4. UM ESTRANHO NO CAMINHO...


A parábola de Lc 10, 25-37 recolhe uma perspectiva de séculos. Caim elimina o seu irmão Abel, e ressoa a pergunta de Deus: «Onde está Abel, teu irmão?» A resposta é a mesma que damos nós muitas vezes: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). Deus, com a sua pergunta, habilita-nos a criar uma cultura diferente, para superar inimizades e cuidar uns dos outros. 

 

Nas tradições judaicas, o dever de amar o outro e cuidar dele parecia limitar-se às relações entre os membros duma mesma nação. Todavia, especialmente no judaísmo desenvolvido fora da terra de Israel, as fronteiras foram-se ampliandoAparece o convite a não fazer aos outros o que não queres que te façam a ti (cf. Tb 4, 15). 

 

Este apelo universal, tende a abraçar a todos, só pela sua condição humana, porque o Pai do Céu, «faz com que o Sol se levante sobre os bons e os maus» (Mt 5, 45). «Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama, permanece na morte» (1 Jo 3, 14). «Aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 4, 20). 

 

Ao amor não lhe interessa se o irmão ferido vem daqui ou dacolá. Havia um homem ferido, estendido por terra no caminho, e que fora assaltado. Passaram vários ao seu lado mas, não pararam. Eram pessoas com funções importantes na sociedade. Não foram capazes de perder uns minutos para cuidar do ferido. Por fim, um parou, ofereceu-lhe proximidade, curou-o com as próprias mãos, pôs também dinheiro do seu bolso e ocupou-se dele. Sobretudo deu-lhe o seu tempoCom quem te identificas? A qual deles te assemelhas? Crescemos em muitos aspetos, mas somos analfabetos no acompanhar e cuidar os mais frágeis. 

 

Assaltam uma pessoa na rua, e alguns fogem como se não tivessem visto nada. Sintomas duma sociedade enferma, pois procura construir-se de costas para o sofrimento. O bom samaritano fez ver que «a existência de cada um de nós está ligada à dos outros: a vida não é tempo que passa, mas tempo de encontros. Diante de tanta dor, à vista de tantas feridas, a única via de saída é ser como o bom samaritano

 

Viver indiferentes à dor não é uma opção possível; não podemos deixar ninguém caído «nas margens da vida». Isto deve indignar-nos e fazer-nos descer da nossa serenidade alterando-nos com o sofrimento humano.  Hoje, há cada vez há mais feridos. A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define os projetos económicos, políticos, sociais e religiosos. Todos temos algo do ferido, do salteador, daqueles que passam ao largo, e também do bom samaritano

 

Existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo. De facto, caem as nossas múltiplas máscaras, rótulos e disfarces: é a hora da verdade.

 

A parábola começa com os salteadores. Os que passam ao largo vivem na indiferença, e eram pessoas religiosas: um sacerdote, um levita... «Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm o que vestir, nem O honres no templo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez».

 

Olhemos enfim o ferido. Às vezes sentimo-nos como ele, atirados para a margem da estrada. Sentimo-nos também abandonados pelas nossas instituições. Cada dia é-nos oferecida uma nova oportunidade, uma etapa nova. Sejamos parte ativa na reabilitação e apoio das sociedades feridas. 

 

É possível começar por baixo e caso a caso, lutar pelo mais concreto e local. As dificuldades que parecem enormes são a oportunidade para crescer. Mas não o façamos sozinhos, individualmente. O samaritano procurou um estalajadeiro que pudesse cuidar daquele homem. Lembremo-nos de que «o todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma das partes». Renunciemos à mesquinhez e ao ressentimento de particularismos estéreis, de contraposições sem fim. 

 

Todos temos uma responsabilidade pelo ferido que é o nosso povo. Quem é o meu próximo? (Lc 10, 29). A palavra «próximo» na sociedade do tempo de Jesus costumava ser a pessoa que está mais vizinha, mais próxima. Pensava-se que a ajuda devia encaminhar-se em primeiro lugar para aqueles que pertencem ao próprio grupo, à própria raça. Para alguns judeus de então, um samaritano era considerado um ser desprezível, impuro, e, por conseguinte, não estava incluído entre o próximo a quem se deveria ajudar. A proposta é fazer-se presente a quem precisa de ajuda. A conclusão de Jesus é um pedido: «Vai e faz tu também o mesmo» (Lc 10, 37). 

 

Reconhecer o próprio Cristo em cada irmão abandonado ou excluído. É importante que a catequese e a pregação incluam, de forma mais direta e clara, o sentido social da existência, a dimensão fraterna da espiritualidade, a convicção sobre a dignidade inalienável de cada pessoa, e as motivações para amar e acolher a todos

 

Para orar:

1º Lc 10, 25-37. O Reino de Deus: Bom samaritano... Vai e faze tu o mesmo!

 

2º Mt 25, 31-46. Duas bandeiras: Vinde benditos do meu pai...

 

3º Lc 2, 50-52. Nazaré: Vida oculta de Jesus e de Maria

 

4º Lc 4, 16-30. Jesus se apresenta na sinagoga de Nazaré...


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