7. APRENDIZADO DE INÁCIO de LOYOLA... (cf. Pe. Ulpiano V. SJ)


Primeira lição: O início do processo de alfabetização de Inácio na vida espiritual dá-se por ocasião de sua convalescença em Loyola, quando não sendo encontrados, em casa, romances de cavalaria, conforme seu desejo e pedido, "deram-lhe uma Vita Christi e um livro da Vida dos Santos em vernáculo" (Aut. 5). Inicia, pois, seu aprendizado através dos livros que lhe marcam uma trajetória histórica: a vida de Cristo e a vida de santos. "Lendo-os, muitas vezes, algum tanto ia se afeiçoando ao que ali estava escrito" (Aut. 6). 

Inácio começa a fazer um percurso. Essas histórias, essa história vai sendo percorrida, atravessada, e ele começa a ser afetado por ela: "algum tanto ia se afeiçoando ao que ali estava escrito". Deste "ser afetado" brota a reflexão e sentimentos que se entrechocam: pensamentos e sentimentos diversos e opostos que o levam em duas direções divergentes.

A primeira lição acontece quando Inácio toma consciência de que há dois discursos com assuntos e direções diversas. "Algumas vezes parava a pensar no que havia lido. Outras vezes, em assuntos do mundo, em que antes costumava pensar... Imaginava o que faria em serviço de uma senhora, os meios que empregaria para ir à terra onde ela se achava, os motes, as palavras que lhe diria, os feitos de arma que empreenderia em seu serviço. Ficava, com isso, tão desvanecido que não olhava quão impossível era poder alcançá-lo. Porque a senhora não era de vulgar nobreza, nem condessa, nem duquesa, mas seu estado era mais alto que qualquer destes" (Aut. 6). 

"Contudo, Nosso Senhor o socorria, fazendo suceder a estes pensamentos outros que nasciam de suas leituras. Porque lendo a vida de Nosso Senhor e dos Santos, parava a pensar, raciocinando consigo: 'E se eu realizasse isto que fez São Francisco? e isto que fez São Domingos?... São Domingos fez isto, pois eu hei de fazê-lo. São Francisco fez isto, pois eu hei de fazê-lo'. Duravam também, estas idéias, longas horas" (Aut. 7). "Mas tudo o que desejava realizar, logo que sarasse, era ir a Jerusalém..." (Aut. 9).

Discurso, para Inácio, é também um percurso que o leva de um lugar a outroao castelo da dama a quem deseja servir ou ir a Jerusalém. Esta imagem física de deslocamento geográfico serve de suporte para um percurso mental e, em seguida, espiritual. O fato de perceber essa alternância vai capacitá-lo a fazer uma leitura da significação destes discursos e percursos.

Essa percepção do significado dos discursos é assim narrada na autobiografia: "Notou, todavia, esta diferença: quando pensava nos assuntos do mundo, tinha muito prazer; mas, quando, depois de cansado, os deixava, achava-se seco e descontente. Ao contrário, quando pensava em ir a Jerusalém descalço, em não comer senão verduras, em imitar todos os mais rigores que via nos santos, não se consolava só quando se detinha em tais pensamentos, mas ainda, depois de os deixar, ficava contente e alegre... e começou a maravilhar-se desta diversidade e refletir sobre ela. Colheu, então, por experiência, que de uns pensamentos ficava triste e de outros alegres. Assim veio, pouco a pouco, a conhecer a diversidade dos espíritos que o moviam, um do demônio e outro de Deus" (Aut. 8).

Há pois, três níveis ou momentos de significação:
- Primeiro nível: superficial ou exterior: a tomada de consciência da diversidade de pensamentos e fantasias. Tais pensamentos, na medida em que evoluem e se encadeiam formam um discurso que contém no seu bojo, propostas divergentes: ou o mundo (simbolizado no castelo da senhora de seus sonhos) ou Jerusalém.
- Segundo nível: esses pensamentos conduzem a outra diversidade e que Inácio atribui maior importância: a diversidade de sentimentos que ele chama de consolação e desolação. Nota, contudo, que as marcas que a consolação e a desolação deixam são igualmente diversas. Fascinado pelas fantasias mundanas, observa que este empolgamento somente dura enquanto está pensando nelas, ao passo que, a consolação de Cristo tem uma duração prolongada: "Não se consolava só quando se detinha em tais pensamentos, mas ainda, depois de os deixar, ficava contente e alegre".
- Terceiro nível: desta tomada de consciência surge o terceiro nível, mais fundamental, que começa a conhecer por experiência: a diversidade dos espíritos. Percebe a ação de dois agentes em cena: Deus e o inimigo da natureza humana.

Usamos máscaras quando não queremos revelar nosso interior: O que pensamos ou o que sentimos...  

Poderíamos resumir os três níveis de experiência interior no seguinte quadro: 

1º nível: diversidade de pensamentos e imagens
              (negativos/mundo X positivos/Jerusalém).

2º nível: diversidade de sentimentos
               (desolação/negativo consolação/positivo)  

3º nível: diversidade de espíritos 
               (mal espírito Bom Espírito) 

Por 1ª lição entendemos, a experiência espiritual articulada de Inácio. Evidentemente Deus estava presente na vida de Inácio desde sua concepção, como está na vida de todo ser humano, mas Inácio não captava esta presença e não compreendia como Ele agia, falava e se manifestava: Não entendia a linguagem de Deus; era um analfabeto espiritual...
            
Por ocasião de sua conversão, Inácio descobre uma chave de leitura que lhe possibilita uma primeira compreensão da linguagem de Deus: a experiência espiritual articulada. Articular a diversidade de pensamentos, com a diversidade de sentimentos e finalmente com a diversidade dos espíritos que o moviam. A isto ele chama de primeira lição.

De posse deste instrumento de leitura da própria experiência, Inácio acelera o passo acolhendo as moções do bom espírito e rejeitando as do mau espírito. Em seguida, chama de lição a toda experiência mais significativa dos espíritos. "São duas as lições que o Senhor nos dá ou melhor, uma ele dá (a consolação) e a outra ele permite (a desolação) (Carta a Tereza Rajadell).

Aprendemos muito sobre Deus e sobre nós mesmos tanto na consolação como na desolação.


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