Lei e Graça para hebreus e cristãos... (cf. Victor M. Fernández, Arcebispo de La Plata)

 


Dias atrás, o Papa Francisco comentou a carta de S. Paulo aos Gálatas, e parece que destacou a caducidade da Lei frente a Graça, que Paulo agora proclamava. O Grande Rabino de Jerusalém pediu educadamente que o Papa `esclarecesse´ melhor o seu comentário, coisa que agora o Arcebispo de La Plata tenta fazer de um modo bem mais ecumênico...


Quando São Paulo fala de justificação pela fé, ele está na verdade assumindo convicções profundas de algumas tradições judaicas. Porque se alguém afirmasse que a sua justificação é obtida através do cumprimento da Lei com as próprias forças, sem ajuda divinaestaria caindo na pior das idolatrias, que consiste em adorar a si mesmo, suas forças e suas obras, ao invés de adorar o único Deus.

 

É essencial lembrar que alguns textos do Antigo Testamento e muitos textos extra-bíblicos hebraicos já mostravam uma religiosidade da confiança no amor de Deus e convidavam a um cumprimento da Lei ativada nas profundezas do coração pela ação divina (cf. Jr 31, 3,33-34; Ez 11, 19-20; 36, 25-27; Os 11, 1-9, etc.) A "emuná", atitude de profunda confiança em Yahweh, ativa o cumprimento autêntico da Lei, que "está no cerne da exigência de toda a Torá".

 

Um eco recente dessa antiga crença judaica, que renuncia à auto suficiência diante de Deus, pode ser encontrado na seguinte frase do Rabbi Israel Baal Shem Tov (início do século 19): “Temo muito mais minhas boas ações que me produzem prazer do que as más que me horrorizam ”.

 

As tradições judaicas também reconhecem que cumprir totalmente a Lei requer uma mudança que começa nos corações. Cristãos e judeus dizem que o cumprimento externo de certos costumes não é possível sem o impulso interno de Deus. A teologia judaica na verdade coincide com a doutrina cristã neste ponto, especialmente se partirmos da leitura de Jeremias e Ezequiel, onde a necessidade de purificação e a transformação do coração aparecem. Como não ver em Rm 2, 28-29 uma continuação e aprofundamento de Jr 4, 4; 9, 24-25)? Judeus e cristãos reconhecem que só a lei externa não nos pode mudar sem a obra purificadora e transformadora de Deus (Ez 36,25-27), que por nós já começou a fazer-se presente no seu Messias (Gl 2, 20-21) .

 

Por outro lado, lembremos que segundo a interpretação profunda de Santo Agostinho e Santo Tomás sobre a teologia paulina da nova leia esterilidade de uma lei externa sem ajuda divina não é apenas uma característica da lei judaicamas também dos preceitos que o próprio Jesus nos deixou: “Até a letra do Evangelho mataria se não tivesse a graça interior da fé que cura”.

 

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