2º DTP: Tocar as chagas da humanidade... (cf. Pe. A. Palaoro SJ)

Mostrou-lhes as mãos e o lado... (Jo 20, 20)

Os relatos das Aparições não são uma crônica de acontecimentos, mas vivências internas do fato acontecido. O que João nos transmite está além do que entra pelos sentidos ou podemos até imaginar.

O relato deste domingo é uma catequesevincula a ressurreição com a paz, o dom do Espírito, o perdão, a fé, a missão...  E por outra, mostra aos cristãos da “segunda geração”, que não haviam conhecido o Jesus histórico, como viver e experimentar o Senhor Ressuscitado. O apóstolo Tomé nos representa: “Bem-aventurados aqueles que creram sem terem visto!”

Alguns se sentem escandalizados com o Evangelho deste 2º Dom. de Páscoa. Como é possível que o Senhor Ressuscitado conserve as chagas no seu corpo? Frente aos riscos de um falso espiritualismo, o Evangelho de João quis ressaltar a corporalidade do Cristo Ressuscitado, dando um destaque especial às chagas das mãos e do lado aberto. O mesmo corpo ferido com cravos e lança, se converte em um sinal visível de Ressurreição, e que continua presente na realidade de muitas pessoas.

A morte de Jesus não foi um acidente de percurso; o Senhor ressuscitado continua sendo Aquele que leva em suas mãos e em seu lado as feridas de sua entrega, os sinais de seu amor crucificado em favor da humanidade. O Senhor ressuscitado continua sendo Aquele que sofre em todos os que sofrem no mundo. Como cristãos, professamos: “o Ressuscitado é o Crucificado”. Contemplar o Ressuscitado chagado impulsiona a continuar encontrando o mesmo Jesus nas chagas de todos os sofredores da história.

João conservou o registro da experiência de Madalena e o de Tomé, para revelar-nos que a Páscoa significa tocar, de um modo mais profundo, as chagas de Jesus ressuscitado.

Maria Madalena havia “tocado em Jesus” no horto pascal, porque o amava, e pela alegria de saber que Ele estava vivo. Mas, depois teve que deixar de tocá-lo fisicamente (“não me toques”), a fim de `tocá-lo e conhecê-lo´ de um modo diferente, levando a mensagem da Vida de Jesus aos discípulos, fechados numa casa: Eu vi o Senhor! 

Tomé, pelo contrário, precisou aprender a ativar os sentidos d um modo diferente: olhar, escutar, tocar...; descer do pedestal dos seus dogmas, das ideias separadas, para retomar a experiência concreta do amor de Jesus, que é vida entregue pelos outros, amor chagado. Não basta crer em Jesus, separado de sua vida de compromisso em favor da vida; para crer nele é preciso tocar suas chagas, que são as chagas do mundo ferido por falta de amor.

Tomé nos representa quando nossa espiritualidade carece de um compromisso social, sem solidariedade com os pobres e excluídos. Não era ainda um apóstolo “cristão” de Jesus crucificado, mas um judeu piedoso e amigo dele.

“Tocar” as chagas do Senhor é comprometer-se também com as feridas sangrentas da história humana, com a dor das pessoas oprimidas, torturadas e assassinadas. É o que fez o Papa Francisco `reconhecendo´ a santidade de Dom Romero e agora dos mártires argentinos de la Rioja (Enrique Angelelli (bispo), Carlos Murias e Gabriel Longueville (padres) e Wenceslao Pedernera, leigo).

O Ressuscitado é o mesmo Jesus crucificado. Trata-se de crer no poder da Cruz, quando a condição humana é elevada a seu cume. Já não há lugar para o medo da morte. Ninguém poderá tirar de Jesus a verdadeira Vida, nem tirá-la dos seus discípulos. As cicatrizes que Ele carrega são marcas da vitória, além de garantir a identificação do Ressuscitado com Jesus Crucificado.

Podemos dizer que a experiência de Tomé é também a daqueles que tem dificuldade de aceitar uma igreja ao lado dos pobres, estilo Papa Francisco. Só quando assumimos esta realidade, poderemos testemunhar:“O Crucificado ressuscitou!”

Suas feridas, agora cicatrizadas, são sinal de uma grande Vitória. E os sinais que Ele nos mostra são para que possamos, também nós, pôr nossas mãos nas feridas que continuam abertas nas mãos e lados de tantas irmãs e irmãos, e até de nós mesmos. O Ressuscitado continua carregando todas suas chagas, e convida-nos a tocá-las, e a reconciliar-nos com tudo o que ainda não foi integrado, curado e pacificado em nós e ao nosso redor. 

Páscoa é tocar e acompanhar Jesus nos chagados da vida. 

Páscoa é também (ao mesmo tempo) sentir nas mãos e nos dedos, no coração e no olhar, o abraço de amor de todas as pessoas. Não há Páscoa de Jesus sem corpo-a-corpo da intimidade e proximidade, de homens e mulheres, de crianças e idosos, nos diversos tipos de encontro e comunhão, não para possuir mas para compartilhar, não para impor-se, mas para juntos abrir caminhos sempre novos de respeito e admiração. Assim nos toca Jesus, assim se deixa tocar por nós.



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