Jesus e o Judaísmo... (cf. H. Sobel)


Jesus era judeu, e nascido de mãe judia. Foi circuncidado no oitavo dia, de acordo com a lei judaica, e se considerava um judeu fiel às suas origens. Ele era chamado de "rabino" e frequentava o Templo de Jerusalém, junto com seus discípulos. Ensinava nas sinagogas e sua mensagem era judaica, dirigida aos seus correligionários judeus.

Provas da "judaicidade" de Jesus não faltam no Novo Testamento. Ao ressaltar o que há de comum entre os ensinamentos de Jesus e os preceitos judaicos, não se pretende negar a singularidade e o caráter inovador da pregação desse grande mestre. Pretende-se apenas mostrar a falsa é propalada tese de que Jesus e os judeus de sua época eram adversários ideológicos. Não o eram e nem podiam ser, pois seguiam a mesma Bíblia. Como bem o explicou o Papa João Paulo II, em 1997Não se pode exprimir de maneira plena o mistério de Cristo sem recorrer ao Antigo Testamento. A identidade humana de Jesus define-se a partir do seu vínculo com o povo de Israel.

Devemos reconhecer também as numerosas diferenças entre as ideias propagadas por Jesus e as doutrinas judaicas. Alguns dos pronunciamentos de Jesus negam o ensinamento judaicoEu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai a não ser por mim... (Jo 14,6). Este relacionamento salvífico de Jesus com Deus, é alheia ao judaísmo.

Os profetas hebreus castigavam os pecadores, mas não perdoavam os pecados. Sob a perspectiva judaica, o perdão cabe somente a Deus. Jesus, entretanto, acreditava ter poder de perdoar qualquer pecado. Ele dizia: Saibam que o Filho do Homem tem autoridade na terra para perdoar os pecados... (Mt 9,6).

No que tange à lei de taliãoolho por olho, dente por dente, criticada por Jesus no Sermão da Montanha, não se tratava de uma cruel represália física, mas de um princípio jurídico segundo o qual a pena deveria ser proporcional à ofensa, e foi um progresso na jurisprudência da época.

O judaísmo exalta a família. Jesus, porém, advogava o celibato e desprezava os laços familiares, considerando-os uma barreira à devoção religiosa.

judaísmo ressalta a importância da oração coletiva, mas Jesus louvava a oração solitária (Mt 6,5-6). Mas, uma das principais divergências entre cristãos e judeus é se Jesus é ou não o Messias. Os primeiros discípulos de Jesus acreditaram que ele fosse o Messias e acrescentaram a palavra Cristo ao seu nome (Christos, em grego, é a tradução do termo hebraico Mashiach, Messias, "o ungido") e essa crença tornou-se o dogma do cristianismo. Os judeus não reconhecem Jesus como Messias. Tampouco a natureza divina de Jesus é aceita pelos judeus. A doutrina cristã de que Deus tornou-Se homem é incompatível com os princípios judaicos. De acordo com o judaísmo, Deus não pode Se materializar em nenhuma forma. O fato de existirem diferenças entre judeus e cristãos não deve e não pode impedir-nos de sermos irmãos e lutarmos juntos pelos grandes e nobres objetivos universais. Irmãos são diferentes e têm ideias e convicções diferentes. O que constitui um grave problema no relacionamento entre os adeptos do judaísmo e do cristianismo é a acusação de que os judeus mataram Jesus.

O antissemitismo já existia bem antes da época de Jesus. O sentimento anti-judaico foi crescendo por causa da sua diversidade (circuncisão, leis alimentares, normas de abate de animais, etc). A acusação de deicídio foi uma das principais causas do antissemitismo

No que tange ao martírio e morte de Jesus, é importante lembrar o caráter opressivo do governo romano na Judéia. Jesus foi crucificado por soldados romanos como criminoso político: "Rei dos Judeus". Mateus (27,25) é o mais pernicioso: O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos... É uma frase terrível dos evangelhos, e claramente anti-judaica.

A imagem negativa dos fariseus, encontrada em muitos textos cristãosproduziu uma visão distorcida do judaísmo. O debate de Jesus com os fariseus é um sinal de que ele os levava a sério. Portanto, os conflitos e controvérsias relatados no Novo Testamento devem ser vistos como discussões entre irmãos e não como disputas entre inimigos.  Foram fariseus que preveniram Jesus contra o perigo que ele corria (Lc 13,31). O documento Nostra Aetate, 1965, do Vaticano II, já havia repudiado a acusação de deicídio contra os judeus e condenado formalmente o antissemitismo. O documento afirma que a morte de Jesus "não pode ser indistintamente imputada a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus de hoje". "A Igreja (...) deplora os ódios, as perseguições, as manifestações antissemitas dirigidas contra os judeus em qualquer época e por qualquer pessoa." Foi um passo e tanto na história das relações católico-judaicas.

Contudo, mantiveram-se muitos ensinamentos da Igreja que se mostram prejudiciais aos judeus. O Papa João Paulo II designa os judeus como "o Povo de Deus da Antiga Aliança que jamais foi revogada", mas também afirma que o judaísmo não pode ser considerado um caminho para a salvação (salvação esta que somente pode ser alcançada através de Jesus). Afirma também que os judeus "foram escolhidos por Deus para preparar a vinda de Cristo" e que os eventos e personagens da Bíblia hebraica devem ser interpretados à luz do Novo Testamento . Esta negação da validade do judaísmo constitui um obstáculo ao diálogo teológico. Os judeus não podem aceitar a premissa, explícita ou implícita, de que sua redenção depende de Jesus Cristo.

Apesar disso, o progresso alcançado nas relações católico-judaicas nas últimas décadas é inquestionável. As barreiras de desconfiança mútua foram gradativamente se dissolvendo. De 1965 até hoje, estabeleceram-se mais contatos positivos do que em todos os 1900 anos anteriores. Estereótipos negativos estão sendo apagados. Referências antijudaicas estão sendo retiradas dos livros didáticos católicos e trechos com implicações antissemitas estão sendo removidos da liturgia. Toda uma geração de jovens está crescendo sem ter sido exposta ao ódio que anteriormente envenenava as relações judaico-cristãs.

figura de Jesus tem sido, infelizmente, um empecilho no relacionamento entre cristãos e judeus, uma justificativa para exclusão mútua, uma fonte de atrito e ressentimento. É de fundamental importância que Jesus seja reconhecido como um elo essencial entre os dois credos. Jesus é a ponte através da qual toda a cristandade passa a ser incluída como descendente de Abraão e, portanto, co-herdeira, juntamente com os judeus, do seu grandioso legado espiritual.

Muitos pensadores judeus, entre os quais o filósofo medieval Maimônides, consideraram Jesus como um instrumento divino para a conversão universal da humanidade. Segundo Maimônides: "Todos os ensinamentos de Jesus abriram o caminho para a vinda do Rei-Messias e prepararam os homens para se unirem e juntos servirem ao Deus único”.

Creio que é assim que Jesus gostaria de ser lembrado: não como um pomo de discórdia, e sim como um semeador da paz entre cristãos e judeus.


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