5º DTQ: Graça e amor para além da lei... (cf. D. Marcelo Barros OSB)


Nesse 5º domingo da Quaresma (ano C), lemos no evangelho o encontro de Jesus com a mulher quefoi surpreendida em flagrante de adultério(Jo 8, 1-11). Parece que não é um texto original do 4º evangelho. Seja como for, corresponde a uma atitude fundamental de Jesus; o encontro de Jesus com a mulher adúltera parece ter base histórica, pois os 4 evangelhos guardam a memória dessa cena.
Conforme João, a cena se passa no contexto da festa das Tendas, e o espaço é o Templo de Jerusalém;e acontece de manhã bem cedo, de madrugada. 
A festa das Tendas (Shukot) recorda a caminhada dos hebreus no deserto e retoma aesperança da libertação definitiva. O fato de que a cena aconteça no templo é muito significativa. O templo deveria ser o local da renovação da aliança de Deus com o seu povo, e sinal da presença divina para proteger os seus filhos e filhas, mas se torna local de julgamento e condenação das pessoas pecadoras.
Os escribas e fariseus, considerados os sábios da comunidade de Israel,guardiões da lei, vão condená-la. Conforme a Lei, o adultério era considerado pecado grave (Lv 20)... Mas, a primeira coisa que me incomoda no texto é ver como os religiosos da época querem a todo custo condenar Jesuse não fazem isso com instrumentos do mal. Ao contrário, se servem do que há de mais santo: a própria Lei de Moisés que o Judaísmo e o Cristianismo creem ter sido revelada por Deus. O texto deixa claro que, para os doutores da lei que a trouxeram a Jesus, a mulher e o seu adultério pouco importavam. Ela servia apenas como instrumento ou arma para pegar Jesus e o acusar perante o sinédrio, por ele ser contra a lei de Moisés. Os religiosos usaram a lei de Deus para matar a mulher e para poder acusar Jesus como desrespeitador da lei.

A lei de Deus se insere nas culturas humanas e por isso assume costumes humanos que na época, e hoje, nem sempre são os mais abertos. A sentença de apedrejar uma mulher adúltera era para salvar a instituição do casamento.Mas, de acordo com a mesma lei, o homem podia ter várias mulheres. E pela lei do levirato, a mulher deveria ser dada ao parente do marido morto como se fosse uma propriedade que ele herdou.
O evangelho, como está escrito, não discute a culpa da mulher. Já parte do princípio: ela é culpada. Jesus concordava com a lei para apedrejar a mulher ou se posicionava contra a lei de Deus...
Jesus não entra no jogo dos seus adversários.Não responde imediatamente. Inclina-se e começa a escrever no chão... É uma atitude estranha. Ele se nega a se concentrar no mal. Aqueles homens viam ali uma mulher adúltera, mas Jesus via uma pessoa humana, filha amada de Deus. 
Na Idade Média, o Mestre Eckhart ensinava: “Deus não olha o mal. Não se interessa por nossos pecados...”. Jesus quer outro modo de relação entre nós e Deus. Por isso, ele reage dizendo: “Está bem. Então, quem de vocês não tiver pecado, atire a primeira pedra”.
Jesus revelou a hipocrisia profunda que havia na atitude dos escribas e fariseus que condenavam a mulher. Aqueles homens sábios e religiosos foram até honestos. Saíram todos, um por um, a começar pelo mais velho. 
Hoje, em dia, há religiosos que, em nome da lei de Deus, condenam as pessoas que eles julgam pelas aparências. E nem sempre têm a honestidade de “sair”, isso é, de mudar de postura, quando fica claro que eles não teriam moral para condenar ninguém.
Será que esse mundo de denúncias morais que desabam sobre o clero e a hierarquia tornarão toda a nossa Igreja (clero e leigos) mais humilde, mais misericordiosa com os que são considerados pecadores? Ou será que os doutores da lei continuarão a esconder suas fraquezas pessoais sob a máscara do poder em nome de Deus? No caso contado nesse evangelho, Jesus se encontra sozinho, ele e a mulher, e ela confirma que ninguém a condenou. Jesus simplesmente lhe diz: Vai em paz e não peques mais...
Na época de Jesus, as mulheres eram vistas como fonte de impureza e ocasião de pecado e sedução. O próprio João Batista, o profeta que foi mestre de Jesus, foi morto por mando de uma mulher Herodíades, e pelo pedido de sua filha Salomé.
Os grupos judaicos, quando construíam as sinagogas faziam uma grade e as mulheres assistiam o culto do sábado por trás das grades. Jesus é diferente. Vivia rodeado de mulheres: Maria Madalena, Marta e Maria de Betânia, várias discípulas que o acompanharam desde a Galileia até Jerusalém, sem falar nas mulheres doentes e até prostitutas de aldeia que se aproximavam dele... Nenhum profeta era assim. Jesus olha as mulheres com olhos diferentes, e as trata com ternura. Defende sua dignidade. Até as acolhe como discípulas
O 4º evangelho fala pouco das mulheres, mas quando aparecem são protagonistas da ternura divina. As cenas mais afetuosas do evangelho são aquelas nas quais aparece uma mulher.Quem nos ensinará a olhar a mulher como Jesus as olhou?
Temos que sonhar com uma Igreja mais justa e mais igualitária em relação à mulher. Não se trata apenas de abrir os ministérios para as mulheres e sim de voltar ao evangelho e acabar com o sistema de duas classes na Igreja: os ordenados e os/as não ordenados/as. Só retomando a igualdade do discipulado de Jesus e a autonomia das comunidades para celebrar a ceia e os sinais do amor divino que superaremos a marginalização estrutural da mulher na Igreja. E só assim, a Igreja sendo exemplo de novo modo de ser no mundo conseguiremos lutar contra a violência doméstica e tantas situações nas quais a mulher é vítima.
Essa cena do Evangelho me lembra um fato acontecido na vida de Dom Helder Camara, já ancião e arcebispo emérito de Olinda e Recife. Um dia, uma mulher bate à porta do Dom Helder. Ele a acolheu e ela lhe falou:
-Dom Helder, eu sou prostituta, mas amo muito a Deus. Toda sexta-feira santa, por amor a Jesus, nosso Senhor, eu vou à penitenciária de Itamaracá e me ofereço ao prisioneiro mais só e abandonado que não tenha ninguém que lhe faça companhia. Há vários anos, faço isso. Mas, nesses dias, uma amiga, prostituta como eu, me disse que, ao fazer isso, eu ofendo a Nosso Senhor. Ele está muito magoado comigo. O que o senhor, Dom Helder, pensa disso? Jesus está com raiva de mim?
O santo arcebispo lhe respondeu:
- Não minha filha. Nunca Jesus fica magoado com você.
Ela enxugou as lágrimas e lhe fez ainda outra pergunta:
- Então, o que o senhor acha que eu devo fazer?
Dom Helder lhe respondeu:
- Siga a sua consciência e fique em paz.

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