O GRITO DE UM AMIGO GAY...


Então, padre, minha fé deixou de existir. Não sei te explicar. Depois que retornei do Canadá, que eu vi o que o Estado Islâmico fez com os gays na Síria, que eu vi pessoas que se dizem católicas, cristãs fazendo às outras e a mim, enfim, aos LGBTs em geral; a própria Igreja, eu perdi a fé, perdi minha relação com deus a ponto de não crer mais em nada, sabe?!

E eu não consigo mais ter a fé, o temor que eu tinha. Eu sinto raiva de religião, de pessoas religiosas; sinto uma mágoa da ideia de deus.

No meu trabalho tem uma evangélica que eu gosto muito. Ela me traz muita paz e palavras de conforto. Ela sabe que eu sou gay e acredito que ela não me julgue por isso. Ela sempre fala para mim que deus tem algo tremendo em minha vida, que ele tem planos para mim, que ele cuida de mim; mas, padre, não consigo crer em nada disso. Não consigo orar, não consigo ter temor a deus mais. Não consigo mais crer em sua existência.

Mas, ao mesmo tempo, quando eu lembro como o senhor me acolheu em sua paróquia, eu me recordo que talvez possa existir um deus, mas que eu não consigo entender. Ao mesmo tempo, eu me sinto aliviado por não crer mais em deus. Consigo ter noites de sono tranquilas, algo que eu não tinha quando acreditava em deus, demônio, pecado, santidade. Enfim, queria seu auxílio espiritual.

Padre: filho de Deus! Entendo tua raiva pela Igreja e pessoas que marginalizam ou marginalizaram historicamente pessoas homo-afetivas... Os gays cristãos e católicos estão abrindo novos espaços nas Igrejas... Eu mesmo atrevidamente marquei um retiro para pessoas homo-afetivas ... 

Podemos continuar o papo, se quiser.
Eu quero, sim, padre!

SEG, 20:47
Oi, padre! 

Padre: Estávamos falando da sua dificuldade existencial para acreditar em Deus... Embora ele não tenha culpa das barbaridades históricas que nós fizemos...

Allan: Eu perdi completamente a fé, padre. Mais que isso, sinto raiva de religião e se deus existe, tenho mágoas. Por mais que muitos conversem comigo sobre isso, eu não consigo curar essas mágoas. Me dói muito.

Padre: Tá certo. Eu admiro outras pessoas homo-afetivas que experimentando as mesmas coisas que você, continuam acreditando e participando da Eucaristia...

Allan: Mas como elas conseguem, padre? Eu realmente não consigo. Mas não queria ter desacreditado em deus.

Sabe algo que me magoou muito? Ver amigos e parentes católicos votando em Bolsonaro, apoiando discurso de ódio. Cristo não coaduna com o ódio. Mas como Ele permite que as pessoas usem o nome dele, a palavra dele para odiar? Como a Igreja não vê problema em quem apoia tortura, armas, ódio, mas vê todos os problemas em pessoas LGBTs? 😞

Padre: Um bispo já disse que a igreja vai ter que pedir publicamente perdão por esse mal infligido... Os pecados são históricos, mas serão superados pelo amor... Não podemos ser tão estúpidos como Bolsonaro e os tapados que o seguem... Você é maior do que as nossas barbaridades cometidas...

Allan: Sabe algo que me entristece, padre? Eu já fui um rapaz de tanta fé: De orar, de meditar o rosário de Maria, de ir à missa e procurar viver uma vida de oração, de orar pelo próximo, de perdoar. Hoje não consigo dizer um pai nosso sequer, abrir uma bíblia; nem uma Ave-Maria; perdi a capacidade de perdoar... Só sinto mágoas de tudo e de todos. Mas, ao mesmo tempo, tenho medo de retornar à vida religiosa e viver bitolado, atordoado, achando que estou em pecado o tempo todo; com medo do demônio, sem conseguir dormir.

Padre: A fé é um dom que Deus dá de graça, tanbém aos gays... rsss. Não tenha medo de Deus (posso ter medo dos ministros de Deus!). Deus é maior do que as nossas barbaridades... Hoje, antes de dormir, faça o sinal da cruz... se quiser!

Allan: Farei, padre. Obrigado por me ouvir.
O senhor acredita que um dia eu voltarei a crer em deus?

Padre: Não sei. Mas sei que ele continua acreditando sempre em você... Bom descanso
Allan: Obrigado! ❤️ Para o senhor também!
Padre: Amigos sempre!

Padre: Bom dia. Veja o que coloquei hoje no meu blog... 

Allan. Achei excelente a abordagem em seu blog, padre! Ontem, depois da nossa conversa, fiquei mais leve. O senhor mostra um lado misericordioso de deus, que eu deixe há muito de enxergar nas pessoas, na vida. Obrigado por suas palavras e por me ouvir.

Padre: Ajude a construir pontes e não muros entre os homo e a Igreja...

Allan: Vou procurar restaurar minha fé. Nossa conversa ontem já foi um primeiro passo. Espero que um dia eu consiga dar esse passo: construir pontes...

Um comentário:

  1. É dessa acolhida que a igreja precisa. Mas ela ainda concontinua desprezando quem está fora e camuflado e protegendo os homossexuais que vivem em seu interior. Atitude bonita desse padre, meu amigo Ramon, mas vem o que há mta coisa a ser feita.

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