Atualizações dos Exercícios Espirituais... (cf. Pe. Carlos PalácioSJ)

 


Uma palavra se faz necessária, sobre a necessidade e os limites das periódicas tentativas de "atualizar" os Exercícios. Elas nascem de uma constatação: a distância que existe entre a experiência de Inácio e a nossa: cultural, eclesial, social etc... Os Exercícios são um livro datado, e como todo texto do passado, eles exigem um esforço hermenêutico. Não só na letra da sua linguagem, mas sobretudo na intencionalidade da experiência espiritual que veiculam.

 

Há certas condições ou exigências sem as quais não se pode falar mais em adaptação. Em primeiro lugar, qualquer tentativa de "atualização" dos Exercícios pressupõe uma certa continuidade de experiências. Se existe um interesse em "atualizar" os Exercícios é porque reconhece-se neles algum valor que os torna significativos para os desafios que enfrenta hoje a fé cristã. Esta continuidade só pode situar-se no nível da experiência fundante e da sua significação permanente. 

 

Por trás da distância e para além da diferença de horizontes e perspectivas, os Exercícios fazem-nos comungar numa experiência comum que nos surpreende pela sua "atualidade". É a manifestação do caráter evangélico e das raízes cristãs da experiência inaciana.

 

Neste nível da experiência espiritual subjacente, a superação da distância que nos separa de Inácio, nada mais é do que um caso particular do problema que se colocou muito cedo à fé cristã: o caráter privilegiado e normativo do "tempo de Jesus" e a relação entre este "então" e o "agora", entre "aquele tempo" e o "tempo de hoje". A superação desta distância, antes de ser uma questão hermenêutica é uma questão teológica. É o problema da continuidade pessoal entre o Jesus terrestre e o Senhor ressuscitado, e da sua "atualidade", da sua presença real e histórica no meio da comunidade de fé. Sem ter consciência deste problema, as "atualizações" correm o risco de ficar muito aquém do que é a atualidade da experiência cristã. Haveria que se perguntar se esta falta de consciência ou a ausência de uma solução satisfatória para o problema não é o que condiciona mais de uma tentativa de "atualização" dos Exercícios. Neste nível prévio, o que está em jogo nos Exercícios é uma maneira de entender a experiência cristã e a sua atualidade..

 

A segunda condição ou exigência é de natureza hermenêutica e diz respeito à originalidade da experiência inaciana. Com efeito, Inácio não transmite, sem mais, o evangelho. Na medida em que se trata de uma apropriação original da experiência cristã comum, conteúdo e forma dos Exercícios são inseparáveis e se interpretam mutuamente. Qualquer "atualização" que pretenda ser "atualização" dos Exercícios deverá conhecer os pressupostos dos mesmos, respeitar a sua estrutura e levar a sério a sua lógica interna. Do contrário, tal tentativa estará condenada ao fracasso. 

 

Este confronto com a "objetividade" prévia dos Exercícios, tal como ela se apresenta, é, ao mesmo tempo, um limite e a garantia de toda e qualquer "atualização". O que significa que a "atualização" só é possível se, de alguma forma, os Exercícios possuírem em si mesmos o germe da sua atualidade, é neles que devem ser encontrados os critérios internos da própria atualização. Uma "atualização" só terá razão de ser se encontrar nos Exercícios uma correspondência básica para o que postula. Do contrário, deixará de ser adaptação dosExercícios para transformar-se em outra coisa. O interesse e a autenticidade da mesma passam pelo confronto com a "objetividade" dos Exercícios. 

 

 Há uma semelhança de estrutura entre o Evangelho e os Exercícios. Marcos resume a pregação de Jesus com estas palavras: "convertei-vos e crede no Evangelho" (1, 15). O que nos Exercícios equivale ao chamado à conversão (1ª semana), seguido do desdobramento da Boa Notícia ou Evangelho que são a vida, morte e ressurreição de Jesus, que nos chama a segui-lo (2ª, 3ª e 4ª semanas).

 

Além disso, a força dos Exercícios reside na contemplação da figura de Jesus. Três das quatro semanas têm como conteúdo a contemplação dos "mistérios" da sua vida, morte e ressurreição. Em certo sentido, a intuição teológica de Inácio está em sintonia com o que constitui uma das verdadeiras riquezas da cristologia moderna: a recuperação das etapas e do movimento interno da vida de Jesus e a convicção de que o mistério de Jesus só é compreensível na totalidade das etapas e na sua mútua relação. Os Exercícios, pois, estão plasmados evangelicamente. É, portanto, na sua raiz, por dentro, que eles são bíblicos.

 

Como é possível que isto tenha escapado ao esforço desenvolvido pelas chamadas transposições bíblicas dos Exercícios? Duas razões poderiam explicar este fato. A primeira é a identificação inconsciente (e indevida!) entre os Exercícios em si mesmos e o que deles fez uma certa tradição. A segunda é o desconhecimento da importância que tem para a experiência dos Exercícios a articulação entre o aspecto objetivo (conteúdo evangélico das contemplações) e o aspecto subjetivo (a evolução interna do exercitante).

