onde a intolerância, o preconceito e a crítica destrutiva assumem contornos assustadores. Quando proferimos acusações ou expressões que ferem a reputação, estamos esvaziando nossas relações de humanismo, desembocando na barbárie, e passamos a viver na “sociedade do desprezo”.

O espírito de acusação e de humilhação do outro, é um espírito de morte. Este mal espírito aparece também na Igreja e em suas comunidades. Quantas pessoas já temos “empequenecidas” em nossa opinião! “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”.

As “pedras na mão” são fáceis de serem encontradas também em nossas vidas. Hoje são as pedras do whatsapp, do twitter, das mensagens preconceituosas, das fake-news..., que bloqueiam o futuro das pessoas através da crítica sem piedade, da indiferença que congela as relações... arrogância também tem raízes em nosso interior. Ela é a base de nossas intransigências e preconceitos, de nossas críticas e comentários maldosos... Tudo isso nos paralisa.

Uma sociedade que “empequenece” seus homens e mulheres não poderá ter futuro; uma igreja que “empequenece” seus membros, através de um moralismo e um legalismo doentio, também não poderá ser testemunha do evangelho; um grupo, dentro da igreja, que faça o mesmo, estará traindo o modo compassivo e acolhedor de Jesus.

A presença misericordiosa de Jesus aparece claramente na cena da “mulher adúltera”. Ali, a mulher é colocada no centro, pelas autoridades religiosas que tem a lei na mão. Vítima de julgamento, ela está no centro da morte. Não há saída, perante a lei.

Jesus, no entanto, toma outra atitude: desloca-se para o centro das atenções e se faz centro junto com a mulher. Ele está no centro da misericórdia, portanto, no centro da vida. Jesus inverte o sentido do centro: antes, centro de exclusão e violência, agora, centro como nova vida. 

Vivamos a Quaresma como um novo tempo para nossa sociedade, para a igreja, para as comunidades! Queira Deus que nos “beatifiquemos” uns aos outros “em vida”, com um olhar apreciativo fazendo acontecer o Reino de Deus.

Jesus sempre foi a luz, sem sombras nem exclusões. Quando Jesus se aproximava da realidade condenada, a olhava de maneira diferente do olhar domesticado pelo moralismo. Por isso, diante da insistência das autoridades religiosas que argumentavam com as pedras nas mãos, Jesus faz um silêncio, tempo e espaço que ajudam os acusadores a olhar de outra maneira. Olhando com amor há, sim, saída para a mulher adúltera. Os varões deixam cair as pedras de sua segurança e da lei, abrindo suas mãos para acolher outra visão. Assim, a mulher é salva da morte, da lei, de seu pecado e do cerco social que lhe negava a vida. Nesse dia, o povo que rodeava Jesus aprendeu a olhar. 

Jesus acerta ao dizer: “Quem não tem pecado, que atirea primeira pedra”. Diante destas palavras, que desnudam as atitudes farisaicas daqueles que se achavam “justos”, todos se afastam. Ninguém é melhor que ninguém. 

Com quê direito julgamos, desqualificamos e condenamos?

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