Como chegar a Belém sem passar pelos centros comerciais? (cf. Pe. A. Palaoro SJ)

 Vamos a Belém ver este acontecimento que o Senhor nos revelou... (Lc 2,15)

 


Este Natal vai ser muito diferente dos anos anteriores. Para alguns, pode ser um tempo de dor pelas perdas familiares, amizades, trabalho, saúde... Devido ao confinamento, sentiremos muito não poder nos encontrar com tantas pessoas como gostaríamos, nem nos abraçar, nem prolongar a noite de festa. Este Natal vai ser vivido na vulnerabilidade e na incerteza sobre o futuro de nossas vidas, de nosso povo e de nossa mãe Terra.

 

O espírito natalino talvez nos ajude a encontrar uma outra maneira de superar o confinamento, menos arriscada e mais enriquecedora. Confinados por fora, des-confinados por dentro. Se estamos vazios por dentro, seremos vulneráveis a tudo; diferentes “vírus” poderão nos contaminar.  O consumismo, a competição, a política do “pão e circo”... roubaram o nosso Natal e deixaram o nosso interior vazio. Há tempo que celebramos o Natal sem “alma”.

 

Um Natal tão desfigurado, poderia ajudar a nos comunicar com maior profundidade. Ocasião propícia para recuperarmos o sentido de um natal mais humano e cristão. 

 

Este Natal pode ser um momento de aprendizagem vital. O confinamento imposto pela situação pandêmica é movido pelo amor, respeito, responsabilidade, solidariedade, empatia e cuidado dos outros?

 

Inspirados nos “pastores que vão a Belém”, poderemos sair do confinamento tão plenificados por dentro que seremos capazes de suportar a falta de contatos exteriores, tão necessários.

 

“Vamos a Belém”, disseram entre si os pastores, cheios de ânimo e surpresos. É noite e estão ao relento. De imediato a escuridão se ilumina, e irrompe a voz dos anjos: “Não tenhais medo. Hoje, na cidade de Davi nasceu para vós um Salvador”. E para lá se dirigiram.

 

Vamos a Belém com os pastores, e entremos com eles na gruta. Eles nos convidam e nos conduzem. Vamos sem medo de nossos limites, carregando em nosso peito a dor da humanidade inteira. Vamos a Belém!

 

Não um Belém de fantasia com reis magos, camelos e dromedários, com pastores ingênuos e neve de algodão, musgo e luzes intermitentes de cores variadas... Um Belém sem questionamento, sem mensagem; natal doce, regado a comidas e bebidas... Este tipo de “belém” não inquieta, nem incomoda, nem convida à reflexão e à oração.

 

O primeiro Belém não foi assim. Foi um acontecimento que gritava, e continua gritando aos quatro ventos que a situação não podia continuar como estava e como está hoje. Aquele Belém levantou a esperança dos pobres, pôs as periferias em efervescência, abriu um novo horizonte de sentido para toda a humanidade.

 

Deus não fixou morada entre as muralhas e palácios de Jerusalém, mas em uma aldeia insignificante, berço do rei Davi. Deus “tem um fraco” por aqueles que não são contados: uma aldeia pequena será o lugar eleito. O que ali aconteceu foi como um relâmpago na obscuridade da noite da história...

 

“Vamos a Belém”. Mas, a quê Belém? Os Evangelhos falam de Belém em termos proféticos, antes que históricos, e a profecia continua sem se cumprir: Belém continua sendo uma localidade submetida e ocupada, ontem por Roma e agora por Israel. Belém rodeada e isolada por um muro imenso de cimento, e de soldados armados que restringem a liberdade de entrada e de saída de seus habitantes...

 

Os Evangelhos não são crônicas daquilo que alguma vez aconteceu no campo dos pastores, nos aforas de Belém da Judéia. São muito mais profecia daquilo que devemos fazer para que aconteçateto, terra e trabalho para todos. Não foram escritos para contar o passado, mas para imaginar e suscitar o futuro.

 

Queremos voltar a sonhar, e que o sonho nos impulsione a construir o Belém de um futuro muito melhor para todos. Em Belém seremos pacificados de nossas aspirações de poder e vaidade, de nossas pressas e de nossos estresses; se permanecermos em silêncio ali, diante do menino deitado no presépio, brotará em nós um desejo profundo de sermos mais humanos.

 

Há muito que ver em Belém, mas somente os olhares dos pobres e pequenos se admirarão, e a paz do coração será sua recompensa. 


Acostumados a nos deixar impressionar pelo extraordinário e pomposo, somos incapazes de perceber como Deus vem diariamente a nós. 

 

Não podemos deixar que “nos roubem o verdadeiro Natal”!

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