 

A leitura ascética e moralizante que predominou durante muito tempo na prática dos Exercícios acabaria por ocultar a sua originalidade, teológica e espiritual, e a força da sua coerente arquitetura interna. O "pathos" da experiência inaciana de Deus, a busca incansável e apaixonada da sua vontade, o risco de uma liberdade situada e responsável desapareciam por trás de uma fidelidade literal e repetitiva. Arrancada do contexto e das estruturas que a tornam significativa, a linguagem dos Exercícios só podia aparecer cada vez mais opaca. Letra sem espírito e, portanto, presa fácil de todas as projeções.

 

É nesse contexto que surge e se torna compreensível a busca de uma linguagem mais direta como a bíblica. Mas a ambiguidade dos chamados "Exercícios bíblicos" está, precisamente, em desconhecer a coerência interna e a lógica profunda da estruturação do texto inaciano. E aqui está a segunda razão antes apontada. O uso abundante dos textos evangélicos, a busca de equivalências bíblicas para cada meditação, não fazem ainda os Exercícios inacianos. O contato com a Escritura tem sentido e valor por si mesmo. O que Inácio propõe não é simplesmente a meditação do evangelho, mas uma maneira de meditar o evangelho. A seleção e a sequência dos "mistérios" de Jesus Cristo estão em função da evolução e do amadurecimento da opção do exercitante, da sua adesão real a Jesus Cristo. Essa é a força e a originalidade do método inaciano. Por isso, sem conhecer e respeitar essa dinâmica, a transposição bíblica, por mais rica que seja, será outra coisa, mas não será adaptação dos Exercícios.

 

Os Exercícios não poderiam escapar ao desafio que o contexto latino-americano levanta para a fé cristã. Como a Igreja e a teologia, a espiritualidade (isto é, a maneira de ser e de viver como cristãos) não pode abstrair deste contexto. Mas como encontrar uma resposta a esta preocupação que brote do interior da experiência mesma dos Exercícios? Sem isso, os Exercícios seriam apenas a "ocasião" para uma conscientização sobre o contexto social. Mas tal discurso, por mais generoso e necessário que seja, estaria fora de lugar. E, provavelmente, provocaria uma reação defensiva, tão nociva para a causa dos pobres, quanto para a experiência espiritual.

 

A tradição nem sempre foi fiel à intuição inaciana. O divórcio entre fé e vida que se instalou na consciência eclesial não poderia deixar de ter reflexos na tradição dos Exercícios. A abstração da realidade e o recolhimento numa interioridade intimista são manifestações do que acima chamamos leitura ascética e moralizante dos Exercícios. Ora, a experiência de Inácio nada tem de alienante. O seu realismo é o melhor antídoto contra qualquer veleidade de escapismo na vida espiritual. Nos Exercícios a experiência espiritual nasce e se desenvolve em confronto com a vida. Recuperar esse equilíbrio é o primeiro passo para integrar na gênese mesma da experiência os desafios que nos vêm do contexto.

 

Um segundo e decisivo elemento nos é oferecido pelo que antes foi designado como pólo subjetivo da experiência, isto é, o cuidado com que Inácio acompanha a evolução da liberdade do exercitante. A articulação entre os momentos da liberdade (explicitados e discernidos nas chamadas "meditações inacianas") e a contemplação da vida de Cristo não é um exercício dialético para intérpretes com exigências especulativas. É outra marca do realismo inaciano. A liberdade em questão é uma liberdade situada. É impossível, portanto, entrar na experiência deixando de fora o contexto. Ou, pelo menos, deveria sê-lo. E aqui entra o papel, discreto, mas indispensável daquele que "dá os Exercícios". O que supõe que também ele esteja "situado". Porque dele se espera não só o conhecimento da estrutura e da lógica interna dos Exercícios, mas também o conhecimento da realidade e a consciência do que supõe (e do que exige) "fazer os Exercícios" num determinado contexto.

 

Haveria que perguntar-se se a atenção a estes aspectos não seria a melhor maneira de levar a sério as exigências muito justas da "leitura latino-americana dos Exercícios" e, sobretudo, de integrá-las eficazmente na experiência espiritual. Do contrário corremos o risco de repetir aqui algo equivalente do que aconteceu com as transposições "bíblicas".

 

O caráter latino-americano dos Exercícios não reside na quantidade de textos de Medellín ou de Puebla que possam ser citados em cada meditação. Nem da constante alusão a um abstrato "homem latino-americano". A encarnação dos Exercícios neste contexto - e, portanto a sua verdadeira "atualização" - dependerá da força interpeladora que essa realidade tenha sobre o exercitante. O papel do Diretor é decisivo nessa tomada de consciência - inquietante e desinstaladora- da realidade. Mas ele deve manter-se dentro da discrição que lhe adjudica Inácio. 

 

Também aqui é válida a indicação que Inácio dá para a apresentação dos "mistérios": narrar fielmente a história, limitando-se ao seu verdadeiro fundamento e percorrendo os pontos com um breve comentário (EE 2). A conversão não é o resultado da "doutrinação" feita pelo Diretor, mas fruto do encontro da liberdade situada do exercitante com a vida de Jesus.

 

Não se trata de querer encontrar tudo nos Exercícios. Nem de ignorar as dificuldades que levanta a sua interpretação. E muito menos de negar a necessidade de que a experiência por eles veiculada seja vivida com realismo e responda às exigências de uma fé encarnada. Mas se quisermos ainda utilizar essa “mediação” como expressão da nossa experiência, é preciso levar a sério os pressupostos que ela mesma se dá. Do contrário não se trataria mais de uma "atualização", mas de outra experiência.



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